USO DE TERAPIAS BIOLÓGICAS (ANTICORPOS MONOCLONAIS) EM RINOSSINUSITE CRÔNICA COM POLIPOSE NASAL

Thais Gutierrez do Amaral Coelho

Universidad Cristiana de Bolivia

ORCID: 0009-0003-5769-4410

Gustavo Alexandre Romero Tenório

Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, campus Poços de

Caldas

ORCID: 0000-0002-6636-7353

João Paulo dos Santos Moreira

Faculdade Ceres

ORCID: 0009-0006-9558-6877

Max Henrique Lima Martins

Universidade Iguaçu

ORCID: 0000-0003-2983-9718

Resumo

Introdução: A rinossinusite crônica com polipose nasal (RSCPN) frequentemente cursa com inflamação tipo 2 e alta taxa de recidiva após corticoide sistêmico e/ou cirurgia endoscópica. Biológicos dirigidos a alvos como IgE, IL-4/IL-13, IL-5/IL-5R e TSLP emergiram como opções efetivas. Objetivo: Sintetizar a evidência sobre eficácia, segurança, indicações e monitoramento de anticorpos monoclonais na RSCPN. Métodos: Revisão narrativa de literatura (PubMed, SciELO e Web of Science) até 14/10/2025, priorizando ensaios clínicos fase III, consensos/guidelines e estudos do “mundo real”. Resultados: Dupilumabe (anti-IL-4Rα) reduziu escore de pólipos nasais (NPS), congestão e opacificação sinusal em dois RCTs de fase III (SINUS-24/52) e melhora persiste em subgrupos com/sem asma; omalizumabe (anti-IgE) mostrou melhora endoscópica e de sintomas (POLYP-1/2) e foi aprovado como terapia adjuvante; mepolizumabe (anti-IL-5) reduziu NPS e necessidade de cirurgia (SYNAPSE); benralizumabe (anti-IL-5Rα) melhorou NPS, congestão e olfato (OSTRO); tezepelumabe (anti-TSLP) apresentou resultados positivos e publicados em 2025, incluindo redução de NPS, congestão e uso de corticoide sistêmico/cirurgia. Conclusão: Biológicos são eficazes e seguros em RSCPN com inflamação tipo 2 não controlada por terapia padrão, com seleção baseada em fenótipo/endótipo, comorbidades (asma/NSAID-ERD) e critérios de resposta de consensos atuais.

Palavras-chave: Rinossinusite Crônica; Pólipos Nasais; Anticorpos Monoclonais.

Abstract

Background: Chronic rhinosinusitis with nasal polyps (CRSwNP) is often driven by type-2 inflammation and recurs despite steroids and/or surgery. Objective: To synthesize evidence on efficacy, safety, indications, and monitoring of monoclonal antibodies in CRSwNP. Methods: Narrative literature review (PubMed, SciELO, Web of Science) through Oct 14, 2025, emphasizing phase-III RCTs, guidelines/consensus statements, and real-world studies. Results: Dupilumab (anti-IL-4Rα) improved nasal polyp score, congestion, and CT opacification in two phase-III trials (SINUS-24/52), with consistent effects across subgroups; omalizumab (anti-IgE) improved endoscopic and patient-reported outcomes (POLYP-1/2) and is approved as add-on therapy; mepolizumab (anti-IL-5) reduced polyp size and surgery need (SYNAPSE); benralizumab (anti-IL-5Rα) improved NPS, congestion, and smell (OSTRO); tezepelumab (anti-TSLP) showed significant reductions in NPS, congestion, and systemic steroid/surgery use in 2025 data. Conclusions: Biologics are effective and safe for uncontrolled type-2 CRSwNP; patient selection should consider phenotype/endotype, comorbid asthma/NSAID-ERD, and contemporary response criteria.

Introdução

A rinossinusite crônica com polipose nasal (RSCPN) é uma doença inflamatória de vias aéreas superiores caracterizada por inflamação persistente da mucosa nasossinusal e formação de pólipos, cursando com obstrução nasal, rinorreia, pressão facial e hiposmia/anosmia, além de impacto substancial na qualidade de vida e na produtividade. Apesar do manejo padrão — que inclui corticoides intranasais em altas doses, controle rigoroso de comorbidades e, quando necessário, ciclos de corticoide sistêmico e/ou cirurgia endoscópica — uma proporção relevante de pacientes permanece com sintomas refratários ou recidiva precoce após a intervenção cirúrgica. Esse cenário reflete, em grande parte, a heterogeneidade biológica da RSCPN e a predominância de fenótipos/endótipos associados à inflamação tipo 2 (Th2), nos quais citocinas como IL-4, IL-13 e IL-5, além de IgE e mediadores epiteliais (p.ex., TSLP), sustentam um microambiente inflamatório crônico e eosinofílico.

O reconhecimento dessa arquitetura imuno-inflamatória reposicionou a RSCPN como uma doença candidata a terapias-alvo. Anticorpos monoclonais que bloqueiam vias críticas da inflamação tipo 2 — como o receptor compartilhado de IL-4/IL-13 (dupilumabe), IgE (omalizumabe), IL-5/IL-5R (mepolizumabe, benralizumabe) e, mais recentemente, TSLP (tezepelumabe) — têm demonstrado reduções clinicamente relevantes no escore de pólipos nasais, na congestão e em desfechos funcionais (p.ex., olfato e SNOT-22), além de menor necessidade de corticoide sistêmico e de reintervenção cirúrgica. O benefício tende a ser mais pronunciado em pacientes com comorbidades tipo 2 (asma e doença respiratória exacerbada por AINEs), evidenciando a importância da estratificação por endótipo para seleção terapêutica.

Paralelamente, cresce a demanda por critérios padronizados de indicação e de avaliação de resposta, com metas objetivas em 16–24 semanas (redução do NPS, melhora sintomática relevante e recuperação olfatória), bem como por estratégias de sequenciamento, troca ou descontinuação em não respondedores. Questões de acesso e custo-efetividade, especialmente em sistemas públicos, reforçam a necessidade de algoritmos clínicos que integrem gravidade, histórico cirúrgico, biomarcadores e preferências do paciente.

Neste contexto, o presente artigo revisa criticamente a evidência contemporânea sobre o uso de terapias biológicas na RSCPN, abordando eficácia, segurança, populações-alvo, monitorização e lacunas para pesquisa, a fim de orientar uma tomada de decisão prática e individualizada.

Resultados

Nos ensaios clínicos de maior qualidade, os anticorpos monoclonais demonstraram benefícios consistentes como terapia adjuvante ao tratamento padrão em pacientes com rinossinusite crônica com polipose nasal não controlada. O dupilumabe, ao bloquear o receptor compartilhado de IL-4/IL-13, reduziu de forma significativa o escore de pólipos nasais, a congestão/obstrução nasal e a opacificação tomográfica nos estudos de fase III (SINUS-24/52), com ganhos clinicamente relevantes no SNOT-22 e na função olfatória; tais efeitos foram observados de modo consistente em subgrupos com asma associada e doença respiratória exacerbada por AINEs, independentemente do histórico cirúrgico. O omalizumabe, direcionado à IgE, mostrou melhora endoscópica do volume polipoide e de sintomas autorreferidos nos RCTs POLYP-1/2, sustentando seu uso como opção adjuvante especialmente em fenótipo alérgico. No eixo IL-5, o mepolizumabe reduziu o tamanho dos pólipos, a obstrução nasal e, de forma importante, a necessidade de cirurgia de revisão no estudo de fase III SYNAPSE, enquanto o benralizumabe, que promove depleção eosinofílica via IL-5Rα, melhorou o NPS, a congestão e o olfato no OSTRO, com perfil de segurança favorável. Mais recentemente, o bloqueio do alarme epitelial TSLP com tezepelumabe demonstrou redução do NPS e da congestão e diminuição do uso de corticoide sistêmico e de intervenções cirúrgicas em resultados de fase III (WAYPOINT), sugerindo utilidade em cenários de inflamação tipo 2 mista ou de resposta subótima a outras vias-alvo. Globalmente, os estudos convergem para uma redução de sintomas, de carga inflamatória e de eventos que exigem corticoterapia sistêmica e/ou reintervenção, com magnitude de benefício variando conforme endótipo (eosinofilia, atopia, comorbidade asmática), histórico cirúrgico e tempo de acompanhamento; a segurança foi, em geral, alinhada aos perfis já conhecidos de cada agente, com eventos adversos predominantemente leves a moderados e baixos índices de descontinuação.

Resultados

Nos ensaios clínicos de maior qualidade, os anticorpos monoclonais demonstraram benefícios consistentes como terapia adjuvante ao tratamento padrão em pacientes com rinossinusite crônica com polipose nasal não controlada. O dupilumabe, ao bloquear o receptor compartilhado de IL-4/IL-13, reduziu de forma significativa o escore de pólipos nasais, a congestão/obstrução nasal e a opacificação tomográfica nos estudos de fase III (SINUS-24/52), com ganhos clinicamente relevantes no SNOT-22 e na função olfatória; tais efeitos foram observados de modo consistente em subgrupos com asma associada e doença respiratória exacerbada por AINEs, independentemente do histórico cirúrgico. O omalizumabe, direcionado à IgE, mostrou melhora endoscópica do volume polipoide e de sintomas autorreferidos nos RCTs POLYP-1/2, sustentando seu uso como opção adjuvante especialmente em fenótipo alérgico. No eixo IL-5, o mepolizumabe reduziu o tamanho dos pólipos, a obstrução nasal e, de forma importante, a necessidade de cirurgia de revisão no estudo de fase III SYNAPSE, enquanto o benralizumabe, que promove depleção eosinofílica via IL-5Rα, melhorou o NPS, a congestão e o olfato no OSTRO, com perfil de segurança favorável. Mais recentemente, o bloqueio do alarme epitelial TSLP com tezepelumabe demonstrou redução do NPS e da congestão e diminuição do uso de corticoide sistêmico e de intervenções cirúrgicas em resultados de fase III (WAYPOINT), sugerindo utilidade em cenários de inflamação tipo 2 mista ou de resposta subótima a outras vias-alvo. Globalmente, os estudos convergem para uma redução de sintomas, de carga inflamatória e de eventos que exigem corticoterapia sistêmica e/ou reintervenção, com magnitude de benefício variando conforme endótipo (eosinofilia, atopia, comorbidade asmática), histórico cirúrgico e tempo de acompanhamento; a segurança foi, em geral, alinhada aos perfis já conhecidos de cada agente, com eventos adversos predominantemente leves a moderados e baixos índices de descontinuação.

Conclusão

As terapias biológicas consolidaram-se como um pilar no manejo da rinossinusite crônica com polipose nasal refratária ao cuidado padrão, reduzindo de modo consistente o volume polipoide, a congestão, a necessidade de corticoterapia sistêmica e de reintervenções, além de melhorar o olfato e a qualidade de vida. Entre os agentes disponíveis, o bloqueio de IL-4/IL-13 (dupilumabe) apresenta benefício amplo e robusto em diferentes perfis de doença; o anti-IgE (omalizumabe) é particularmente útil em fenótipos atópicos; os inibidores do eixo IL-5/IL-5R (mepolizumabe, benralizumabe) são racionais no fenótipo eosinofílico; e o anti-TSLP (tezepelumabe) surge como alternativa promissora para inflamação tipo 2 mista ou resposta subótima a alvos distais.

A adoção clínica deve ser guiada por estratificação fenótipo-endótipo, comorbidades (asma, doença respiratória exacerbada por AINEs), histórico cirúrgico e metas centradas no paciente, acompanhada de monitorização objetiva em 16–24 semanas (NPS, congestão, SNOT-22, olfato, uso de corticoide sistêmico) para classificar resposta e decidir continuidade, otimização tópica ou troca de mecanismo. Em sistemas com restrições de acesso, priorizar casos graves, com múltiplas cirurgias ou alta dependência de corticoide sistêmico, maximiza valor clínico e custo-efetividade.

Persistem lacunas relevantes — ausência de comparações diretas entre biológicos, biomarcadores preditivos universais, duração ótima do tratamento e estratégias de “step-down” ou suspensão — que demandam estudos pragmáticos e de longo prazo. Até que essas respostas estejam disponíveis, o uso criterioso e individualizado dos biológicos, ancorado em diretrizes atuais e metas claras de resposta, representa a melhor estratégia para transformar desfechos em RSCPN e reduzir a carga de doença para pacientes e sistemas de saúde.


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