FEEDBACK DE HABILIDADES COMUNICATIVAS DOS PROFESSORES NO ENSINO EM ENFERMAGEM: CONSTRUÇÃO E VALIDAÇÃO DE INSTRUMENTO

RESUMO

Objetivo: construir e validar um instrumento para avaliar o feedback sobre as habilidades comunicativas de professores de enfermagem conforme a percepção dos estudantes. Método: Estudo metodológico realizado em 8 etapas, em duas instituições públicas de ensino superior. A construção apoiou-se em referenciais teóricos da comunicação e da importância das habilidades comunicativas dos docentes, culminando em uma escala likert, com 24 sentenças. Realizou-se a validação de conteúdo, construto com análise fatorial exploratória e a confiabilidade foi verificada pelo coeficiente alfa de cronbach. Resultados: o valor do alfa de cronbach foi de 0,97, a validação de conteúdo evidenciou objetividade e precisão (90%), credibilidade, clareza e pertinência (81%). Após ajustes, aplicou-se o instrumento para 10 estudantes na fase de pré-teste. A análise fatorial (n= 162) organizou o instrumento em quatro domínios e em 22  sentenças. Conclusão: o instrumento é válido e fidedigno e pode ser aplicado para avaliar o feedback das habilidades comunicativas.

DESCRITORES: Estudos de validação; Feedback; Comunicação; Aprendizagem; Enfermagem

INTRODUÇÃO

O feedback é considerado fundamental no processo de ensino-aprendizagem, pois fornece informações imprescindíveis para estudantes e professores acerca da efetividade deste    processo e o quão distantes ou próximos estão do alcance dos objetivos de aprendizagem(1).

 É necessária a qualificação do docente e a formação contínua no desenvolvimento de competências profissionais, sobretudo, nas habilidades de comunicação para    realizar e receber feedback dos alunos, pois constituem instrumentos essenciais para           a prática docente(2,3).

Um estudo identificou que os educadores consideram desafiador a realização do feedback na interação face-a-face com os estudantes, sobretudo quando é necessário a realização de comentários negativos, além de valorizarem a autoavaliação do aluno e o feedback      realizado em grupo entre os estudantes(4).

O feedback realizado com inespeficidade e sem sugestões de melhorias ocasiona insatisfação(5,6) nos estudantes que preferem que o feedback seja construtivo, objetivo e baseado em critérios de avaliação pré definidos, ao invés de críticas generalizadas(7).

 Os alunos preferem receber o feedback de forma individualizada, sendo a modalidade presencial, de interação com o professor, muito valorizada, além de preferirem ouvir ou ver o provedor do feedback, pois, segundo eles, há menores chances de má interpretação das mensagens, facilitando a compreensão, uma vez que, o tom de voz e a linguagem corporal também são considerados(4).

Na trajetória acadêmica, o docente desempenha um papel essencial, sendo necessário que as competências educativas estejam direcionadas para as necessidades dos estudantes, sendo a competência comunicativa significativa para a efetividade do processo de ensino-aprendizagem(3).

Até o momento, pesquisas atuais sobre esta temática são escassas, demonstrando que há insuficiência de instrumentos oriundos de autores brasileiros, que avaliem as habilidades de comunicação, sendo encontrados apenas  instrumentos traduzidos e adaptados de outros países para a avaliação de habilidades comunicativas,(8) portanto,  faz-se necessário a construção e validação de um instrumento adaptado para a realidade do ensino brasileiro de enfermagem.

Diante do exposto, questiona-se, neste estudo, como avaliar o feedback das habilidades comunicativas dos professores sob a percepção de estudantes de graduação em enfermagem, considerando a limitação de instrumentos que avaliam este aspecto, sobretudo no processo de ensino- aprendizagem.

Portanto, objetivamos construir e validar, pela primeira vez no Brasil, um instrumento específico e robusto para avaliar o feedback das       habilidades comunicativas dos professores sob a percepção de estudantes, abordando uma lacuna crítica na educação em enfermagem.

MÉTODO

Trata-se de um estudo metodológico realizado em 8 etapas(9): sendo a primeira; estabelecimento da estrutura conceitual, definição dos objetivos do instrumento e da população envolvida; segunda; construção das sentenças e das escalas de resposta; terceira; seleção e organização das sentenças; quarta; validação de conteúdo; quinta; reestruturação do instrumento; sexta; realização do pré-teste com a população-alvo; sétima; validação de construto e análise da confiabilidade por meio do cálculo do coeficiente alfa de cronbach e oitava etapa; apresentação da versão final do instrumento.

As etapas 1 e 2 do estudo foram realizadas a partir da inquietação dos pesquisadores com a temática, buscando-se construir um instrumento que contemplasse aspectos que avaliassem o feedback das habilidades comunicativas dos professores no ensino da enfermagem, sob a perspectiva do estudante.

A construção do instrumento foi realizada pelos pesquisadores, que são estudiosos da temática, contendo 24 sentenças com os pressupostos essenciais do processo comunicativo interpessoal dos referenciais teóricos,(10,11) enfocando os elementos da comunicação, comunicação verbal, não verbal e as variáveis envolvidas no processo comunicativo, além da importância das habilidades comunicativas dos docentes no processo de ensino-aprendizagem em enfermagem(12).   

Optou-se pela escolha da escala de julgamento do tipo likert de cinco alternativas, com         as opções de resposta: (1) sempre, (2) frequentemente, (3) às vezes, (4) raramente e (5) nunca. O escore total do instrumento variava de 24 a 120 pontos, sendo que, quanto maior o valor do escore final, menor  seria a percepção do feedback eficaz pelo aluno; contrariamente, quanto menor o escore final, maior seria a percepção de feedback eficaz pelo estudante.

A terceira etapa correspondeu à seleção e organização das sentenças que iriam compor o instrumento, definição do título “Feedback de habilidades comunicativas dos professores  no ensino da enfermagem” e as instruções necessárias para o preenchimento pelos estudantes.

A etapa 4 foi representada pela realização da validade de conteúdo. Inicialmente, deu- se a seleção dos especialistas com a busca dos mesmos na plataforma lattes, do portal  do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a partir da junção dos Descritores em Ciências da Saúde; “comunicação”, “relações interpessoais”, “docentes de enfermagem” e “estudantes de enfermagem”.

Os critérios de inclusão estabelecidos para a seleção foram: ser brasileiro, possuir graduação em enfermagem, titulação mínima de doutor e ser pesquisador da temática de comunicação em saúde, comprovado por publicações científicas nos últimos dez anos sobre esta temática.

Foram excluídos especialistas que não possuiam graduação em enfermagem e que não apresentavam publicações científicas relacionadas à temática de comunicação em saúde.

Após a análise individual dos currículos lattes e observância aos critérios de inclusão do  estudo, foram selecionados e convidados à participação 29 especialistas da temática de comunicação em saúde de todo o Brasil. Para aqueles que não responderam os pesquisadores, foram enviados mais dois e-mails com o convite, no período de quinze dias entre os mesmos.

A partir da concordância à participação, os especialistas preencheram um questionário, elaborado pelos pesquisadores, composto por três partes.

A primeira parte continha questões referentes à caracterização, incluindo idade, sexo, tempo de formação em enfermagem, instituição em que trabalhava e natureza jurídica, cargo ou função atual e titulação máxima adquirida. A segunda continha o instrumento para análise e um formulário elaborado no “Google Forms”, com itens que avaliavam o conteúdo do instrumento, por meio dos critérios de objetividade, clareza, precisão, pertinência e credibilidade(9). Já a terceira parte do formulário abrangia espaço adicional para sugestões e correções, a critério do especialista.

Foi estabelecido o período de 20 dias para o envio do formulário preenchido pelos especialistas aos pesquisadores.

Os dados coletados nesta etapa foram registrados na plataforma do “Google Forms”.

Para a verificação do construto mensurado e avaliação das propriedades psicométricas, adotou-se o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), sendo considerados adequados os valores de porcentagem de concordância de respostas superiores a 0,80 e, preferencialmente, maior que  0,90(13).

Os itens que não receberam pontuação de 1 ou 2 na escala likert deveriam ser revisados ou eliminados. O cálculo do IVC de cada item do instrumento foi realizado pela soma das respostas          3 e 4 dos participantes e o resultado dividido pela soma do número total de respostas(13).

A quinta etapa compreendeu os ajustes e correções no instrumento original a partir da validação de conteúdo e sugestões pelos especialistas. Em seguida, o instrumento modificado foi aplicado na fase de pré-teste para graduandos de enfermagem, correspondendo à sexta etapa do        estudo.

Para a fase de pré-teste, foram convidados à participação todos os estudantes matriculados  no terceiro ano do curso de uma instituição pública de ensino superior, situada no interior do estado de São Paulo, Brasil, totalizando-se 30 estudantes.

O terceiro ano do curso foi selecionado por considerarmos que, nessa fase os alunos possuem     maior pensamento crítico-reflexivo sobre o desenvolvimento de sua trajetória acadêmica, além  de terem vivenciado diversas oportunidades de interações com os professores.

O formulário destinado a estes participantes abrangia o preenchimento do instrumento em si, além de questões acerca das dificuldades para fazê-lo, bem como, se as sentenças eram de fácil compreensão.

A etapa 7 compreendeu a validação de construto, por meio da análise fatorial exploratória, e para a análise da confiabilidade do instrumento, recorreu-se à análise de               consistência interna, utilizando-se o cálculo do coeficiente alfa de cronbach.

Para esta etapa foram convidados à participação todos os graduandos de enfermagem ou seja, 273 estudantes, excetuando-se aqueles que haviam participado da fase de pré-teste e menores de 18 anos, matriculados de primeiro à último ano dos cursos, com duração de quatro anos, de duas instituições públicas de ensino superior, localizadas em municípios de médio porte das regiões centro-sul e centro-oeste do estado de São Paulo, Brasil, selecionados  através da técnica não probabilistíca de conveniência.

As fases da pesquisa que corresponderam a aplicação dos formulários aos estudantes foi realizada de maneira presencial pelos pesqusiadores, entre o período de novembro a dezembro de 2019.

Os dados foram digitados em uma planilha do Microsoft Excel para análise e norteamento dos cálculos estatísticos, sendo utilizada a estatística descritiva. Em seguida, utilizamos o programa estatístico “The SAS System”, Statistical Analysis System 5.9.4.

A análise fatorial exploratória foi conduzida pelo método de extração dos eixos principais, considerando o grau de associação entre as variáveis, encontrado através das cargas        fatoriais (> ,500), sendo mantidos no instrumento apenas sentenças que apresentaram cargas fatoriais (>,500)(14).

A etapa 8 foi constituída pela elaboração da versão final do instrumento com a organização das sentenças em domínios e nomeação dos mesmos.

Esta pesquisa seguiu as normas éticas de pesquisas envolvendo os seres humanos, Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, e obteve aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, CEP, das instituições universitárias do estudo, sob o número do parecer 2.524.894 e CAAE: 69675617.0.3001.5413

Aos indivíduos que, após a explicação do estudo por um dos pesquisadores, concordaram em participar da pesquisa, foi solicitada a assinatura do Termo de Consentimento      Livre e Esclarecido. A liberdade de participação foi assegurada, bem como, o direito do participante de se retirar a qualquer momento da pesquisa, sem prejuízos ou qualquer constrangimento. O anonimato dos participantes foi preservado, não sendo questionado o nome dos mesmos em nenhum formulário da pesquisa.

RESULTADOS

Participaram 11 especialistas em nosso estudo, sendo que, 100% era do sexo feminino com idade que variou de 33 a 76 anos, tempo de conclusão da graduação em enfermagem de 09 a 50 anos, 72% atuavam como professoras de graduação em enfermagem em instituições públicas de ensino superior, sendo que, 36% possuiam  titulação máxima de doutoras, seguido de 27% em livre-docência.

Os especialistas avaliaram se o instrumento atingia os critérios de objetividade, precisão, credibilidade, clareza e pertinência. Os índices de validação de conteúdo acusaram que o instrumento apresentava 90% de objetividade, 90% de precisão, 90% de credibilidade, 81% de clareza e 81% de pertinência, demonstrando que os altos índices indicam que o instrumento mede consistentemente as habilidades comunicativas conforme esperado.

A seguir, na tabela 1, demonstramos outros aspectos que também foram avaliados pelos especialistas sobre o instrumento.

Tabela 1- Resultados das porcentagens dos índices de validação de conteúdo de                aspectos avaliados no instrumento pelos especialistas, São Paulo, SP, Brasil, 2019.

Aspectos avaliados

Porcentagem do Índice de validade de conteúdo (IVC)

1

2

3

4

n

n (%)

n

n (%)

A escala está adequada para mensurar o que  pretende?

11

100

Os critérios para avaliação são claros e objetivos e permitem a mesma interpretação  entre avaliadores diferentes?

1

9

10

90

A descrição sobre o preenchimento da escala explicita com clareza e objetividade o que mensura?

2

18

9

82

Os itens da escala são adequados para  retratar a realidade?

2

18

9

82

 (Legenda: 1- item não equivalente; 2- item necessita de grande revisão para ser avaliada a equivalência; 3- item equivalente, necessita de pequenas alterações e 4- item absolutamente equivalente)

Fonte: Elaborado pelos autores, 2019.

Os especialistas realizaram correções e sugestões como a inclusão do pronome pessoal     “Eu” no início das sentenças 1, 11, 15, 18, 20 e 21. Na questão 15, “Tive liberdade para expor minha criatividade”, foi sugerido acrescentar “e meus sentimentos”. Na questão 4, “eu compreendi a mensagem transmitida pelo professor”, foi proposto acrescentar “mensagens verbais e não verbais”. Na sentença 2, “As ideias foram entendidas e compartilhadas nas relações entre ambos (aluno e professor)”, foi sugerido “As expressões das minhas idéias foram entendidas e compartilhadas nas relações com os professores”.

Vale ressaltar que todas as sugestões e correções realizadas pelos especialistas foram acatadas. No entanto, o instrumento sofreu poucas modificações.

Para a realização da fase do pré-teste, 10 estudantes de enfermagem aceitaram participar. Estes afirmaram que não apresentaram dificuldade para compreender as questões e que não havia ambiguidade na interpretação das mesmas, ou seja, o instrumento estava claro para o público-alvo.

Após a validação dos especialistas e aplicação do pré-teste, o instrumento  foi aplicado em 162 graduandos de enfermagem de primeiro a quarto ano do curso, que aceitaram participar do estudo para a realização da validação de construto por meio da análise fatorial exploratória.

Houve a participação de 74 estudantes da instituição A e 88 da instituição B, correspondendo a 57% do total de alunos matriculados em cada curso de enfermagem.

A análise estatística resultou na formação de 4 fatores, sendo que as cargas fatoriais dos  distintos itens variaram de 0,53 a 0,85, sendo excluídas duas sentenças, as de número 4 e 11, por apresentarem cargas fatoriais inferiores à (,500)(14).

Para a análise da confiabilidade do instrumento, por meio da consistência interna, foi    realizado o cálculo do coeficiente alfa de cronbach, que resultou no valor de 0,97.

Assim, o instrumento final ficou composto por 22 sentenças, 4 fatores e variação  de escore de 22 a 110 pontos, conforme demonstramos no quadro 1.

As sentenças foram reorganizadas em seus respectivos fatores e nomeados. O fator 1 foi denominado “Feedback, possibilitando empatia no ensino-aprendizagem”, o fator 2 de “Feedback, possibilitando vínculo no ensino-aprendizagem,” o fator 3 “Feedback, possibilitando evolução no ensino-aprendizagem” e o fator 4 de “Feedback, possibilitando o acompanhamento no ensino-aprendizagem.

Quadro 1- Versão final do instrumento “Feedback de habilidades comunicativas dos professores no ensino da enfermagem”, São Paulo, São Paulo, Brasil, 2019.

Escala: Feedback de habilidades comunicativas dos professores no ensino da enfermagem

Instruções: Por favor, julgue os itens abaixo, considerando as relações estabelecidas entre você e os professores do curso.

     Série:

Domínios

Questões

Respostas

Feedback possibilitando empatia no ensino-aprendizagem

S

F

A

R

N

  1. Eu percebi que os professores demonstraram disponibilidade para me compreender.

1

2

3

4

5

  1. As expressões das minhas ideias foram entendidas e compartilhadas nas relações com os professores.

1

2

3

4

5

  1. A minha troca comunicativa com os professores trouxe significado para o meu aprendizado.

1

2

3

4

5

  1. Os meus sentimentos foram acolhidos no processo de ensino-aprendizagem.

1

2

3

4

5

  1. Fui ouvido durante o processo de ensino-aprendizagem.

1

2

3

4

5

  1. Eu me senti respeitado pelos professores.

1

2

3

4

5

  1. O relacionamento com os professores foi acessível durante as atividades acadêmicas.

1

2

3

4

5

  1. As minhas opiniões foram aceitas de maneira acolhedora.

1

2

3

4

5

  1. Estive à vontade para expor os meus sentimentos decorrentes do processo de ensino-aprendizagem.

1

2

3

4

5

Feedback possibilitando vínculo no ensino-aprendizagem

  1. Houve vínculo de confiança entre eu e o professor.

1

2

3

4

5

  1. Eu recebi feedback sobre o meu desempenho no momento adequado.

1

2

3

4

5

  1. Eu recebi feedback sobre o meu desempenho no local adequado.

1

2

3

4

5

  1. Eu fui reconhecido pelos professores quando apresentei bom desempenho.

1

2

3

4

5

  1. Eu recebi feedback dos meus erros, acertos e do que poderia ser melhorado no meu relacionamento interpessoal e desempenho no processo de aprendizagem.

1

2

3

4

5

Feedback possibilitando evolução no ensino-aprendizagem

  1. Eu tive oportunidade para desenvolver habilidades em   comunicação no campo da prática.

1

2

3

4

5

  1. Os professores consideraram os meus gestos e expressões       nas relações.

1

2

3

4

5

  1. Recebi orientações dos docentes para avaliar a comunicação não verbal da equipe de saúde, de acordo com o contexto ou situação vivenciadas no cenário prático.

1

2

3

4

5

  1. Eu fui estimulado (a) a ser responsável pelo meu processo de ensino-aprendizagem.

1

2

3

4

5

  1. Eu tive a oportunidade de ser autêntico nas situações de ensino teórico e prático.

1

2

3

4

5

  1. Eu tive liberdade para expor minha criatividade e meus  sentimentos.

1

2

3

4

5

Feedback possibilitando o acompanhamento no      ensino- aprendizagem

  1. Os professores acompanharam as atividades acadêmicas sem criar barreiras na comunicação.

1

2

3

4

5

  1. O ambiente de ensino foi favorável, apesar dos fatores estressantes característicos do processo de ensino- aprendizagem.

1

2

3

4

5

ESCORE TOTAL

Legenda: (S: Sempre; F: Frequentemente; A: Às vezes; R: Raramente; N: Nunca) Fonte: Elaborado pelos autores, 2019.

DISCUSSÃO

O presente estudo buscou referências científicas para assegurar que o processo de construção e validação do instrumento envolvesse etapas metodológicas criteriosas para torná- lo apropriado.

A avaliação do instrumento por 11 especialistas da temática de comunicação de todo Brasil, contribuiu significamente para seu aperfeiçoamento, uma vez que, a maior representação deu-se por profissionais docentes de cursos de graduação em enfermagem, que possuiam contato direto com estudantes e com o processo da realização do feedback no contexto de ensino-aprendizagem, além de possuírem alto nível de qualificação.

Em estudos de validação de conteúdo é recomendado a abordagem qualitativa por especialistas, sendo que o número ideal desses participantes é controverso na literatura. Há autores que sugerem de seis a vinte, no entanto, ressalta-se que deve-se considerar também as características de cada instrumento, a qualificação e a disponibilidade dos profissionais,(15) sendo assim, nosso estudo atendeu ao preconizado.

Para a abordagem quantitativa com a utilização do IVC, observamos em nossos resultados que os percentuais de concordância de respostas entre os especialistas foram atingidos conforme sugerido, acima de 0,80,(13) indicando a adequação do conteúdo do instrumento elaborado.

Para a validação de construto, que corresponde à extensão em que um conjunto de variáveis representa o construto a ser medido, realizou-se a análise fatorial exploratória,(13) definindo 4 fatores, que representam as variáveis que são fortemente relacionadas entre si.

O fator nomeado como “Feedback possibilitando empatia no ensino- aprendizagem” abrangendo 9 sentenças, define que a empatia deve permear a relação entre professor e aluno, possibilitando que os sentimentos e opiniões dos estudantes sejam acolhidos,   haja respeito e disponibilidade do docente à comunicação, ressaltando a importância do  desenvolvimento da competência comunicativa de todos os professores(12).

Um estudo que objetivou identificar as características que influenciam a forma como os estudantes de enfermagem processam o feedback, afirmou que o tom com que o avaliador o realiza é fundamental, além de enfatizar a percepção positiva quando o feedback é expresso de maneira carinhosa e compressiva pelo docente. A pesquisa também apontou que os alunos não apreciam o feedback superficial e limitado, recebê-lo na presença dos colegas e não poder dialogar com o avaliador, demonstrando a importância da empatia do docente ao realizá-lo(7).

É importante ressaltarmos que ao receberem o feedback, os estudantes embarcam em uma série de processos psicológicos, tanto cognitivos quanto afetivos, que irão impactar como o feedback será recebido, compreendido e, utilizado para melhorar a aprendizagem(16).

A literatura pontua que estudantes de enfermagem vivenciam emoções negativas como desmotivação, estresse e tristeza quando o professor não segue os princípios da realização do feedback construtivo, embora demonstrem terem aprendido com o erro e evitado cometê-lo no futuro(17).

O segundo fator designado “Feedback possibilitando vínculo no ensino- aprendizagem”, contempla a importância do papel docente no acompanhamento da progressão   das habilidades estudantis, ao viabilizar, por meio do feedback, momentos para expressão de pensamentos, sentimentos e percepções, considerando o ambiente e momentos adequados, além de valorizar a conquista dos alunos(12).

O fator “Feedback possibilitando evolução no ensino-aprendizagem” considera que para o desenvolvimento de habilidades, os estudantes precisam de estímulos, como dinâmicas nas salas de aula e vivência de situações práticas(12).

A literatura afirma que a estratégia pedagógica do uso de simulações realistícas de interações com os pacientes para desenvolver habilidades de comunicação nos estudantes é potente e utiliza o feedback do docente para pontuar aspectos positivos e necessários de aperfeiçoamento, contribuindo para a formação profissional(18).

A compreensão moderna de feedback refere-se a uma interação dialógica entre indivíduos focando na construção do conhecimento, sendo necessário que o docente e o estudante reflitam e raciocinem juntos sobre a evolução do processo e desempenho estudantis(19).

O docente deve ensinar no modelo e na convivência, evidenciando a ação da sua competência em comunicação na prática. O professor precisa expor o lado positivo das interações dos estudantes, mesmo quando ocorram falhas, e isso se dá por meio do feedback(12).

Faz-se essencial a formação de profissionais que conduzam a equipe de enfermagem com clareza e comunicação assertiva, além de possuirem inteligência emocial e disposição para a aprendizagem contínua durante o exercício profissional, exemplos que devem ser demonstrados no comportamento docente(20).

O fator “Feedback possibilitando o acompanhamento no ensino- aprendizagem” enfatiza sobre a importância da disponibilidade do docente para o processo comunicativo ao procurar minimizar as interrupções ou interferências, que possam prejudicar a expressão e compreensão das mensagens por ambos, contribuindo para demonstrar a valorização do feedback para o estudante(11,12).

O teste do coeficiente alfa de cronbach refere-se a uma técnica estatística ligada diretamente a confiabilidade em relação à qualidade do instrumento. Autores indicam que os valores ideais devem permanecer entre 0,70 e 1,00(21). Portanto, afirma-se que os resultados desta pesquisa apresentaram-se satisfatórios (0,97), reforçando o poder  desta ferramenta na  mensuração do que realmente se propõe.

No entanto, a pesquisa apresentou limitações que devem ser consideradas como a dificuldade de comparar estes dados com o de outros estudos prévios, face à carência de investigações sobre esta temática no contexto do ensino de enfermagem, além de adotarmos      uma amostra de conveniência não probabilística e a validação de construto ter sido aplicada apenas em duas instituições de ensino superior     em enfermagem.

Futuras pesquisas poderiam explorar a aplicação deste instrumento em cursos de enfermagem de diferentes regiões do Brasil ou adaptá-lo para outras áreas da saúde.

CONCLUSÃO

Frente à relevância do feedback no processo ensino-aprendizagem e da habilidade comunicativa pelos educadores, o estudo contribui para a área do ensino de enfermagem efetivando a construção e  a validação de um instrumento inédito, que pode ser implementado como ferramenta avaliativa e diagnóstica, acerca das habilidades comunicativas do docente de enfermagem, durante a etapa de avaliação do processo ensino-aprendizagem, além de possibilitar reflexões e melhorias para o ensino   em enfermagem ou áreas afins.

A comunicação interpessoal é complexa e este instrumento poderá ser utilizado em diferentes situações do processo educativo, como a aplicação aos alunos durante o desenvolvimento de uma disciplina, para que o educador possa modificar estratégias de ensino-aprendizagem e transcorrer mudanças, visando o aperfeiçoamento contínuo da formação profissional.

REFERÊNCIAS

  1. Catherine P, Patersonb N, Jacksonc W, Work F. What are students' needs and preferences for academic feedback in higher education? A systematic review. Nurse Educ Today. 2020; 85:104236. https://doi.org/10.1016/j.nedt.2019.104236

  1. Montes LG, Rodrigues CIS, Azevedo GR. Assessment of feedback for the teaching of nursing practice. Rev Bras Enferm. 2019; 72(3):663-70. http://dx.doi.org/10.1590/0034- 7167-2018-0539

  1. Ferreira RMF, Nunes ACP. A formação contínua no desenvolvimento de competências do professor de enfermagem. Rev Gaúcha Enferm. 2019; 40: e20180171. https://doi.org/10.1590/1983- 1447.2019.20180171

  1. Killingbacka C, Druryb D, Mahatoc P, Williams J. Student feedback delivery modes: A qualitative study of student and lecturer views. Nurse Educ Today. 2020; 84: 104237. https://doi.org/10.1016/j.nedt.2019.104237 

  1. Henderson M, Ryan T, Phillips M. The challenges of feedback in higher education. Assess Eval High Educ. 2019; 44: 1237–52. https://doi.org/10.1080/ 02602938.2019.1599815

  1. Noble C, Billett S, Armit L, Collier L, Hilder J, Sly C, et al. “It’s yours to take”: generating learner feedback literacy in the workplace. Adv Health Sci Educ. 2020; 25: 55–74. https://doi.org/10.1007/s10459-019-09905-5

  1. Hausman M, Dancot J, P´etr´e B, Guillaume M, Detroz P. ‘I don’t know if people realize the impact of their words’: how does feedback during internship impact nursing student learning? Assess Eval High Educ. 2022; 0: 1–13. https://doi.org/ 10.1080/02602938.2022.2130168

  1. Araújo DCSA, Menezes PWS, Cavaco AMN, Mesquita AR, Lyra-Jr DP. Instruments for assessing communication skills in the area of healthcare in Brazil: a scoping review. Interface (Botucatu). 2020; 24: e200030. https://doi.org/ 10.1590/Interface.200030.

  1. Coluci MZO, Alexandre NMC, Milani D. Construção de instrumentos de medida na         área da saúde. Ciênc Saúde Coletiva. 2015; 20(3):925-36. https://doi. org/10.1590/1413- 81232015203.04332013

  1. Littlejohn SW. Fundamentos teóricos da comunicação humana. Rio de Janeiro: Guanabara; 1988.

  1. Stefanelli MC, Carvalho EC. A comunicação nos diferentes contextos da enfermagem. 2 ed. Barueri: Manole; 2012.

  1. Braga EM, Silva MJP. How communication experts express comunicative competence. Interface (Botucatu). 2010; 14(34):529-38. https://doi.org/10.1590/S1414- 32832010005000005

  1. Souza AC, Alexandre NMC, Guirardello EB. Psychometric properties in instruments evaluation of reliability and validity. Epidemiol Serv Saúde. 2017; 26(3):649-59.  https://doi.org/10.5123/s1679-49742017000300022

  1. Machado CC, Campos FKR. Análise multivariada: introdução aos conceitos. 1 ed. Curitiba: Intersaberes; 2023.

  1. Alexandre NMC, Coluci MZO. Content validity in the development and adaptation processes of measurement instruments. Ciênc & Saúde Coletiva. 2011; 16(7):3061-68. https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000800006

  1. Lipnevich A, Panadero E. A Review of Feedback Models and Theories: Descriptions, Definitions, and Conclusions. Frontiers in Education. 2021; 6: 1-29. https://doi.org/10.3389/feduc.2021.720195

  1. Keshmiri F, Javadi A. Feedback-based learning from viewpoints of surgical nursing students: a mixed-method study. J Eval Clin Pract. 2024; 1-9.   https://doi.org/10.1111/jep.14024

  1. Gutiérrez-Puertas L, Márquez-Hernández VV, Gutiérrez-Puertas V, Granados-Gámez G, Aguilera-Manrique G. Educational Interventions for Nursing Students to Develop Communication Skills with Patients: A Systematic Review. Int J Environ Res Public Health. 2020; 17(7): 1-21. https://doi.org/10.3390/ijerph17072241

  1. Ossenberg C, Henderson A, Mitchell M. What attributes guide best practice for effective feedback? A scoping review. Adv Health Sci Educ. 2019; 24: 383–401. https:// doi.org/10.1007/s10459-018-9854-x.

  1. Abreu EA, Silva EA, Domanoski PC. O papel do enfermeiro educador no desenvolvimento da liderança. Rev Nursing. 2024; 27(307): 10081-85. https://doi.org/10.36489/nursing.2024v27i307p10081-10085

  1. Streiner DL, Norman GR, Cairney J. Health Measurement Scales: A practical guide to their development and use. 6 ed. Oxford: Oxford University Press; 2024.