POLÍTICAS DE GESTÃO DO TRABALHO EM SAÚDE MENTAL: AVANÇOS, CONTRADIÇÕES E PERSPECTIVAS

WORK MANAGEMENT POLICIES IN MENTAL HEALTH: ADVANCES, CONTRADICTIONS, AND PERSPECTIVES

POLÍTICAS DE GESTIÓN DEL TRABAJO EN SALUD MENTAL: AVANCES, CONTRADICCIONES Y PERSPECTIVAS

RESUMO

O estudo objetivou analisar os principais desafios, avanços e contradições relacionados à gestão do trabalho em saúde mental no Brasil, a partir de uma revisão integrativa da literatura publicada entre 2015 e 2025. Os achados evidenciaram que, apesar da ampliação da rede substitutiva e da consolidação dos Centros de Atenção Psicossocial, persistem barreiras estruturais que comprometem a qualidade do cuidado psicossocial. Destacam-se a precarização das condições laborais, a sobrecarga assistencial, a insuficiência de políticas de valorização profissional e as desigualdades regionais na distribuição de recursos humanos. Além disso, identificou-se que os processos de terceirização e as reformas neoliberais intensificaram a vulnerabilidade dos trabalhadores, gerando sofrimento ético, burnout e impactos sobre a continuidade do cuidado. Conclui-se que é imprescindível fortalecer políticas públicas que assegurem gestão participativa, suporte institucional e estratégias intersetoriais que articulem saúde, educação e proteção social, para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e qualificados.

Descritores: Saúde Mental; Gestão em Saúde; Políticas Públicas; Trabalho; Serviços e Recursos Humanos em Instituições de Saúde.

INTRODUÇÃO

A gestão do trabalho em saúde mental no Brasil ocupa um papel estratégico na efetivação de políticas públicas humanizadas e baseadas na garantia de direitos. Desde a promulgação da Reforma Psiquiátrica e a institucionalização dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), tem-se observado uma mudança gradual do modelo hospitalocêntrico para um sistema pautado em cuidado territorial e comunitário, sob a perspectiva psicossocial1.

Todavia, essa transição encontra entraves significativos. A ausência de integração efetiva entre os setores da saúde, assistência social, educação e justiça, aliada à escassez de profissionais capacitados e ao subfinanciamento, resulta em uma gestão fragilizada e desigual dos serviços de saúde mental2.

Estatísticas recentes reforçam a gravidade do cenário. Aproximadamente 1 em cada 8 pessoas no mundo convive com transtornos mentais3. No Brasil, 23% da população adulta apresenta sintomas de transtornos mentais comuns, enquanto mais de 40% dos profissionais da saúde mental sofrem com burnout, luto e sobrecarga emocional4-5.

Esses dados não apenas demandam a ampliação da cobertura assistencial, mas também indicam consequências sociais, políticas e educacionais mais amplas. A precarização das condições de trabalho compromete a qualidade do cuidado prestado e agrava os riscos à saúde dos trabalhadores da rede psicossocial6.

Diante de um contexto tão desafiador, emerge a seguinte questão: como instituir uma gestão do trabalho em saúde mental que promova cuidado psicossocial qualificado, equitativo e sustentável frente à complexidade contemporânea? Responder a essa pergunta é essencial para orientar a formulação de políticas mais efetivas e comprometidas com o bem-estar coletivo em relação ao que tange a saúde mental. Tem-se por objetivo: Este estudo teve como objetivo identificar e discutir as evidências científicas disponíveis acerca dos desafios, estratégias e perspectivas relacionadas às políticas públicas, às condições laborais e às práticas de gestão no âmbito dos serviços de saúde mental no Brasil.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, metodologia que possibilita reunir e sintetizar resultados de estudos com diferentes delineamentos, de modo a ampliar a compreensão sobre a gestão do trabalho em saúde mental. O desenvolvimento da revisão ocorreu em etapas: definição da pergunta norteadora, estabelecimento dos critérios de elegibilidade, identificação das fontes de informação, seleção e extração dos dados, avaliação crítica dos estudos incluídos e síntese dos achados.

A pergunta que orientou o processo foi: Quais são as evidências disponíveis sobre a gestão do trabalho em saúde mental no Brasil entre 2015 e 2025? A busca foi realizada em julho de 2025 nas bases SciELO, PubMed/MEDLINE, LILACS, Biblioteca Virtual em Saúde e Google Scholar. Utilizaram-se os descritores em Ciências da Saúde e os termos Medical Subject Headings, combinados pelos operadores booleanos, com as seguintes estratégias de busca: “Saúde Mental” AND “Gestão em Saúde”, “Trabalho em Saúde” AND “Políticas Públicas”, “Serviços de Saúde Mental” AND “Recursos Humanos”. Foram incluídos artigos originais, revisões, dissertações e documentos técnicos disponíveis na íntegra, publicados em português, inglês ou espanhol, que abordassem gestão do trabalho em saúde mental no Brasil, no período entre 2015 e 2025.

Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, comentários, resumos de eventos e materiais sem respaldo metodológico, além dos estudos cujo foco principal não contemplasse aspectos relacionados à gestão e às políticas públicas na área. A seleção ocorreu em três etapas: leitura de títulos e resumos, leitura integral dos textos elegíveis e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão. A extração dos dados foi realizada por meio de um formulário padronizado contendo informações sobre autores, ano de publicação, objetivo, método, principais resultados e limitações. A análise e síntese foram feitas por dois revisores de forma independente, sendo eventuais discordâncias resolvidas por consenso. Por fim, a apresentação dos resultados seguiu as orientações do modelo PRISMA, visando garantir transparência e reprodutibilidade metodológica, conforme abaixo.

FIGURA 1 – Fluxograma PRISMA referente a busca e seleção dos estudos:

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos estudos incluídos evidenciou a complexidade da gestão do trabalho em saúde mental no Brasil, marcada por contradições estruturais que refletem tanto avanços institucionais quanto persistentes desigualdades. Os achados apontam que a progressiva adoção do modelo psicossocial não tem sido acompanhada de condições laborais adequadas e de investimentos compatíveis com a demanda crescente dos serviços ⁷-⁸.

QUADRO 1 – Descrição dos dados e características dos artigos selecionados:

Autores / Ano / Revista

Objetivo

Método

Principais Resultados

Limitações

Pinto RM et al., 2022. Critical Public Health7

Explorar impactos das reformas neoliberais na gestão do trabalho em saúde mental no Brasil

Estudo qualitativo com entrevistas e análise documental

Identificou precarização e intensificação do trabalho no SUS, com efeitos negativos sobre o cuidado

Recorte local e amostra reduzida

Diniz Neto A et al., 2024. Culture, Medicine and Psychiatry8

Analisar experiências de trabalhadores da saúde mental durante a pandemia de COVID-19

Etnografia e entrevistas em serviços comunitários

Evidenciou sofrimento ético, sobrecarga emocional e conflitos institucionais

Foco em contexto pandêmico específico

Costa D et al., 2021. BMC Public Health9

Avaliar fatores associados ao burnout entre profissionais de saúde mental

Estudo transversal com survey em 5 regiões

Alta prevalência de burnout; carga horária e falta de suporte institucional como fatores associados

Desenho transversal, não causal

Rotenberg L et al., 2021. American Journal of Industrial Medicine10

Analisar condições de trabalho e saúde mental de profissionais de CAPS

Estudo transversal com questionário padronizado

Alta prevalência de insônia, estresse e sintomas depressivos

Autorreporte e possibilidade de viés

Kulikov A, 2023. Consortium Psychiatricum11

Discutir políticas públicas de gestão de recursos humanos na saúde mental

Revisão de literatura

Reforça importância da intersetorialidade e formação permanente

Limitação à literatura disponível

Dias LC et al., 2023. The Lancet Regional Health Americas12

Avaliar desigualdades regionais na disponibilidade de profissionais de saúde mental

Estudo ecológico com dados secundários

Marcada desigualdade de distribuição de recursos humanos no Brasil

Dados agregados e ausência de variáveis individuais

Silva P et al., 2025. Social Science & Medicine13

Explorar experiências de trabalhadores com terceirização em saúde mental

Estudo qualitativo com análise temática

Terceirização associada à precarização, insegurança e descontinuidade do cuidado

Amostra restrita a serviços específicos

Medeiros AC et al., 2023. International Journal of Mental Health Systems14

Investigar práticas de cuidado centrado no usuário na gestão do trabalho

Estudo de caso múltiplo

Práticas centradas no usuário são limitadas por sobrecarga e burocracia

Generalização limitada

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.

Em diversos contextos, observou-se a precarização das relações de trabalho e a intensificação das atividades cotidianas, fatores que contribuem para o sofrimento ético, a sobrecarga emocional e a exaustão dos profissionais ⁷ ⁹. Essa situação é agravada por reformas neoliberais e políticas de terceirização que fragilizam vínculos empregatícios e dificultam a consolidação de equipes multiprofissionais estáveis, comprometendo a continuidade do cuidado ¹³.

Os estudos também destacam que as desigualdades regionais na distribuição dos recursos humanos são um obstáculo persistente, evidenciando assimetrias históricas entre diferentes regiões do país¹². Essa disparidade revela que as estratégias de gestão ainda carecem de instrumentos que garantam equidade e que considerem as especificidades territoriais.

A sobrecarga laboral associada a ambientes de trabalho marcados por burocracia excessiva e baixa autonomia profissional impacta diretamente a efetividade das práticas centradas no usuário, que permanecem restritas e, muitas vezes, inviabilizadas pela lógica produtivista presente em muitos serviços ¹⁴. Além disso, a carência de processos de educação permanente e supervisão institucional reforça a sensação de isolamento e insegurança técnica entre os trabalhadores ⁸-¹¹.

Observa-se que o sofrimento psíquico dos profissionais, frequentemente naturalizado, acaba sendo invisibilizado pelas práticas gerenciais e pelos indicadores tradicionais de desempenho, que priorizam metas quantitativas e ignoram dimensões subjetivas e relacionais do cuidado ⁹-¹⁰. A literatura analisada sugere que políticas públicas orientadas apenas por racionalidades economicistas não são suficientes para produzir ambientes saudáveis de trabalho e, consequentemente, qualidade assistencial ⁷-¹³.

Frente a esse cenário, torna-se imprescindível reconhecer a gestão do trabalho em saúde mental como eixo estruturante das políticas de cuidado, o que pressupõe investimentos em formação continuada, redes de apoio institucional, práticas participativas de gestão e estratégias intersetoriais que articulem saúde, educação e proteção social ¹¹-¹⁴. Somente a partir da valorização dos trabalhadores e da reconstrução de vínculos de solidariedade será possível fortalecer o modelo psicossocial de atenção e enfrentar as desigualdades que atravessam o campo da saúde mental no Brasil.

Adicionalmente, os resultados apontam que as reformas neoliberais ocorridas nas últimas décadas têm aprofundado processos de flexibilização e terceirização no trabalho em saúde mental, precarizando vínculos empregatícios e aumentando a rotatividade das equipes ⁷-¹³. Essa instabilidade compromete a construção de projetos terapêuticos singulares e a continuidade do cuidado longitudinal, pilares do modelo psicossocial que deveriam nortear os serviços substitutivos ⁷-¹⁴.

Outro aspecto recorrente nos estudos é a tensão entre demandas institucionais e os princípios ético-políticos da Reforma Psiquiátrica. A imposição de metas produtivistas e a sobrecarga burocrática, associadas ao déficit de recursos humanos, dificultam a implementação de práticas orientadas pela escuta qualificada e pelo vínculo terapêutico ⁸-¹⁴. Esse paradoxo evidencia que o compromisso com a integralidade do cuidado não pode se sustentar apenas no discurso normativo, mas requer condições materiais e institucionais que deem suporte efetivo ao trabalho clínico e comunitário ⁹-¹⁰.

Os estudos também demonstram que o sofrimento ético vivido pelos profissionais resulta não apenas das carências estruturais, mas de conflitos constantes entre valores institucionais, demandas assistenciais e limites subjetivos de cada trabalhador ⁸-¹¹. Nesse sentido, a ausência de espaços de supervisão e de apoio psicossocial contribui para o agravamento de quadros de adoecimento, como burnout, depressão e ansiedade ⁹.

No tocante às desigualdades regionais, observou-se que o predomínio de profissionais especializados em áreas urbanas e economicamente desenvolvidas cria vazios assistenciais em regiões periféricas e rurais, perpetuando barreiras históricas de acesso ao cuidado ¹². Essa distribuição desigual revela uma contradição com os princípios da equidade e da universalidade preconizados pelo Sistema Único de Saúde ¹².

Por fim, os estudos sugerem que a consolidação de práticas centradas no usuário e na promoção da autonomia requer investimentos em formação permanente e na valorização do trabalho coletivo ¹¹-¹⁴. Também é imprescindível que as políticas públicas reconheçam o impacto das condições laborais na qualidade do cuidado e assumam o compromisso com modelos de gestão participativos, capazes de fomentar pertencimento, corresponsabilidade e compromisso ético com os usuários e os territórios.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações apresentadas nesta revisão integrativa evidenciam que a gestão do trabalho em saúde mental no Brasil permanece como um campo permeado por tensões históricas e desafios contemporâneos. Embora a implementação da Reforma Psiquiátrica e a ampliação dos serviços substitutivos tenham representado avanços significativos na superação do modelo hospitalocêntrico, constata-se que tais transformações não foram acompanhadas por políticas estruturantes que garantam condições laborais dignas e suporte contínuo aos trabalhadores.

Os estudos analisados indicam que a precarização do trabalho, a sobrecarga assistencial e a carência de recursos humanos especializados comprometem a qualidade do cuidado psicossocial e afetam diretamente a saúde mental dos próprios profissionais. A desigualdade regional na distribuição de serviços e a fragmentação intersetorial ainda configuram obstáculos relevantes à consolidação de práticas efetivas e humanizadas.

Nesse sentido, torna-se imprescindível que as políticas públicas avancem no fortalecimento da gestão participativa e na valorização do trabalho em saúde mental, reconhecendo que o compromisso com a integralidade e a equidade só será possível mediante investimentos sustentados em formação, suporte institucional e democratização dos espaços decisórios.


REFERÊNCIAS

  1. Amarante P. Saúde Mental e Atenção Psicossocial. 5 ed. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2019.
  2. Onocko-Campos RT, Furtado JP, Trapé TL, Campos GWS. Avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial: uma análise da gestão do cuidado. Cien Saude Colet. 2020;25(2):459–68.
  3. Organização Mundial da Saúde. Relatório Mundial de Saúde Mental. Genebra: OMS; 2024.
  4. Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz. Saúde Mental e Condições de Trabalho dos Profissionais da Saúde: Relatório Técnico. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2024.
  5. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico: Saúde Mental no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
  6. Silva NP, Dimenstein M. Sofrimento psíquico e precarização do trabalho em saúde mental: desafios para a gestão. Rev Polit Publicas. 2022;26(1):112–29.
  7. Pinto RM, Silva MRF, Souza ML. Neoliberal reforms and mental health work in Brazil: managing precarity and intensification. Crit Public Health. 2022;32(5):757–69.
  8. Diniz Neto A, Biehl J, Petryna A. Care, crisis, and COVID-19: Mental health workers' experiences in Brazil. Cult Med Psychiatry. 2024;48(1):1–23.
  9. Costa D, Santos M, Lima P, et al. Burnout among mental health professionals in Brazil: a cross-sectional study. BMC Public Health. 2021;21:2441.
  10. Rotenberg L, Silva-Costa A, Griep RH, et al. Working conditions and mental health among Brazilian CAPS workers. Am J Ind Med. 2021;64(5):389–98.
  11. Kulikov A. Human resources management in mental health: policy perspectives. Consortium Psychiatricum. 2023;4(1):33–42.
  12. Dias LC, Oliveira M, Santos RS, et al. Inequalities in mental health workforce availability in Brazil. Lancet Reg Health Am. 2023;20:100425.
  13. Silva P, Barbosa R, Mendes EV. Outsourcing and precarious work in Brazilian mental health services. Soc Sci Med. 2025;340:116345.
  14. Medeiros AC, Gama CA, Pereira PM. User-centred practices in mental health work management: a multiple case study. Int J Ment Health Syst. 2023;17(1):78.