DOENÇAS TROPICAIS E ARBOVIROSES: PERSPECTIVAS PARA VIGILÂNCIA E CONTROLE
TROPICAL DISEASES AND ARBOVIRUSES: PERSPECTIVES FOR SURVEILLANCE AND CONTROL
ENFERMEDADES TROPICALES Y ARBOVIROSIS: PERSPECTIVAS PARA LA VIGILANCIA Y EL CONTROL
RESUMO
O estudo teve como objetivo analisar aspectos epidemiológicos, ambientais e sociais relacionados à disseminação de arboviroses no Brasil, com ênfase nas estratégias atuais e inovadoras de vigilância e controle vetorial. Realizou-se revisão integrativa da literatura, com buscas em bases nacionais e internacionais entre 2010 e 2025. Os achados revelaram crescimento expressivo de epidemias de dengue, zika e chikungunya, associadas a mudanças climáticas, urbanização desordenada e desigualdades sociais. Foram identificadas iniciativas promissoras, como uso de mosquitos infectados com Wolbachia, armadilhas ovitrampas e aplicativos baseados em inteligência artificial, embora persistam desafios como resistência aos inseticidas e baixa adesão comunitária. Observou-se necessidade de abordagens intersetoriais e investimentos em vigilância entomológica e educação em saúde. Conclui-se que o enfrentamento das arboviroses demanda estratégias integradas, tecnologias inovadoras e fortalecimento de políticas públicas para reduzir a morbimortalidade e promover condições saudáveis nos territórios socialmente produzidos.
Descritores: Infecção por Arbovírus; Doenças Negligenciadas; Doenças Tropicais; Vigilância em Saúde; Saúde Pública.
INTRODUÇÃO
As diferentes atividades humanas impactam os ambientes naturais, transformando-os em territórios socialmente produzidos que favorecem a presença de vetores de importância sanitária, como os artrópodes transmissores de arboviroses, entre elas dengue, chikungunya e zika, classificadas como doenças negligenciadas¹. A degradação ambiental acentua a proliferação desses vetores, principalmente os mosquitos do gênero Aedes, representando sérias ameaças à saúde pública e custos desiguais para a sociedade².
Historicamente, as arboviroses foram relacionadas ao determinismo ambiental, com predominância do modelo biomédico centrado no controle dos vetores, o que gerou investimentos técnicos e financeiros significativos, mas pouca ênfase em processos de mobilização social e enfrentamento das determinações sociais da saúde³. Essas determinações incluem as condições em que as pessoas nascem, vivem e trabalham, evidenciando a necessidade de abordagens intersetoriais e integradas³.
O uso e ocupação dos ambientes, como desmatamentos, expansão agropecuária, precariedade sanitária e processos migratórios, têm contribuído para a circulação e permanência de arbovírus. Além disso, aves migratórias e circulação forçada de animais intensificam a disseminação desses patógenos em diferentes escalas territoriais⁴. Estudos apontam que o território socialmente construído é não apenas cenário da doença, mas também espaço estratégico para implementar políticas de prevenção e controle, considerando a multicausalidade dos processos saúde-doença⁵.
Pesquisas recentes destacam que fatores como mudanças climáticas, urbanização acelerada e desigualdade social contribuem para a ampliação das áreas de risco e a vulnerabilidade das populações expostas⁶-⁷. Nesse contexto, a compreensão ampliada da vigilância em saúde, articulando saberes locais, participação comunitária e estratégias intersetoriais, mostra-se essencial para promover respostas mais efetivas⁸-⁹.
Os arbovírus, termo derivado do inglês arthropod-borne virus, representam uma ameaça global à saúde pública por serem causadores das arboviroses urbanas, incluindo dengue (Orthoflavivirus denguei – DENV), zika (Orthoflavivirus zikaense – ZIKV) e chikungunya (Chikungunya virus – CHIKV)¹⁰. No Brasil, os principais vetores dessas arboviroses são mosquitos da família Culicidae, pertencentes ao gênero Aedes, com destaque para Aedes aegypti, disseminado em todas as Unidades da Federação e amplamente distribuído em áreas urbanas¹¹⁻¹².
Os três arbovírus podem ser transmitidos ao ser humano por via vetorial, vertical e transfusional, sendo a via vetorial a mais relevante, por meio da picada de mosquitos infectados, no ciclo humano-vetor-humano¹³. Embora a transmissão vertical do DENV, CHIKV e ZIKV tenha sido documentada, o ZIKV merece atenção especial por poder causar malformações fetais graves e aborto em diferentes idades gestacionais, além de ser transmitido por via sexual, mesmo em indivíduos assintomáticos¹⁴.
O Brasil registrou entre 2015 e 2024 cinco grandes epidemias de dengue e chikungunya, com crescente redução dos intervalos entre períodos de baixa transmissão. As regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste apresentaram as maiores incidências em 2022 e 2023¹⁵. A maior epidemia de dengue da história ocorreu em 2024, contabilizando até a semana epidemiológica 46 mais de 6,5 milhões de casos prováveis e 5.815 óbitos confirmados, com taxa de letalidade de 3,2% em casos graves¹⁶.
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde alertou sobre os impactos do fenômeno El Niño na saúde, incluindo o aumento de doenças vetoriais¹⁷. O período entre maio de 2023 e maio de 2024 apresentou recordes históricos de altas temperaturas globais, conforme o observatório climático Copernicus Climate Change Service¹⁸.
A OMS considera a dengue a arbovirose mais importante que afeta o homem, devido à alta morbidade e à possibilidade de evolução fatal¹⁹. As regiões tropicais e subtropicais concentram a maioria dos casos, em função das condições ambientais favoráveis ao vetor²⁰⁻²¹. O agente etiológico é o vírus DENV, que possui quatro sorotipos distintos (DENV-1 a DENV-4)². Estudos apontam ainda a possível existência de um quinto sorotipo identificado em amostras da Malásia, embora informações detalhadas ainda não tenham sido publicadas em artigos revisados por pares²-³.
No Brasil, o Programa Nacional de Controle da Dengue orienta ações de vigilância entomológica e epidemiológica, como os levantamentos de índices de infestação predial e de Breteau²-⁴. Entretanto, pesquisas indicam que metodologias como as ovitrampas podem ser mais sensíveis na detecção do vetor2-4. O controle vetorial baseia-se principalmente no uso de inseticidas químicos e, em menor escala, biológicos. Contudo, há evidências de resistência do Aedes aegypti a substâncias como temefós, o que levou à introdução de alternativas, como larvicidas biológicos e reguladores de crescimento²-⁷.
As epidemias de dengue impactam significativamente o sistema de saúde e a economia. Entre 2005 e 2017, os custos estimados da doença variaram entre US$ 516,79 milhões e US$ 1,68 bilhão, sem contar o impacto social do absenteísmo escolar e laboral²-³. A circulação simultânea de arbovírus, diferentes sorotipos e a vulnerabilidade populacional contribuem para o agravamento do cenário epidemiológico, com aumento das formas graves e letalidade.
As notificações de casos e óbitos por dengue apresentam tendência de aumento nas últimas décadas, especialmente em países tropicais e subtropicais³-¹. Diante desse cenário, torna-se fundamental discutir intervenções de controle vetorial e incorporar tecnologias complementares ao Programa Nacional de Controle da Dengue, como estações disseminadoras de larvicidas, uso de mosquitos infectados com Wolbachia e de mosquitos estéreis irradiados³-².
A participação do Ministério da Saúde com investimentos em pesquisas e atualização das estratégias de controle é essencial para adequar políticas públicas e reduzir a morbimortalidade causada pela dengue, chikungunya e zika no Brasil³-².
Assim, os estudos e pesquisas sobre arboviroses e doenças tropicais devem considerar como as práticas sociais e os processos de ocupação do território determinam a emergência e propagação dessas enfermidades, bem como identificar populações em risco e fluxos de demandas que impactam os serviços de saúde coletiva. Portanto, o estudo tem por objetivo: Analisar os principais aspectos epidemiológicos, ambientais e sociais relacionados à disseminação de arboviroses no Brasil, com ênfase nas estratégias atuais e inovadoras de vigilância e controle vetorial.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar produções científicas sobre arboviroses e doenças tropicais no Brasil, enfatizando aspectos epidemiológicos, determinantes socioambientais e estratégias de vigilância e controle vetorial. A elaboração deste estudo seguiu as etapas metodológicas propostas por Whittemore e Knafl22, contemplando a definição do problema de pesquisa, o estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão, a coleta e avaliação crítica dos estudos selecionados, a análise dos resultados e a apresentação final da revisão.
A pergunta norteadora definida foi: Quais evidências científicas estão disponíveis acerca da vigilância, do controle vetorial e dos determinantes relacionados às arboviroses no Brasil? A coleta dos dados foi realizada entre junho e julho de 2025, nas bases de dados eletrônicas Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed, SciELO e Google Scholar, por meio dos descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), associados pelos operadores booleanos “AND” e “OR”, usando os descritores: Infecção por Arbovírus; Doenças Negligenciadas; Doenças Tropicais; Vigilância em Saúde; Saúde Pública.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, documentos oficiais e relatórios técnicos disponíveis na íntegra, publicados entre 2010 e 2025, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem vigilância, controle vetorial e aspectos epidemiológicos relacionados às arboviroses no contexto brasileiro. Foram excluídos estudos duplicados, cartas ao editor, resumos de eventos, dissertações e teses não publicadas em periódicos indexados e artigos cujo tema central não contemplasse os objetivos propostos.
A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: leitura dos títulos e resumos, leitura integral dos artigos potencialmente elegíveis e aplicação dos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Os dados extraídos foram organizados em planilha, contendo informações sobre autor, ano de publicação, objetivo, delineamento metodológico, principais resultados e limitações. A análise e síntese dos dados foram realizadas por dois revisores de forma independente, e eventuais divergências foram solucionadas por consenso. Por fim, a apresentação dos achados seguiu as recomendações do modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), com vistas a assegurar a transparência e a reprodutibilidade do processo metodológico adotado.
Figura 1 – Fluxograma de busca e seleção dos artigos adaptados ao PRISMA:
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram aplicados filtros para incluir apenas artigos originais, revisões sistemáticas, documentos oficiais e relatórios técnicos publicados entre 2010 e 2025, nos idiomas português, inglês ou espanhol, e disponíveis na íntegra. Após a busca, os resultados foram triados para excluir duplicatas, cartas ao editor, resumos de eventos, dissertações e teses não publicadas em periódicos indexados, além de artigos cujo foco não contemplasse os objetivos do estudo. Por fim, os estudos selecionados foram analisados quanto à relevância, qualidade metodológica e aderência ao tema, compondo o corpo de evidências para responder à pergunta norteadora.
QUADRO 1 – Apresentação dos achados científicos:
Autores / Ano / Revista | Objetivo | Método | Principais Resultados | Limitações |
Melo DC TV et al., 2024. Trop Med Infect Dis 23 | Avaliar estratégias integradas de vigilância e controle vetorial de Aedes em residências urbanas no Brasil | Estudo de intervenção com monitoramento entomológico e controle intensificado em 40 casas | Redução de 91% na densidade de ovos e 99% de adultos; detecção de DENV e ZIKV em 19,52% dos mosquitos | Área restrita; curto período de acompanhamento |
Maniero VC et al., 2021. Braz J Vet Med24 | Revisar dados sobre vigilância epidemiológica das principais arboviroses no Brasil | Revisão narrativa | Aponta necessidade de investimentos em vigilância molecular e entomológica | Limitação à literatura nacional e ausência de meta-análise |
Moraes Filho IM, Tavares GG, 2024. Fronteiras25 | Descrever distribuição temporal e espacial das arboviroses em Goiás (2015–2021) | Estudo descritivo com dados secundários | Correlação entre aumento de casos e mudanças climáticas | Limitação de variáveis climáticas agregadas |
Firmino BK da S et al., 2025. Revista ESAP26 | Levantar dados epidemiológicos de dengue, zika e chikungunya em Goiás via plataforma FLINK | Estudo observacional transversal | 488.119 casos de dengue; pico em 2022; alta letalidade | Base restrita à plataforma e dados agregados |
Silva Neto SR et al., 2023. Anais WebMedia27 | Apresentar aplicativo VALERIA para diagnóstico clínico diferencial de arboviroses | Desenvolvimento tecnológico e validação preliminar | Potencial de uso clínico com machine learning | Necessita validação ampla e estudos multicêntricos |
Souza KF et al., 2019. Aten Primária Saúde28 | Avaliar efetividade de armadilhas ovitrampas no controle vetorial urbano | Estudo experimental em área urbana | Redução significativa de ovos e adultos | Escala reduzida e curto acompanhamento |
Oliveira AL et al., 2020. Scand J Infect Dis29 | Estimar prevalência de infecção por DENV em mosquitos capturados em áreas endêmicas | Estudo laboratorial com RT-PCR | Detecção de infecção em 12% das amostras | Amostra restrita geograficamente |
Andrade A et al., 2022. Revista Saúde Global30 | Revisar estratégias integradas de controle vetorial no contexto brasileiro | Revisão integrativa | Reforça importância do controle comunitário e intersetorial | Poucos estudos de longo prazo incluídos |
Costa R et al., 2018. PLoS One31 | Descrever dinâmica temporal da circulação de arbovírus no Brasil | Estudo ecológico com dados de vigilância | Tendência crescente de casos; picos sazonais associados a clima | Dados agregados e subnotificação |
Lopes MS et al., 2023. Front Trop Dis 32 | Avaliar impacto de mosquitos infectados com Wolbachia em áreas urbanas | Estudo de campo controlado | Redução significativa da transmissão vetorial | Monitoramento ainda em fase inicial |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Os estudos analisados nesta revisão integrativa apontaram aspectos relevantes sobre vigilância e controle das arboviroses no Brasil. Intervenções integradas de monitoramento entomológico e controle vetorial em residências urbanas resultaram em redução expressiva da densidade de ovos e adultos de Aedes aegypti, evidenciando o potencial da vigilância ativa e das ações de bloqueio focalizadas²³. Por outro lado, foi destacada a necessidade de investimentos consistentes em vigilância molecular e entomológica, reforçando que ainda há lacunas importantes no monitoramento contínuo das arboviroses²⁴.
Em âmbito territorial, estudos correlacionaram o aumento de casos de dengue, zika e chikungunya com mudanças climáticas²⁵, enquanto dados epidemiológicos mostraram elevada incidência e letalidade de dengue em Goiás, com registros extraídos da plataforma FLINK²⁶.
No campo tecnológico, foi apresentado um aplicativo como ferramenta promissora para diagnóstico clínico diferencial das arboviroses, embora sua validação ampla ainda seja necessária²⁷. Outro estudo confirmou a efetividade das ovitrampas na redução de ovos e adultos do vetor, demonstrando que medidas complementares ao uso de inseticidas podem ser eficazes²⁸.
A detecção de infecção natural por DENV em mosquitos capturados em áreas endêmicas reforça o risco constante de transmissão local²⁹. Além disso, foi enfatizada a importância do controle comunitário e intersetorial, embora se reconheça a limitação de poucos estudos longitudinais³⁰. Observou-se também tendência crescente da circulação viral associada a fatores climáticos³¹, enquanto pesquisas demonstraram o impacto positivo inicial do uso de mosquitos infectados com Wolbachia para reduzir a transmissão vetorial³².
De forma geral, os achados indicam que, embora haja avanços em estratégias integradas e inovadoras, persistem desafios como a resistência aos inseticidas, a subnotificação dos casos e a necessidade de abordagens intersetoriais e de longo prazo para vigilância e controle das arboviroses no país.
Sobre os contextos dos territórios socialmente produzidos, há apontamentos que definem o território como espaço da organização coletiva, sendo ali que se produzem condições de adoecimento ou de proteção e onde se podem estabelecer estratégias de enfrentamento dos problemas de saúde³³. Entre os aspectos que a Geografia da Saúde aborda, destacam-se a ecologia das doenças, a teoria geral da difusão, as influências ambientais e o cuidado à saúde³³.
Tais reflexões contribuem para compreender que a saúde ambiental relaciona-se aos usos e modelos de ocupação do território. Para otimizar as análises neste estudo, foi adotado o termo “Saúde Ambiental”, considerando as diretrizes que englobam promoção da saúde e avaliação de risco voltadas às adversidades ambientais que interferem na saúde humana³⁴.
A definição proposta pela Organização Mundial da Saúde considera a saúde ambiental como todos os aspectos da saúde humana determinados por fatores físicos, químicos, biológicos, sociais e psicológicos do meio ambiente, incluindo a teoria e prática de prevenir ou controlar tais fatores de risco³⁵. Complementarmente, caracteriza-se como área da saúde pública dedicada a políticas relacionadas à interação entre saúde humana e fatores ambientais naturais e antrópicos³⁴.
O entendimento histórico de que o homem é obra e construtor do ambiente, responsável por transformá-lo em escala sem precedentes, mostra como os determinantes ambientais e sociais são centrais ao debate sobre saúde e qualidade de vida³⁶. No Brasil, as doenças negligenciadas prevalecem em cenários de pobreza, consolidando um ciclo de desigualdades e desafios para o desenvolvimento³⁷.
A partir do século XVIII, com a urbanização e industrialização, emergiram práticas que associavam salubridade ambiental à medicalização das cidades, consolidando um modelo biomédico centrado no controle e vigilância sanitária³⁸. Essa perspectiva deu origem a serviços específicos que atuavam no controle da vacinação, registro de epidemias e eliminação de focos de insalubridade³⁸.
O combate à varíola e as campanhas de vacinação obrigatória no início do século XX ilustram essa relação entre políticas de saúde pública, controle social e resistência popular, como ocorreu durante a Revolta da Vacina no Rio de Janeiro³⁹. De forma análoga, ainda hoje o enfrentamento das arboviroses demanda mobilização comunitária frente a medidas que, por vezes, se limitam ao uso de inseticidas.
Essa história remonta ao pensamento hipocrático que já reconhecia os fatores ambientais como determinantes do processo saúde-doença⁴⁰. Posteriormente, autores como Sigerist e Leavell & Clark incluíram a promoção da saúde como eixo essencial da prática médica e do desenvolvimento social, integrando saúde e condições de vida⁴¹.
Ainda assim, a hegemonia do modelo biomédico manteve-se por décadas, com foco reducionista na doença e pouca atenção às dimensões sociais e culturais⁴². Estudos críticos evidenciam que esse modelo foi consolidado por interesses privados e por perspectivas mecanicistas e curativas da medicina⁴³. Elementos estruturais como biologismo, individualismo e tecnificação do cuidado foram disseminados como parâmetros hegemônicos, com impactos significativos sobre políticas públicas e formação profissional⁴³.
Diante desses desafios, torna-se necessário promover abordagens participativas, intersetoriais e sustentáveis, como preconiza a Política Nacional de Educação Popular em Saúde, fundamentada em princípios de participação social, cuidado integral e diálogo intercultural⁴⁴-45.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As questões ambientais sempre fizeram parte da história da humanidade, desde as marcas e das presenças (e ausências) dos povos nômades, que possuíam uma estreita relação com alguns recursos naturais, por exemplo, água, solos, pedaços de rochas, vegetação. Que na busca destes percorriam longas distâncias, permitindo outra concepção de Saúde Ambiental da que temos hoje.
Aos poucos novas relações com os territórios, os homens tornaram-se sedentários, no sentido mais amplo, domesticando plantas, animais e o próprio homem, estabelecendo aqui outras relações de poder e de controle do ambiente, dos corpus vivendus, senão das mentes, principalmente das mentes insanas.
Estas relações potencializaram o que denominamos de Saúde Ambiental, tornando cada vez mais (in)salubres o nosso cotidiano, libertando ou adestrando os nossos corpus, nossos estilos e modos de vidas.
Os estudos e as pesquisas sobre arbovírus e arboviroses indicam que o clima, embora relevante, não pode ser o único fator responsável nas relações entre arbovírus, arboviroses e epidemias. Todo processo saúde-doença é multicausal, requerendo uma abordagem integrada para compreensão e controle.
Apesar dos diversos e diferentes estudos e pesquisas, bem como os enormes gastos nos combates ao Aedes aegypti, parece que estamos na contramão de soluções baratas, práticas, de maior mobilização social. Alguns arbovírus, por exemplo, a Aedes aegypti persiste como sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil, em que historicamente mostra que o aumento de casos de dengue na população impacta em bilhões de reais na economia do país.
Apesar dos esforços contínuos para o controle vetorial, as abordagens tradicionais apresentam limitações significativas e resultados aquém do esperado. O Aedes aegypti se adaptou literalmente ao ambiente domiciliar, onde encontra as condições necessárias para sua reprodução, desafiando as premissas educativas e ações de enfrentamento à dengue que muitas vezes priorizam ambientes externos.
Os diferentes procedimentos de vigilância em saúde precisam romper com as iniquidades sociais, fruto das determinações sociais, como forma de evitar e amemizar as consequências para a Saúde Pública/Coletiva. Concluímos que não podemos ignorar o caráter ideológico dos conteúdos abordados dentro ou fora das escolas, pois dependendo de quem está com e para os estudantes, aprisionam, adestram e/ou libertam, o que impedem um melhor entendimento e/ou compreensão da Saúde Ambiental como memórias práticas das culturas humanas.
REFERÊNCIAS