EDUCAÇÃO INTERPROFISSIONAL NO CONTEXTO HOSPITALAR: DESAFIOS, CONVERGÊNCIAS E PERSPECTIVAS FORMATIVAS
INTERPROFESSIONAL EDUCATION IN THE HOSPITAL CONTEXT: CHALLENGES, CONVERGENCES, AND FORMATIVE PERSPECTIVES
EDUCACIÓN INTERPROFESIONAL EN EL CONTEXTO HOSPITALARIO: RETOS, CONVERGENCIAS Y PERSPECTIVAS FORMATIVAS
Shayene Thamalla Mendes dos Santos. Enfermeira pelo Centro Universitário de João Pessoa. Residente em Saúde da Família e Comunidade pela SMS-JP.
Ana Paula Santos Resende. Graduada e bacharelada em Enfermagem pela Universidade Federal de Uberlândia, pós graduada em Neonatologia e Pediatria pelo CEEN - PUC Goiás. Atua na área de Regulação de Exames de Alta Complexidade no Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU/Ebserh).
Luisa Rayane Silva Bezerra Frazão. Enfermeira da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), atualmente lotada na Sede, no Serviço de Gestão da Inovação Corporativa e do Conhecimento. Atuou no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE). Avaliadora Líder ONA vinculada ao IQG Health Services Accreditation. Mestre em Enfermagem e Educação em Saúde (UFPE), Especialista em Hematologia e Hemoterapia (modalidade residência/UPE), pós-graduação em Qualidade e Gestão em Saúde (SENAC) e MBA em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente (IDOR).
Maria Cristina de Moura-Ferreira. Docente Associado IV do Curso de Graduação em Enfermagem - UFU; Docente Membro titular do Fórum de Licenciaturas da UFU; Membro Docente / Pesquisador do Laboratório de Gênero e Violência - LGV; Docente e Coordenadora da disciplina de Saúde do Trabalhador; Coordenadora das Ligas Acadêmicas : Liga de Enfermagem em Feridas - LIENFE e Liga de Enfermagem em Neurologia - LEN; Coordenadora, Docente e Tutora do Programa de Atenção em Saúde Coletiva do Programa de Residência Uni e Multiprofissional em Saúde da FAMED - UFU; Tutora dos Projetos de Interiorização -PRAPS/FAMED/UFU ; Docente Permanente e Membro do Colegiado do Programa de Pós-Graduação Mestrado Profissional em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Instituto de Geografia da UFU - PPGAT - UFU e Membro titular da Diretoria Colegiada da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia - ADUFU.
Maria Carolina Salustino dos Santos. Doutoranda em Enfermagem pela UNIFESP.
Resumo
Introdução: Este artigo discute a Educação Interprofissional (EIP) no ambiente hospitalar universitário a partir de uma abordagem crítica e empírica, com foco nas interações entre os diferentes saberes profissionais da saúde e as práticas de formação colaborativa. Método: A partir de uma análise qualitativa e teórica, com base em vivências realizadas com profissionais e gestores de um hospital-escola, buscou-se compreender os limites e possibilidades da EIP como prática formativa e política institucional. Resultados: Os resultados apontam para uma lacuna entre o discurso da interprofissionalidade e as condições objetivas de trabalho, evidenciando tensões entre saberes médicos, de enfermagem, fisioterapêuticos e administrativos. Conclusão: Conclui-se que, para que a EIP se consolide como estratégia pedagógica efetiva, é necessário ultrapassar modelos hierárquicos, investir em espaços formativos integrados e reconfigurar a cultura institucional dos hospitais universitários.
Palavras-chave: Educação interprofissional. Formação em saúde. Trabalho colaborativo. Interdisciplinaridade.
Abstract
Introduction: This article discusses Interprofessional Education (IPE) within a university hospital setting from a critical and empirical perspective, focusing on the interactions among different professional health knowledge areas and collaborative training practices. Method: Based on a qualitative and theoretical analysis drawn from experiences with professionals and managers at a teaching hospital, the study aimed to understand the limitations and possibilities of IPE as a formative practice and institutional policy. Results: The findings highlight a gap between the discourse of interprofessionality and the objective working conditions, revealing tensions among medical, nursing, physiotherapy, and administrative knowledge domains. Conclusion: It is concluded that for IPE to become an effective pedagogical strategy, it is necessary to overcome hierarchical models, invest in integrated formative spaces, and reconfigure the institutional culture of university hospitals.
Keywords: Interprofessional education. Health training. Collaborative work. Interdisciplinarity.
Resumen
Introducción: Este artículo aborda la Educación Interprofesional (EIP) en el ámbito hospitalario universitario desde una perspectiva crítica y empírica, centrándose en las interacciones entre los diferentes saberes profesionales de la salud y las prácticas formativas colaborativas. Método: A través de un análisis cualitativo y teórico, basado en experiencias con profesionales y gestores de un hospital docente, buscamos comprender los límites y las posibilidades de la EIP como práctica formativa y política institucional. Resultados: Los resultados señalan una brecha entre el discurso de la interprofesionalidad y las condiciones laborales objetivas, destacando el énfasis en los saberes médicos, de enfermería, fisioterapia y administrativos. Conclusión: Concluimos que, para que la EIP se consolide como una estrategia pedagógica eficaz, es necesario superar los modelos jerárquicos, invertir en espacios de formación integrados y reconfigurar la cultura institucional de los hospitales universitarios.
Palabras clave: Educación interprofesional. Formación en salud. Trabajo colaborativo. Interdisciplinariedad.
A crescente demanda por práticas de saúde mais integradas, colaborativas e centradas nas necessidades da população tem impulsionado reformas nos processos formativos na área da saúde. Nesse cenário, a Educação Interprofissional (EIP) tem sido defendida como uma abordagem estratégica para qualificar o trabalho em equipe e contribuir para a transformação dos modelos assistenciais ainda marcados pela fragmentação e pela verticalização dos saberes1,2. A EIP propõe que diferentes profissões aprendam juntas, umas com as outras e sobre as outras, desenvolvendo competências colaborativas que favoreçam a integralidade do cuidado1,2.
No Brasil, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos da saúde têm incorporado, de forma cada vez mais explícita, os princípios da interprofissionalidade como parte da formação orientada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). As versões atualizadas desses documentos reforçam a importância da integração entre ensino e serviço, da aprendizagem baseada em problemas do território e da atuação em equipes multiprofissionais3,4. Contudo, a distância entre o que é orientado pelas políticas educacionais e o que se concretiza na prática cotidiana ainda é significativa, especialmente nos hospitais universitários, onde predominam estruturas rígidas, organização por departamentos e culturas profissionais historicamente hierarquizadas5,6.
Esses contextos hospitalares, embora privilegiados para experiências formativas, frequentemente reproduzem barreiras institucionais à efetivação da EIP. A ausência de espaços integradores, a segmentação das atividades assistenciais e a resistência de parte das categorias profissionais à partilha de saberes são fatores que dificultam a consolidação da interprofissionalidade como prática pedagógica e política institucional4,5. Tais obstáculos revelam a necessidade de investir na mudança da cultura organizacional e na criação de condições objetivas que favoreçam o trabalho colaborativo.
Diante disso, os hospitais universitários configuram-se como lócus estratégico para observar e analisar as potencialidades e os limites da EIP, dada sua inserção simultânea nos campos da formação, da gestão e da assistência à saúde. Investigar como a interprofissionalidade é compreendida e vivida por profissionais e gestores nesses espaços permite problematizar os tensionamentos entre os discursos normativos e as condições reais de trabalho e aprendizagem6,7,8,9.
Este artigo tem como objetivo analisar criticamente como a Educação Interprofissional é percebida, praticada e tensionada em contextos formativos e assistenciais em um hospital-escola, com foco nas possibilidades de integração entre diferentes saberes profissionais e nas barreiras que ainda limitam a consolidação de práticas colaborativas na formação em saúde.
METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza exploratória, fundamentada em um relato de experiência. A escolha deste delineamento justifica-se pela necessidade de compreender de forma aprofundada os sentidos atribuídos à Educação Interprofissional (EIP) no contexto de um hospital-escola, a partir das percepções e vivências de seus profissionais.
Participaram do estudo profissionais de diferentes áreas da saúde, incluindo medicina, enfermagem, fisioterapia, gestão hospitalar e residentes multiprofissionais, selecionados intencionalmente por sua inserção em práticas assistenciais e formativas dentro do hospital-universitário. A diversidade dos participantes possibilitou captar múltiplas perspectivas sobre a EIP e suas potencialidades e limitações na realidade cotidiana.
Como instrumentos de coleta de dados, foram utilizados documentos institucionais, tais como projetos pedagógicos, diretrizes curriculares e protocolos assistenciais. Esses materiais serviram como fontes para a análise documental, permitindo a identificação de elementos estruturantes da proposta formativa e das diretrizes que orientam a atuação interprofissional na instituição.
A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo temática, conforme proposta por Bardin10, permitindo a categorização e interpretação dos sentidos emergentes a partir do corpus documental e das narrativas dos participantes. Para assegurar a validade das interpretações, foi adotado o procedimento de triangulação das fontes e das análises, promovendo maior rigor metodológico e aprofundamento da compreensão do fenômeno investigado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos dados foi conduzida com base na técnica de análise de conteúdo temática, conforme proposta por Bardin10, sendo realizada em três etapas principais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos. A partir desse processo, foi possível identificar e organizar os achados empíricos em categorias temáticas que emergiram do contato com os documentos institucionais e os relatos dos profissionais participantes da pesquisa. Duas categorias principais foram construídas, as quais expressam aspectos estruturais e contraditórios da experiência com a Educação Interprofissional (EIP) no contexto hospitalar universitário:
Esta categoria evidencia que, embora os profissionais reconheçam a relevância da EIP para a qualificação do cuidado e para a integralidade das ações em saúde, suas práticas ainda ocorrem de forma isolada. Observou-se uma persistente fragmentação dos saberes, com pouca articulação entre os diferentes campos profissionais, o que compromete a efetividade do trabalho colaborativo. Além disso, identificou-se resistência na integração de saberes não médicos nos processos decisórios, demonstrando que o paradigma biomédico ainda predomina e legitima determinados discursos e práticas em detrimento de outros.
A segunda categoria aponta que os espaços formativos, sobretudo a residência multiprofissional, são reconhecidos como potencialmente fecundos para a consolidação da EIP. No entanto, esse potencial esbarra na lógica de especialização e segmentação que ainda orienta parte da formação em saúde. A coexistência entre propostas pedagógicas interprofissionais e estruturas curriculares fragmentadas produz tensões que limitam a consolidação de práticas colaborativas e a superação de modelos hierárquicos.
Fragmentação dos Saberes e das Práticas
A Educação Interprofissional (EIP) é uma ferramenta, de reorientação da formação / prática profissional, que é pautada nas orientações e princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Com a nova conjuntura das políticas públicas de saúde, notamos que os debates em torno da formação em saúde no ensino superior têm sido enfatizados nas últimas décadas devido as novas conjunturas nas políticas públicas e a regulamentação e implantação do SUS e seus princípios e do seu papel ordenador de formação de recursos humanos em saúde. Para a concretização dos princípios e diretrizes do SUS, faz-se necessário a formação de profissionais aptos para lidar com as demandas da população diante da crescente complexidade e dinamicidade das demandas da população, para que o processo do trabalho em equipe e colaborativo se desenvolva plenamente1,2
A Residência Multiprofissional em Saúde é um espaço potencial para a EIP, porém esbarra em questões relacionadas com a própria identidade do residente, ele é estudante? Ele é profissional? Neste contexto, o próprio residente não consegue se enxergar nos espaços em que ele é o principal ator de mudança, transformação e de capacidade para fazer os princípios do SUS acontecerem adequadamente.
Os desafios da formação interprofissional se esbarram nos diversos currículos de diferentes profissionais para que possam ser preparados nos cenários de práticas de forma a conseguirem trabalhar em equipe, visando a ampliação da melhor capacidade resolutiva dos sistemas de saúde, redução de erros no cuidado, redução de conflitos interprofissionais, levando a uma maior satisfação dos usuários e uma melhor assistência aos mesmos dos serviços de saúde da população brasileira1,2,3,4
Neste contexto de formação em saúde, atualmente é recomendado que seja preparado para a vida laboral profissionais com perfil generalista, humanista, crítico e reflexivo, que assimilem valores, habilidades e práticas imprescindíveis para o trabalho em equipe de maneira resolutiva. Desta forma, é relevante que as Instituições de Ensino Superior (IES) assumam este papel na formação em saúde e insiram em seus desenhos curriculares a EIP nos cursos da área da saúde1,2,3,4
Entende-se a interprofissionalidade ainda como um grande desafio a ser enfrentado, pois os cursos da saúde inseridos nos cenários de práticas da Atenção Primária à Saúde (APS), ainda permanecem muito restritos aos seus núcleos, o que dificulta a prática colaborativa e a troca de saberes e fazeres de forma coletiva e interprofissional1,2
Os estágios curriculares supervisionados e os internatos da área da saúde, quer seja, medicina, enfermagem e nutrição, são momentos interprofissionais de ensino-aprendizagem riquíssimos e de experiências exitosas para a prática profissional dos estudantes inseridos neste contexto da APS.
A Educação Interprofissional (EIP) é conhecida como uma atividade que envolve dois ou mais estudantes que realizam ações em conjunto com o objetivo de uma assistência com mais integralidade, equidade, individualidade e colaborativa.
A prática do cuidado em saúde demanda o reconhecimento de que cada profissão se insere tanto em um campo específico quanto em um campo mais amplo de saber7,10,11. Mesmo quando não há efetivamente trabalho em equipe, torna-se indispensável recorrer a conhecimentos que extrapolam os limites disciplinares de cada área, incorporando saberes de outras profissões da saúde, bem como de campos interdisciplinares e do saber popular. Neste contexto, o desenvolvimento de competências interprofissionais e a valorização de abordagens interdisciplinares são considerados elementos essenciais para a efetividade das práticas em saúde.
Para que práticas colaborativas e interprofissionais se consolidem na formação em saúde, é fundamental ultrapassar a simples justaposição de disciplinas e visões profissionais isoladas. Isso exige a promoção de experiências formativas que favoreçam o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento e incentivem a construção coletiva de modos de pensar e agir baseados na interprofissionalidade12,13,14.
Compreendemos que o processo ensino aprendizagem em conjunto deve ser entremeado pela comunicação, na qual os estudantes aprendem com, para e entre si, impulsionando diferentes saberes e práticas para eclodir com a pulverização do conhecimento e das práticas profissionais15,16,17
No que diz respeito à EIP e o trabalho em equipe, percebe-se um amadurecimento sobre a compreensão da EIP, diante da grande melhoria de suas habilidades com o trabalho interprofissional e pelo debate fértil sobre a realidade da formação em saúde no país. As necessidades de saúde no contexto atual são muitas e dinâmicas; os estudantes reconhecem o seu caráter complexo e defendem a importância de vários atores no trabalho em saúde. A EIP é de grande importância para melhorar a colaboração. A interprofissionalidade aumenta a qualidade da assistência aos pacientes/ clientes/ usuários. Assim, a EIP vem demonstrar uma oportunidade de troca de conhecimentos, ampliação dos olhares, e a projeção de novos caminhos para a educação / formação de profissionais de saúde mais organizados para práticas compartilhadas1,2.
Espaços Formativos como Oportunidade e Contradição
O campo da saúde ainda opera sob uma lógica hierárquica, marcada pela centralidade do saber médico no processo de cuidado. Essa predominância, herdada do modelo biomédico, reforça relações verticais entre os profissionais e limita o reconhecimento de outros saberes1,2.
Estudos indicam que essa desigualdade persiste na prática clínica, na formação e na gestão. Médicos seguem ocupando os espaços de maior prestígio simbólico e técnico, sendo vistos como únicos detentores do conhecimento e da decisão clínica. Isso afeta a autonomia de alguns profissionais como enfermeiros e fisioterapeutas, que frequentemente se sentem subordinados e têm seus saberes reconhecidos apenas se alinhados ao médico4,5,6.
A enfermagem, marcada por uma identidade relacional e foco no cuidado integral, é fortemente impactada pela lógica hierárquica vigente. O cuidado integral se desenvolve por meio das relações interpessoais e da transformação dos modelos tradicionais de assistência, destacando o vínculo e a visão holística do paciente7,8,9.
Apesar de ser menos abordada nos estudos sobre hierarquia dos saberes em saúde, a fisioterapia também lida com obstáculos para o reconhecimento de sua atuação técnica e científica. Muitos profissionais da área relatam que suas práticas são frequentemente restringidas à aplicação de condutas prescritas por médicos, dificultando o pleno exercício da autonomia. Essa situação é discutida em espaços acadêmicos e profissionais, onde se questiona a desigualdade nas decisões terapêuticas e valorização de suas competências1,2,8,9.
A subordinação institucionalizada no campo da saúde compromete a qualidade da atenção e fragiliza a atuação das equipes, ao restringir a articulação entre diferentes saberes. A superação desse cenário demanda transformações estruturais na gestão, nos processos formativos e, sobretudo, na cultura institucional, com a valorização efetiva de saberes diversos no cuidado15,16,17.
A cultura organizacional na saúde é um fator determinante para a excelência operacional, e não é apenas um conceito abstrato. Mas, na área da saúde, a estratégia aponta o caminho, a trajetória a seguir, porém é a cultura que irá assegurar que ele seja trilhado com o propósito15,16,17. Destaca ainda que uma forte liderança alia os aspectos, fazendo com que eles se harmonizem transformando os desafios em avanços, e consequentemente promoverá um cuidado de excelência.
Na assistência hospitalar encontramos uma cultura organizacional verticalizada, sendo que ela dificulta a organização na saúde de forma harmoniosa e em equipe. Para que ocorra uma cultura organizacional hospitalar eficiente, temos que ter um ambiente de bons relacionamentos, equipe satisfeita e voltada para os objetivos da instituição, valores que norteiam as atividades e atuação dos profissionais. Sendo assim, faz-se necessário focar na produtividade e satisfação dos profissionais inseridos na equipe de trabalho, fornecendo condições de trabalho adequadas, autonomia, possibilidades de crescimento e desenvolvimento na instituição hospitalar e fazer com que o trabalhador se sinta pertencente daquele local.
É de crucial importância a cultura organizacional em se tratando do contexto hospitalar, pois abala diretamente a eficiência e qualidade dos serviços prestados aos pacientes. A compreensão e o conhecimento de como ela acontece na organização poderá criar ambientes motivadores, saudáveis; o que resultará em profissionais motivados, saudáveis e envolvidos com a causa institucional, o que levará à melhoria da qualidade dos serviços prestados aos pacientes15,16,17.
A motivação dos profissionais de saúde é de suma importância para garantir o sucesso do atendimento hospitalar, uma vez que está relacionada diretamente à satisfação no trabalho, à qualidade do serviço oferecido e, consequentemente, ao bem-estar dos pacientes/ clientes. A motivação no ambiente hospitalar e a gestão de pessoas são cruciais para garantir a qualidade dos cuidados multiprofissionais e a segurança dos pacientes.
No período da pandemia da COVID-19, a gestão se tornou ainda mais importante, pois os hospitais precisaram lidar com uma grande demanda de pacientes e uma carga absurda de trabalho para seus colaboradores, garantindo que esses profissionais tivessem o conhecimento e as habilidades necessárias para lidar com a insegurança, medo e temor decorrentes da pandemia, além de ter a responsabilidade de fornecer materiais em quantidade e qualidade adequados, treinamento adequado e apoio psicológico e emocional.
Neste contexto, compreende-se que é de suma importância e relevante a cultura organizacional hospitalar ser horizontalizada para melhor desempenho e desenvolvimento das ações, bem como uma assistência adequada e de qualidade aos seus pacientes/clientes, bem como colaboradores/trabalhadores/ profissionais satisfeitos e motivados em prol de um objeto comum de atendimento que é o usuário do serviço, ou seja, o próprio paciente.
Para que as instituições hospitalares e unidades de serviços de saúde tenham uma cultura organizacional horizontalizada, voltada para a integralidade, universalidade, equidade, humanização do cuidado e acolhimento, são necessários ações conjuntas e multiprofissionais de engajamento a metodologias ativas de aprendizagem, tais como seminários, encontros, rodas de conversas, oficinas, simulações interativas, reciclagens, capacitações e educação permanente em serviço, como alternativas a habilitar adequadamente toda a equipe desde à recepção, administração, serviço de higiene e limpeza, nutrição, lavanderia, serviços de apoio e unidades de atendimento como um todo para que seja realizado um serviço de qualidade, integralizado, humanizado e que os profissionais estejam satisfeitos e motivados a trabalhar em equipe e na instituição.
Os achados deste estudo revelam que a Educação Interprofissional (EIP) ainda se apresenta nos hospitais universitários mais como uma intenção normativa do que como uma prática efetivamente consolidada no cotidiano formativo e assistencial. Apesar do reconhecimento da importância da interprofissionalidade para a qualificação do cuidado em saúde e para o fortalecimento do trabalho colaborativo, persistem barreiras estruturais, culturais e institucionais que limitam sua implementação de forma ampla e integrada.
A falta de planejamento institucional voltado à EIP, associada a uma cultura de trabalho ainda fragmentada e marcada por relações hierárquicas entre os diferentes saberes profissionais, compromete a construção de práticas educativas mais colaborativas e horizontais. Essa realidade aponta para a necessidade de romper com lógicas tradicionais e promover mudanças organizacionais que favoreçam a partilha de saberes, a valorização da diversidade profissional e a integralidade do cuidado.
Consolidar a EIP como uma estratégia formativa nos hospitais universitários exige, portanto, a superação de resistências históricas e o engajamento coletivo de instituições, gestores, docentes e profissionais na construção de uma cultura organizacional que valorize a colaboração interprofissional como eixo estruturante da formação e da prática em saúde.
REFERÊNCIAS