REVISÃO INTEGRATIVA/ENSAIO TEÓRICO
CÂNCER DE COLO DO ÚTERO E ESTRATÉGIAS DE PREVENÇÃO NA SAÚDE COLETIVA: BARREIRAS E OPORTUNIDADES
CERVICAL CANCER AND PREVENTION STRATEGIES IN PUBLIC HEALTH: BARRIERS AND OPPORTUNITIES
Cássia Maria da Silva Bento. Bacharel em Enfermagem. Hospital Universitário Lauro Wanderley, João Pessoa, PB.
Mariella Barreto Santos. Pós-graduação em Centro cirúrgico, CME E URPA. Maternidade. Municipal ISEA. Campina Grande, PB.
Sheyla Evoize Ferreira Fernandes. Urgência e emergência, cardiologia e hemodinâmica. João Pessoa, PB.
Iara Ruama Silva Pereira. Enfermeira Obstetra do Hospital Edson Ramalho. João Pessoa, PB.
Sabrina Rebeca Marinho Medeiros. Graduada em enfermagem pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Pós graduada em Enfermagem Obstétrica pelo Centro de Formação, Aperfeiçoamento Profissional e Pesquisa (Cefapp). João Pessoa, PB.
RESUMO
O câncer de colo do útero é um dos principais problemas de saúde pública, sendo uma das maiores causas de mortalidade por neoplasias em mulheres, especialmente em países em desenvolvimento. O presente estudo, por meio de um ensaio teórico, buscou analisar as barreiras e oportunidades na prevenção desse tipo de câncer no contexto da saúde coletiva. A metodologia consistiu na revisão e análise crítica de artigos científicos, diretrizes institucionais e políticas públicas voltadas ao rastreamento da doença. Os resultados evidenciaram que as principais barreiras incluem o acesso limitado aos serviços de saúde, desigualdades socioeconômicas, falta de conhecimento sobre a importância do exame citopatológico e hesitação em relação à vacinação contra o papilomavírus humano. Além disso, desafios estruturais, como a baixa cobertura vacinal e a demora no diagnóstico, agravam a situação. No entanto, há oportunidades significativas para aprimorar a prevenção da doença, incluindo a ampliação da busca ativa de mulheres para a realização do exame preventivo, o fortalecimento da educação em saúde e a incorporação de novas tecnologias, como a autocoleta para detecção do papilomavírus humano. Conclui-se que estratégias intersetoriais e políticas públicas mais eficazes são essenciais para garantir o acesso equitativo à prevenção e ao tratamento do câncer de colo do útero, reduzindo a mortalidade associada à doença e promovendo a saúde feminina de forma integral.
PALAVRAS-CHAVE: Câncer do colo do útero; Prevenção; Saúde coletiva.
ABSTRACT
Cervical cancer is one of the main public health problems, being one of the leading causes of mortality due to neoplasms in women, especially in developing countries. This study, through a theoretical essay, aimed to analyze the barriers and opportunities in the prevention of this type of cancer in the context of public health. The methodology consisted of a review and critical analysis of scientific articles, institutional guidelines, and public policies related to disease screening. The results showed that the main barriers include limited access to health services, socioeconomic inequalities, lack of knowledge about the importance of the cytopathological exam, and hesitancy regarding vaccination against the human papillomavirus. Additionally, structural challenges such as low vaccination coverage and delays in diagnosis worsen the situation. However, there are significant opportunities to improve disease prevention, including expanding active search for women to undergo screening, strengthening health education, and incorporating new technologies such as self-sampling for human papillomavirus detection. It is concluded that intersectoral strategies and more effective public policies are essential to ensure equitable access to the prevention and treatment of cervical cancer, reducing disease-related mortality and promoting women's health in a comprehensive manner.
KEYWORDS: Cervical cancer; Prevention; Public health.
RESUMEN
El cáncer de cuello uterino es uno de los principales problemas de salud pública y constituye una de las mayores causas de mortalidad por neoplasias en mujeres, especialmente en países en desarrollo. El presente estudio, a través de un ensayo teórico, buscó analizar las barreras y oportunidades en la prevención de este tipo de cáncer en el contexto de la salud colectiva. La metodología consistió en la revisión y análisis crítico de artículos científicos, directrices institucionales y políticas públicas orientadas al tamizaje de la enfermedad. Los resultados evidenciaron que las principales barreras incluyen el acceso limitado a los servicios de salud, las desigualdades socioeconómicas, la falta de conocimiento sobre la importancia del examen citopatológico y la hesitación en relación con la vacunación contra el virus del papiloma humano. Además, desafíos estructurales, como la baja cobertura vacunal y la demora en el diagnóstico, agravan la situación. No obstante, existen oportunidades significativas para mejorar la prevención de la enfermedad, incluyendo la ampliación de la búsqueda activa de mujeres para la realización del examen preventivo, el fortalecimiento de la educación en salud y la incorporación de nuevas tecnologías, como la auto-toma para la detección del virus del papiloma humano. Se concluye que las estrategias intersectoriales y las políticas públicas más eficaces son esenciales para garantizar el acceso equitativo a la prevención y al tratamiento del cáncer de cuello uterino, reduciendo la mortalidad asociada a la enfermedad y promoviendo la salud femenina de manera integral.
PALABRAS CLAVE: Cáncer de cuello uterino; Prevención; Salud colectiva.
INTRODUÇÃO
O câncer de colo do útero (CCU) é uma das neoplasias malignas mais prevalentes entre as mulheres em todo o mundo, representando um importante problema de saúde pública, especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, essa neoplasia é a quarta causa de morte por câncer na população feminina, ficando atrás apenas dos cânceres de mama, colorretal e pulmão1. Devido à sua alta incidência e mortalidade evitável, torna-se essencial o desenvolvimento de estratégias eficazes para sua prevenção e controle.
A principal causa do CCU é a infecção persistente por subtipos oncogênicos do Papilomavírus Humano (HPV), notadamente os tipos 16 e 18, que estão associados a cerca de 70% dos casos da doença2. O rastreamento da neoplasia por meio do exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, é uma das estratégias mais eficientes na detecção precoce de lesões precursoras do câncer, sendo recomendado pelo Ministério da Saúde para mulheres entre 25 e 64 anos de idade que já iniciaram a vida sexual3. No entanto, apesar da existência de diretrizes nacionais e internacionais para o rastreamento da doença, a adesão ao exame preventivo ainda é insuficiente em diversas regiões, especialmente em populações vulneráveis e de baixa renda.
Estudos apontam que diversas barreiras dificultam a realização do exame preventivo e a adesão ao protocolo de rastreamento do CCU. Entre os principais desafios estão o acesso restrito aos serviços de saúde, a falta de conhecimento sobre a importância da prevenção, a desinformação acerca da transmissão do HPV e a resistência cultural ao exame ginecológico4. Além disso, há uma forte influência de fatores sociais, como escolaridade, estado civil e idade, na adesão das mulheres ao rastreamento. Mulheres mais jovens e sem filhos, por exemplo, apresentam menor adesão ao exame preventivo, o que aumenta o risco de diagnóstico tardio e evolução da doença para estágios mais avançados1.
A Estratégia Saúde da Família (ESF) desempenha um papel essencial na promoção da saúde e prevenção do CCU ao ofertar o exame citopatológico gratuitamente e realizar ações de educação em saúde voltadas à conscientização da população feminina. No entanto, a literatura revela que ainda existem dificuldades na implementação dessas estratégias, devido à carência de recursos, à falta de capacitação dos profissionais e à resistência da população em participar de ações preventivas3,4.
Diante desse cenário, o presente estudo busca analisar as estratégias de prevenção do câncer de colo do útero no contexto da saúde coletiva, identificando barreiras e oportunidades para melhorar a adesão ao rastreamento. A compreensão dos fatores que dificultam a implementação das ações preventivas pode contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e para a ampliação da cobertura dos serviços de saúde voltados ao diagnóstico precoce da doença.
MÉTODO
O presente estudo configura-se como um ensaio teórico, abordagem metodológica que se diferencia das pesquisas empíricas por não se basear na coleta e análise de dados primários, mas sim em reflexões conceituais e interpretações de conhecimento já produzido sobre o tema investigado. O ensaio teórico visa desenvolver uma argumentação crítica e aprofundada a partir de fontes bibliográficas, explorando conceitos, teorias e proposições que ampliem a compreensão do objeto de estudo5.
O ensaio teórico possui um caráter argumentativo e interpretativo, fundamentando-se em um diálogo contínuo com a literatura acadêmica existente. Nesse sentido, a presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, pois privilegia a análise de textos e conceitos em detrimento de mensurações numéricas e testes estatísticos5. O estudo estrutura-se a partir da leitura crítica de artigos científicos, livros e documentos institucionais, buscando refletir sobre o câncer de colo do útero e as estratégias de prevenção no contexto da saúde coletiva.
Foram consultadas bases de dados acadêmicas, incluindo Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Google Acadêmico, para identificar produções relevantes sobre o câncer de colo do útero, suas barreiras e oportunidades na saúde coletiva. A seleção dos materiais considerou a relevância, o rigor metodológico e a atualidade das publicações.
Com base na literatura levantada, foram organizadas as principais discussões sobre prevenção do câncer de colo do útero, explorando tanto as limitações quanto as possibilidades de avanço nesse campo. O estudo dialoga com teorias e conceitos da saúde pública, bem como com políticas de rastreamento e controle da doença.
A última etapa consistiu na problemática central do ensaio, articulando os desafios e possibilidades da prevenção do câncer de colo do útero a partir de uma perspectiva teórica. Esse processo envolveu a análise das principais barreiras enfrentadas no rastreamento da doença e a discussão de estratégias inovadoras para ampliar a adesão das mulheres ao exame citopatológico e à vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV).
Conforme proposto, um ensaio teórico não busca apresentar verdades absolutas, mas estimular o pensamento crítico e contribuir para a formulação de novas perguntas e abordagens sobre o tema. Dessa forma, este estudo não pretende esgotar a discussão sobre o câncer de colo do útero, mas oferecer um referencial que permita ampliar o debate e fortalecer políticas de prevenção no âmbito da saúde coletiva.
Por tratar-se de um ensaio teórico, esta pesquisa não envolveu a participação direta de sujeitos humanos, não sendo necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. No entanto, todas as fontes utilizadas foram devidamente referenciadas, respeitando os princípios éticos da integridade acadêmica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados deste ensaio teórico apontam que a prevenção do câncer de colo do útero continua sendo um desafio na saúde coletiva, principalmente devido às barreiras estruturais, culturais e individuais que comprometem a adesão ao rastreamento e à vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV). A análise dos artigos selecionados revela que as principais dificuldades na implementação das estratégias preventivas envolvem acesso aos serviços de saúde, desigualdade social, desinformação e lacunas na assistência primária.
O rastreamento do câncer de colo do útero por meio do exame citopatológico (Papanicolau) tem sido amplamente recomendado como estratégia eficaz para o diagnóstico precoce da doença. No entanto, diversos estudos indicam que a adesão ao exame ainda é baixa, especialmente entre mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Autores6 apontam que as mulheres que residem em áreas rurais enfrentam maiores dificuldades para realizar o exame, seja pela distância até os serviços de saúde, a falta de transporte adequado ou a indisponibilidade de profissionais capacitados para realizar o procedimento.
Outro fator que dificulta o rastreamento é a percepção negativa das mulheres sobre o exame. Autores7 evidenciaram que muitas mulheres associam o Papanicolau a dor, desconforto, constrangimento e medo do diagnóstico, o que gera resistência à sua realização. Além disso, há entraves específicos para determinados grupos populacionais, como mulheres lésbicas, pessoas com deficiência e idosas, que frequentemente encontram um atendimento fragmentado e insensível às suas particularidades.
A vacinação contra o HPV é uma das estratégias mais eficazes na prevenção primária do câncer de colo do útero, protegendo contra os tipos virais mais oncogênicos (HPV-16 e HPV-18). No entanto, a cobertura vacinal ainda está aquém do ideal. Autores analisaram8 os fatores que contribuem para a baixa adesão à vacinação e identificaram que a falta de conhecimento sobre a importância da vacina e a hesitação dos pais em permitir a imunização dos filhos são barreiras significativas.
Além disso, a desinformação e as fakes news sobre a vacina contra o HPV têm gerado impactos negativos na adesão da população. Muitos adolescentes e seus responsáveis ainda acreditam em mitos sobre a vacina, como o de que ela poderia estimular o início precoce da vida sexual ou provocar efeitos adversos graves, o que dificulta a ampliação da cobertura vacinal e compromete a eficácia da estratégia de prevenção a longo prazo.
O câncer de colo do útero é considerado um marcador das desigualdades sociais e de gênero na saúde, pois afeta principalmente mulheres de baixa renda e com dificuldades de acesso a serviços médicos. Em outra pesquisa9 destacam que mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) enfrentam maior demora no recebimento dos resultados do exame Papanicolau e no encaminhamento para diagnóstico e tratamento, o que compromete as chances de detecção precoce da doença.
Além disso, a falta de infraestrutura e de profissionais especializados em regiões mais carentes afeta diretamente a capacidade do SUS de oferecer assistência integral às pacientes. A escassez1,8 de equipamentos adequados para a realização de exames citopatológicos e a demora na contrarreferência para serviços especializados aumentam o risco de evolução da doença para estágios avançados, reduzindo as chances de cura.
Diante das barreiras identificadas, a literatura sugere diversas oportunidades para fortalecer as estratégias de prevenção e controle do câncer de colo do útero na saúde coletiva. Pesquisa ressalta2 que o fortalecimento das ações de educação em saúde e o aumento do envolvimento dos profissionais da Atenção Primária são essenciais para garantir maior adesão às estratégias preventivas.
Outra alternativa seria a ampliação da busca ativa de mulheres que não realizam exames preventivos regularmente, além da incorporação de novas tecnologias para melhorar o acesso ao rastreamento, como o autocoleta para teste de HPV, que poderia aumentar a adesão de mulheres que evitam o exame ginecológico por questões culturais ou emocionais.
Por fim, há um consenso na literatura sobre a importância de políticas públicas mais eficazes e bem estruturadas, que garantam não apenas a oferta dos serviços, mas também sua acessibilidade e qualidade. Isso inclui o aprimoramento da Estratégia Saúde da Família (ESF), maior capacitação dos profissionais de saúde e investimentos em campanhas massivas para combater a desinformação sobre a vacina do HPV e a importância do exame preventivo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O câncer de colo do útero é uma doença prevenível e tratável, mas as barreiras estruturais, sociais e culturais ainda dificultam o sucesso das estratégias de prevenção. As evidências apontam que a combinação entre vacinação contra o HPV, rastreamento citopatológico regular e acesso facilitado ao diagnóstico e tratamento pode reduzir significativamente a incidência e a mortalidade da doença. No entanto, é fundamental que o SUS e os gestores de saúde implementem medidas mais eficazes para ampliar o acesso e reduzir as desigualdades que ainda impactam a saúde feminina no Brasil.
O presente ensaio teórico reforça a necessidade de estratégias intersetoriais que envolvam educação, saúde e políticas públicas para promover a equidade no acesso aos serviços preventivos. Somente por meio de ações coordenadas e estruturadas será possível superar as barreiras que ainda limitam o sucesso das estratégias de prevenção do câncer de colo do útero e garantir melhores desfechos para a saúde das mulheres.
REFERÊNCIAS