Childhood Obesity and Sleep-Disordered Breathing: Obstructive Sleep Apnea and its Impact on Ear, Nose, and Throat Health.
Obesidad Infantil y Trastornos Respiratorios del Sueño: Apnea Obstructiva del Sueño y su Impacto en la Salud de Oídos, Nariz y Garganta.
Caroline Borges Ala
Instituição de Ensino de Origem: Faculdade de Medicina de Marília
ORCID: 0000-0003-3414-5999
Matheus de Matos Porto
Instituição de Ensino de Origem: Universidade de Araraquara (UNIARA)
ORCID: 0009-0006-0913-2263
João Paulo dos Santos Moreira
Instituição de Ensino de Origem: Centro Universitário de Valença (UNIFAA)
Marina Melo Cavalcante
Instituição de Ensino de Origem: Centro Universitário de Mineiros (UNIFIMES)
ORCID: 0000-0001-5403-8299
Introdução: A apneia obstrutiva do sono (AOS) em crianças é um distúrbio respiratório caracterizado por obstruções intermitentes das vias aéreas superiores (VAS) durante o sono. A obesidade infantil é um fator de risco majoritário, contribuindo para o estreitamento das VAS e aumento da resistência respiratória. Objetivo: Revisar a interconexão entre obesidade e AOS em crianças, enfatizando o impacto da doença na saúde otorrinolaringológica (ORL), particularmente em estruturas como ouvidos, nariz e garganta. Métodos: Revisão sistemática e narrativa da literatura (PubMed, Scopus, SciELO) com foco em estudos de 2015 a 2025 que abordaram a fisiopatologia, manifestações clínicas, complicações ORL (otite média, disfunção tubária, hipertrofia adenotonsilar) e abordagens terapêuticas na criança obesa com AOS. Resultados: A obesidade aumenta significativamente a gravidade da AOS e é um preditor de falha na adenotonsilectomia, o tratamento padrão. Crianças obesas apresentam maior prevalência de disfunção da tuba auditiva e otite média serosa, além de maior colapso faríngeo residual pós-cirurgia (Tabela 1). A resistência nasal elevada e a inflamação sistêmica contribuem para a patogênese do distúrbio. Conclusão: A obesidade exerce um papel significativo na gravidade e persistência da AOS infantil, elevando o risco de alterações auditivas e refratariedade ao tratamento cirúrgico ORL. Isso reforça a necessidade de uma abordagem multidisciplinar obrigatória que integre o tratamento otorrinolaringológico (cirúrgico ou não) com estratégias agressivas de controle ponderal e metabólico.
Palavras-chave: Obesidade Infantil; Apneia Obstrutiva do Sono; Otorrinolaringologia; Otite Média; Hipertrofia Adenotonsilar; Disfunção Tubária.
A obesidade infantil atingiu proporções epidêmicas globalmente, estabelecendo-se como uma das ameaças mais sérias à saúde das novas gerações, associada a uma vasta gama de comorbidades metabólicas, cardiovasculares e respiratórias [1, 2]. Entre estas, a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) se destaca como uma condição de alta prevalência (1% a 5% das crianças) e morbidade potencial, cuja incidência acompanha o aumento dos índices de massa corporal (IMC) [3, 4].
A AOS é caracterizada pela obstrução recorrente das vias aéreas superiores (VAS) durante o sono, induzindo hipóxia intermitente, hipercapnia e fragmentação do sono. Estas consequências comprometem o desenvolvimento físico, o desempenho cognitivo e o ajuste comportamental da criança [5]. Tradicionalmente, a principal causa anatômica da AOS infantil é a hipertrofia adenotonsilar. No entanto, na criança obesa, a patogênese é mais complexa, incluindo o acúmulo de tecido adiposo nas paredes faríngeas e um estado inflamatório sistêmico [6, 9].
O impacto da AOS na criança obesa não se restringe aos distúrbios respiratórios e metabólicos; ele interfere diretamente na saúde otorrinolaringológica (ORL). Evidências crescentes apontam para a relação entre AOS e o aumento da incidência de otite média serosa (OMS), disfunção da tuba auditiva e rinite crônica [7, 8].
Portanto, este trabalho se propõe a aprofundar a compreensão sobre a relação intrínseca entre a obesidade, a AOS e a saúde dos ouvidos, nariz e garganta, visando aprimorar o diagnóstico e o manejo clínico integral da criança afetada [10, 11].
Foi conduzida uma revisão sistemática e narrativa da literatura científica. A busca eletrônica foi realizada nas bases de dados Medline/PubMed, Scopus, SciELO e Google Scholar. O período de inclusão dos artigos foi delimitado entre 2015 e Setembro de 2025.
Os descritores (em combinação com operadores booleanos AND/OR) utilizados foram: 'obesidade infantil' (childhood obesity), 'apneia obstrutiva do sono' (obstructive sleep apnea), 'distúrbios respiratórios do sono' (sleep-disordered breathing), 'otite média' (otitis media), 'disfunção tubária' (eustachian tube dysfunction), 'hipertrofia adenotonsilar' (adenotonsillar hypertrophy) e 'rinite' (rhinitis).
Critérios de Inclusão:
Critérios de Exclusão:
A triagem inicial foi realizada por um único revisor, com foco em títulos e resumos. Os artigos potencialmente relevantes tiveram o texto completo avaliado para determinar a elegibilidade final. A extração de dados concentrou-se nos achados de: (a) Fisiopatologia (mecanismos de obstrução em obesos), (b) Complicações ORL (prevalência de otite/disfunção tubária), (c) Resposta Terapêutica (taxa de cura ou persistência de AOS pós-adenotonsilectomia) e (d) Dados quantitativos (Índice de Apneia-Hipopneia - IAH). A síntese dos dados foi predominantemente narrativa, dada a heterogeneidade das medições clínicas nos estudos ORL.
Ref. | Autor(es), Ano | Desenho do Estudo | População (n) | Foco Principal | Achado ORL Relevante |
[12] | Huang et al., 2025 | Transversal (Grande Coorte) | 4.668 | Obesidade e Gravidade da AOS | Associação de obesidade com formas moderadas/graves de AOS. |
[13] | Lumachi et al., 2024 | Revisão Sistemática | N/A | Fisiopatologia da Disfunção Tubária | Pressão negativa faríngea em obesos contribui para Otite Média Serosa. |
[14] | Arens et al., 2017 | Estudo de Coorte | 90 | Falha da Adenotonsilectomia | Obesidade é o maior preditor de AOS residual pós-cirurgia. |
[15] | Zaffanello et al., 2020 | Meta-análise | N/A | Complicações ORL em AOS Infantil | Maior prevalência de Rinite e Sinusite em crianças com AOS e sobrepeso. |
[16] | Gami et al., 2018 | Estudo de Caso-Controle | 75 | Avaliação Endoscópica (DISE) | Obesos apresentam colapso faríngeo multilocal mais extenso. |
Os estudos analisados confirmam que a obesidade é um fator determinante para a gravidade e persistência da AOS em crianças [3, 12]. O Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) é significativamente mais elevado em crianças obesas quando comparadas a crianças com peso normal com AOS de causa puramente adenotonsilar [6, 12]. Por exemplo, um estudo com mais de 4.600 crianças observou que o sobrepeso e a obesidade estavam associados a um risco 2.5 a 4 vezes maior de desenvolver AOS moderada a grave, com \text{IAH} \geq 5 eventos/hora [12].
A obesidade potencializa as repercussões ORL da AOS.
Ref. | Grupo de Pacientes | n (Pacientes) | Taxa de Persistência de AOS Moderada/Grave (%) | Fator Etiológico Principal da Persistência |
[14] | Pós-AT Obesos | 45 | 48% | Colapso Faringe/Base da Língua |
[14] | Pós-AT Não Obesos | 45 | 20% | Obstrução Residual Tonsilar |
[16] | Pós-AT Obesos | 30 | 52% | Colapso Hipofaríngeo Multilocal |
[17] | Pós-AT Obesos com Comorbidades | 60 | 61% | Obesidade e Inflamação Sistêmica |
A intersecção entre obesidade e AOS infantil representa um desafio diagnóstico e terapêutico que exige uma visão ORL e metabólica integrada.
A relação é multifatorial, transcendendo a simples anatomia hipertrófica. O acúmulo de gordura não é apenas faríngeo; a obesidade induz inflamação sistêmica crônica, que se manifesta localmente como edema mucoso persistente (rinite crônica) e contribui para a hipertrofia linfática (adenotonsilar) [1, 3, 15].
A disfunção da tuba auditiva e o subsequente desenvolvimento de OMS em crianças obesas com AOS são um achado ORL crucial. A tuba auditiva, que se abre na nasofaringe, sofre o impacto direto das pressões negativas faríngeas geradas pelos esforços respiratórios contra a obstrução, e do processo inflamatório adjacente, resultando em ventilação inadequada e acúmulo de efusão no ouvido médio [7, 13].
A adenotonsilectomia é a primeira linha de tratamento para a maioria das crianças com AOS. Contudo, na população obesa, a sua eficácia é significativamente menor [14]. Os resultados desta revisão confirmam que a taxa de persistência da AOS é o dobro ou mais em crianças obesas (Tabela 2), devido a mecanismos obstrutivos não-adenotonsilares [16].
O reconhecimento de que o colapso nas VAS da criança obesa se estende à hipofaringe e à base da língua implica que o tratamento deve ir além da cirurgia ORL. O manejo eficaz exige a integração do controle ponderal, da terapia com Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP) em casos de persistência [17], e de intervenções ORL complementares (como cirurgia de base da língua ou palatoplastia em casos selecionados) [16]. A prevenção da obesidade infantil, portanto, assume o papel de estratégia preventiva mais eficaz contra a AOS e suas complicações ORL e sistêmicas [12, 18].
A obesidade infantil é um fator de risco primordial para a apneia obstrutiva do sono (AOS) e um preditor significativo da persistência da doença e de complicações otorrinolaringológicas (ORL), como a otite média serosa e a disfunção tubária. A patogênese na criança obesa é complexa e envolve a redução do lúmen das vias aéreas e a inflamação sistêmica, que limitam a eficácia da adenotonsilectomia. O manejo da AOS em crianças obesas exige uma abordagem multidisciplinar rigorosa que combine a expertise ORL (diagnóstico e tratamento cirúrgico inicial) com o controle agressivo do peso e a vigilância metabólica. A identificação e o tratamento precoce da obesidade são essenciais para otimizar os desfechos em longo prazo e prevenir os danos ao desenvolvimento físico e cognitivo.