A Jornada do Joelho: Experiências Acerca da Luxação Recidivante da Patela
Resumo
A luxação recidivante da patela representa um desafio clínico significativo, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. As mulheres apresentam um risco cerca de 33% superior ao dos homens para esse tipo de lesão. A escolha do tema se justifica pela experiencia vivida e acompanhada por uma paciente com essa condição que apresenta uma complexidade envolvida em sua abordagem, que exige não apenas conhecimento técnico, mas também empatia e comunicação eficaz com o paciente. Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, baseado na vivência da autora. A prática clínica nos convida diariamente a lidar com desafios que vão além da técnica: ela exige sensibilidade, escuta ativa e adaptação constante. Por fim, são analisadas as consequências funcionais e emocionais da instabilidade patelar, evidenciando a importância de uma abordagem individualizada e multidisciplinar para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Palavras-chave: Patela; Articulação patelofemoral; Instabilidade articular; Luxação patelar; Traumatismos do Joelho; Ligamento Patelar.
1 Introdução
A patela é um osso sesamoide localizado dentro do tendão do músculo quadríceps, articulando-se posteriormente com o sulco troclear do fêmur. Sua principal função é potencializar a eficiência mecânica do quadríceps durante o movimento de extensão do joelho. O tendão do quadríceps continua como tendão patelar, que se insere no tubérculo da tíbia. Os retináculos patelares medial e lateral, originados dos músculos vasto medial e vasto lateral, respectivamente, integram a cápsula articular nas margens da patela¹.
Durante o movimento de extensão da perna, os músculos extensores do joelho incluindo o quadríceps femoral, vasto medial, vasto intermediário e vasto lateral exercem uma força oblíqua sobre a patela, favorecendo seu desvio lateral. Esse vetor de deslocamento torna-se ainda mais pronunciado durante a flexão do joelho. A resistência primária a essa força é fornecida pelo ligamento patelofemoral medial, que conecta o epicôndilo femoral medial à porção medial da patela, em conjunto com o vasto medial oblíquo. Ambos desempenham papel fundamental na manutenção do alinhamento adequado da patela dentro do sulco troclear do fêmur. Alterações ou comprometimentos nessas estruturas podem aumentar significativamente o risco de luxação patelar².
A luxação patelar recorrente é definida pela repetida perda de alinhamento entre a patela e a tróclea do fêmur, com deslocamento predominante para o lado lateral. Essa condição é frequentemente observada em adolescentes e adultos jovens, sobretudo naqueles com alterações anatômicas predisponentes ou antecedentes de trauma na articulação do joelho³.
Embora a luxação recidivante da patela seja amplamente abordada sob aspectos anatômicos e biomecânicos, ela apresenta particularidades relevantes quando analisada a partir da vivência profissional. Este relato tem como propósito expor experiências adquiridas no acompanhamento de pacientes com instabilidade femoropatelar, evidenciando os obstáculos enfrentados, as condutas adotadas e os conhecimentos desenvolvidos ao longo dessa trajetória⁴.
Estudos indicam que mais de 60% dos episódios de luxação patelar estão associados à realização de atividades físicas. As mulheres apresentam um risco cerca de 33% superior ao dos homens para esse tipo de lesão. A faixa etária também se destaca como um fator de risco importante, sendo que a maioria das luxações agudas da patela ocorre em adolescentes e jovens adultos, especialmente entre os 10 e 17 anos⁵.
A recorrência da luxação patelar tem sido analisada por meio de estudos prospectivos de coorte, os quais revelaram uma taxa acumulada de recidiva ipsilateral variando entre 36% e 54% ao longo de 15 a 20 anos. Esse risco é consideravelmente mais elevado em indivíduos que sofreram a primeira luxação antes dos 18 anos, bem como na presença de displasia da tróclea, patela alta e aumento da distância entre a tuberosidade tibial e o sulco troclear (TA-GT)⁵.
A presença de patela alta, displasia da tróclea, aumento do ângulo Q e frouxidão ligamentar são fatores intimamente ligados à recorrência da luxação patelar. Essa condição é especialmente prevalente em pacientes com menos de 15 anos, podendo alcançar até 60% de recidiva após o primeiro episódio. Além disso, abordagens inadequadas no tratamento da luxação podem resultar em instabilidade patelar crônica, dor persistente no joelho e, em casos mais avançados, evolução para osteoartrose patelofemoral⁶.
Segundo a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), o diagnóstico da luxação patelar deve ser baseado na análise do histórico clínico, na avaliação física e na utilização de exames de imagem, como radiografias e ressonância magnética. O teste de apreensão patelar é uma ferramenta eficaz para identificar sinais de instabilidade. Os métodos de imagem são fundamentais tanto para orientar a conduta clínica quanto para realizar o diagnóstico diferencial, incluindo radiografia convencional, ressonância magnética (RM), tomografia computadorizada (TC) e ultrassonografia (US)⁷.
O manejo da instabilidade e da luxação patelar continua sendo um desafio para os cirurgiões, em razão da complexidade envolvida nos procedimentos e da frequência de resultados abaixo do esperado. Tradicionalmente, a abordagem conservadora incluindo tratamento medicamentoso, fisioterapia e imobilização tem sido indicada como primeira linha para os casos de luxação patelar primária, excetuando-se situações em que há fraturas osteocondrais associadas⁸.
O tratamento inicial da luxação patelar pode envolver fisioterapia direcionada ao fortalecimento do músculo vasto medial oblíquo, reeducação proprioceptiva e utilização de órteses. Contudo, diante de episódios recorrentes, a intervenção cirúrgica torna-se uma alternativa frequentemente recomendada. A reconstrução do ligamento patelofemoral medial (LPFM) tem demonstrado bons resultados clínicos. A longo prazo, a luxação patelar aguda primária pode acarretar complicações como novas luxações, instabilidade articular, danos à cartilagem, dor persistente, restrições nas atividades cotidianas e desenvolvimento de osteoartrose patelofemoral secundária. Vale destacar que o risco de recidiva é até seis vezes maior em pacientes com histórico de luxação patelar contralateral⁸.
A escolha do tema se justifica pela experiencia vivida e acompanhada por uma paciente com essa condição que apresenta uma complexidade envolvida em sua abordagem, que exige não apenas conhecimento técnico, mas também empatia e comunicação eficaz com o paciente. Ao narrar essa jornada, busca-se contribuir com reflexões que possam enriquecer a prática de outros profissionais da saúde, promovendo um cuidado mais humanizado e eficaz.
Diante dessas questões surge o seguinte questionamento: Quais os impactos da falta de cuidado interdisciplinar e humanizado na reabilitação de pacientes com luxação recidivante da patela?
2 Metodologia
Trata-se de um estudo descritivo, de abordagem qualitativa, baseado na vivência da autora em determinado contexto profissional ou acadêmico. Segundo Daltro e Faria (2019) o relato de experiência incita ao pesquisador a desafiar suas competências de tradução, percepção e interpretação da realidade, por meio da articulação teórica dos seus conhecimentos. O relato tem caráter reflexivo e não pretende generalizar resultados, mas sim compartilhar aprendizados e desafios vivenciados.
A participante do estudo foi a paciente M.L.F., sexo feminino, atualmente com 33 anos, que apresenta histórico de luxação recidivante da patela associada a múltiplas intervenções cirúrgicas e episódios traumáticos desde a infância.
A experiência foi registrada através de anotações pessoais, observações diretas e reflexões realizadas durante e após o período de atuação. Foram considerados aspectos como: desafios enfrentados, estratégias adotadas, resultados observados e sentimentos envolvidos. A análise foi feita de forma narrativa, destacando os principais aprendizados e implicações para a prática profissional
2.1 Experiência
O presente relato refere-se à trajetória clínica da paciente M.L.F. A primeira ocorrência significativa se deu aos 12 anos, quando a paciente sofreu uma queda da própria altura durante o período de Carnaval. Devido à indisponibilidade dos serviços de urgência na ocasião, seus responsáveis optaram por aguardar alguns dias antes de buscar atendimento médico. Após cinco dias, a paciente foi levada ao hospital, onde foi diagnosticada com derrame articular no joelho esquerdo. O procedimento de punção foi realizado sem anestesia, gerando forte impacto emocional.
Cerca de um ano após esse episódio, a paciente sofreu nova queda, com reincidência do derrame articular, sendo submetida novamente à punção, também sem anestesia. No ano seguinte, embora não tenha ocorrido nova queda, a paciente passou a apresentar episódios frequentes de deslocamento da patela, acompanhados de edema e dor. Diante da recorrência e do sofrimento físico e emocional, sua mãe buscou atendimento especializado em ortopedia, onde foram identificadas lesões significativas no joelho esquerdo, indicando necessidade de intervenção cirúrgica.
Em 2007, foi realizada a primeira artroscopia, com abordagem do ligamento cruzado posterior. Após o procedimento, a paciente iniciou fisioterapia pós-operatória cerca de 30 dias depois, com avaliação fisioterapêutica completa, incluindo ficha de anamnese, hábitos de vida, sinais vitais e histórico clínico. Nos primeiros meses, relatou dificuldade para caminhar, mas com o avanço da reabilitação conseguiu retomar gradualmente suas atividades cotidianas.
Aos 24 anos, a paciente sofreu nova queda, com agravamento dos sintomas. Após exames de imagem, foi indicada nova artroscopia. Inicialmente resistente ao procedimento, buscou uma segunda opinião médica, que confirmou a necessidade cirúrgica. A segunda artroscopia foi realizada em 2017, sendo descrita pela paciente como o pós-operatório mais doloroso vivenciado. A falta de mobilização precoce da perna comprometeu a recuperação, e mesmo após seis meses de fisioterapia, os resultados foram insatisfatórios.
Em 2018, foi indicada e realizada uma artrolise por artrofibrose, com o objetivo de liberar aderências entre pele e musculatura. O procedimento foi bem-sucedido, permitindo à paciente retomar suas atividades. Em 2019, foi submetida a infiltração com ácido hialurônico para lubrificação articular e alívio dos sintomas. Apesar da melhora parcial, a instabilidade persistiu, resultando em novas quedas, embora sem lesões graves.
A partir desse período, a paciente iniciou acompanhamento psicológico, reconhecendo o impacto emocional das limitações físicas e dos procedimentos invasivos. Em 2024, passou a apresentar sintomas semelhantes no joelho direito, incluindo estalidos e dor, sendo encaminhada para tomografia e ressonância magnética. Em 2025, iniciou sessões de tratamento para ambos os joelhos, diante da suspeita de evolução da instabilidade patelar bilateral.
Atualmente, a paciente relata limitações funcionais como dificuldade para sentar-se e levantar do chão, correr, pular, além de sensibilidade ao frio e dor após longos períodos em pé. Em alguns momentos, a perna esquerda apresenta travamento súbito. Na avaliação médica recente, foram observadas hipotrofia do quadríceps e instabilidade patelar, com limitação significativa da amplitude de movimento.
A paciente evoluiu com artrose e condromalácia de grau III e IV. Diante desse quadro, encontra-se em processo de avaliação para enquadramento como pessoa com deficiência (PCD), conforme os critérios estabelecidos pela legislação vigente.
2.2 Desafios Enfrentados
O acesso tardio ao atendimento especializado e a demora inicial para buscar ajuda médica após o primeiro trauma comprometeu o diagnóstico precoce e a intervenção adequada. Os procedimentos invasivos sem anestesia, com as realizações de punções articulares sem analgesia gerou sofrimento físico e psicológico, contribuindo para o desenvolvimento de traumas emocionais.
Com a recorrência de quedas e instabilidade, levou a repetição dos episódios de luxação e derrame articular dificultou a recuperação funcional e aumentou o risco de lesões secundárias. Os pós-operatórios dolorosos e complicados, por exemplo, a segunda artroscopia foi marcada por dor intensa e baixa adesão à mobilização precoce, resultando em artrofibrose.
O impacto emocional e psicológico, da paciente que desenvolveu medo, insegurança e frustração, exigindo acompanhamento psicológico para lidar com os efeitos subjetivos da condição. As limitações funcionais persistentes, pois mesmo após múltiplas intervenções, a paciente ainda apresenta dificuldades em atividades básicas como sentar, levantar, correr e permanecer em pé por longos períodos.
2.3 Estratégias Adotadas
A busca por atendimento especializado permitiu a identificação das lesões e a indicação cirúrgica adequada. Foram realizadas duas artroscopias e uma artrolise por artrofibrose, com o objetivo de restaurar a função articular e reduzir a dor. A paciente foi submetida a protocolos de reabilitação com foco em fortalecimento muscular, ganho de amplitude de movimento e propriocepção.
Infiltrações com ácido hialurônico foram utilizadas como estratégia complementar para lubrificação articular e alívio dos sintomas. O acompanhamento psicológico é fundamental para o enfrentamento dos traumas vivenciados e para a reconstrução da confiança corporal. A realização de tomografia e ressonância magnética permitiu avaliar a evolução da condição e identificar comprometimento no joelho contralateral.
2.4 Reflexões
A trajetória da paciente evidencia que o cuidado em saúde vai além da técnica: é necessário acolher o sofrimento, escutar a história e adaptar condutas à realidade de cada indivíduo. O impacto emocional de uma condição crônica e dolorosa como a luxação recidivante da patela exige atenção multidisciplinar, com integração entre ortopedia, fisioterapia e psicologia.
A adesão ao tratamento está diretamente relacionada à qualidade da comunicação entre profissional e paciente, à empatia e à construção de vínculo terapêutico. A experiência reforça a importância da mobilização precoce no pós-operatório, da educação em saúde e da continuidade do cuidado para evitar complicações como artrofibrose. Por fim, o caso da paciente revela que, mesmo diante de limitações persistentes, é possível promover autonomia, funcionalidade e qualidade de vida com uma abordagem centrada na pessoa.
Durante o percurso terapêutico da paciente, observou-se que a atuação da equipe de enfermagem esteve restrita aos momentos pré e pós-operatórios imediatos, com foco nos cuidados básicos e na administração medicamentosa. No entanto, ao longo do processo de reabilitação e acompanhamento ambulatorial, não houve continuidade no suporte da enfermagem, o que limitou uma abordagem mais integral e humanizada. O acompanhamento clínico regular foi conduzido predominantemente pelos profissionais de fisioterapia e pelo ortopedista responsável, que assumiram o protagonismo na condução do caso. Essa lacuna evidencia a importância da presença ativa da enfermagem no cuidado longitudinal, especialmente em situações que envolvem dor crônica, limitações funcionais e impacto emocional.
3 Considerações Finais
A jornada da paciente revela os múltiplos desafios enfrentados por indivíduos acometidos pela luxação recidivante da patela. A sucessão de quedas, intervenções cirúrgicas e limitações funcionais comprometeu não apenas sua integridade física, mas também sua saúde emocional.
Este relato convida profissionais da saúde a refletirem sobre a complexidade do cuidado em casos de instabilidade patelar, destacando a importância da escuta qualificada, da atuação interdisciplinar e da continuidade do cuidado. O compromisso com um cuidado ético, empático e baseado em evidências é o que transforma experiências dolorosas em caminhos possíveis de superação.
Referências