METODOLOGIAS ATIVAS E INOVAÇÃO PEDAGÓGICA NO ENSINO CRÍTICO DA ENFERMAGEM EM TERAPIA INTENSIVA

ACTIVE METHODOLOGIES AND PEDAGOGICAL INNOVATION IN CRITICAL NURSING EDUCATION IN INTENSIVE CARE

METODOLOGÍAS ACTIVAS E INNOVACIÓN PEDAGÓGICA EN LA ENSEÑANZA CRÍTICA DE LA ENFERMERÍA EN CUIDADOS INTENSIVOS

Tipo de artigo: Artigo qualitativo

Autores

Leonardo Barros do Amarante

Mestrando - Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Orcid: https://orcid.org/0000-0000-0000-0000

RESUMO

Objetivo: Relatar a experiência docente na disciplina de Enfermagem em Terapia Intensiva, destacando o impacto das metodologias ativas na formação crítica e reflexiva do enfermeiro. Método: Estudo qualitativo, descritivo-analítico, baseado em observação sistemática e registros em diário de campo. As atividades incluíram aulas dialogadas, práticas supervisionadas e seminários integradores. Resultados: As metodologias ativas favoreceram a autonomia discente, o desenvolvimento do raciocínio clínico e a consolidação de competências técnicas, cognitivas e relacionais, com ampliação do engajamento, da segurança técnica e da liderança nas práticas simuladas. Conclusão: A integração entre teoria, prática e reflexão crítica potencializa a formação de enfermeiros comprometidos com a segurança do paciente e com os princípios do SUS.

DESCRITORES: Metodologias ativas; Educação em enfermagem; Enfermagem em terapia intensiva; Raciocínio clínico; Segurança do paciente.

ABSTRACT

Objective: To report the teaching experience in the Intensive Care Nursing course, emphasizing the impact of active methodologies on critical and reflective nursing training. Method: Qualitative, descriptive-analytical study based on systematic observation and field diary records. Activities included dialogued classes, supervised practices, and integrative seminars. Results: Active methodologies promoted student autonomy, clinical reasoning, and the consolidation of technical, cognitive, and relational skills. Increased engagement, technical safety, and leadership were observed in simulated practices. Conclusion: Integrating theory, practice, and critical reflection enhances the education of nurses committed to patient safety and the principles of the Brazilian Unified Health System (SUS).

DESCRIPTORS: Active methodologies; Nursing education; Intensive care nursing; Clinical reasoning; Patient safety.

RESUMEN

Objetivo: Relatar la experiencia docente en la asignatura de Enfermería en Cuidados Intensivos, destacando el impacto de las metodologías activas en la formación crítica y reflexiva del enfermero. Método: Estudio cualitativo, descriptivo-analítico, basado en observación sistemática y registros en diario de campo. Las actividades incluyeron clases dialogadas, prácticas supervisadas y seminarios integradores. Resultados: Las metodologías activas favorecieron la autonomía del estudiante, el razonamiento clínico y la consolidación de competencias técnicas, cognitivas y relacionales, con mayor compromiso, seguridad técnica y liderazgo en las prácticas simuladas. Conclusión: La integración entre teoría, práctica y reflexión crítica potencia la formación de enfermeros comprometidos con la seguridad del paciente y con los principios del Sistema Único de Salud (SUS).

DESCRIPTORES: Metodologías activas; Educación en enfermería; Enfermería en cuidados intensivos; Razonamiento clínico; Seguridad del paciente.

INTRODUÇÃO

                Formar enfermeiros para atuar em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) implica enfrentar o desafio de preparar profissionais para cenários de alta complexidade, nos quais decisões rápidas, fundamentadas e seguras podem determinar desfechos vitais¹,². Nesse contexto, metodologias ativas configuram-se como estratégias potentes de ensino, capazes de articular teoria, prática e reflexão crítica¹,².

                A UTI caracteriza-se pelo uso intensivo de tecnologias, pela monitorização contínua e pela necessidade de decisões céleres, diretamente relacionadas à segurança do paciente³,⁴. Mais do que transmitir conteúdos, a formação em Enfermagem deve promover competências técnicas, cognitivas e atitudinais, como raciocínio clínico, autonomia, liderança e trabalho colaborativo , favorecendo habilidades para a coordenação do cuidado e a tomada de decisões em equipes multiprofissionais⁵–⁸.

                As metodologias ativas deslocam o estudante da passividade para o protagonismo, aproximando a aprendizagem da complexidade do trabalho em saúde e integrando conhecimento técnico-científico, julgamento ético e compromisso social. Evidências nacionais apontam ganhos em autonomia, reflexão crítica e engajamento discente⁹–¹¹.

                Entre essas metodologias, a simulação clínica consolidou-se como recurso central por articular teoria e prática em ambientes seguros, favorecendo aprendizagem significativa¹², enquanto estudos internacionais reforçam sua efetividade no desenvolvimento do raciocínio clínico e da segurança assistencial¹³,¹⁴.

                As Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Enfermagem orientam para uma formação crítica, reflexiva e generalista, articulada de forma indissociável ao ensino, ao serviço e à comunidade¹⁵. De modo complementar, a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde propõe o trabalho como eixo central da aprendizagem, compreendendo-o como espaço de problematização e transformação¹⁶.

                Nessa perspectiva, a Educação Permanente em Saúde tem sido reconhecida como estratégia indispensável para integrar ensino, gestão, atenção e controle social, configurando uma inovação pedagógica no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS)¹⁷.

                Apesar desses avanços normativos, persistem lacunas expressivas entre o que está previsto e o que se concretiza na prática, em razão de desigualdades estruturais e da insuficiência de recursos pedagógicos em muitas instituições¹⁸.
A realização deste estudo justifica-se pela necessidade de aproximar a formação em Enfermagem das demandas reais de cuidado em UTIs.

                Apesar de avanços normativos, ainda se observa descompasso entre diretrizes e práticas, especialmente quanto à integração entre teoria e vivência clínica¹⁵–¹⁸.
Relatar como as metodologias ativas contribuem para o fortalecimento de estratégias inovadoras que ampliem o protagonismo discente, qualifiquem o raciocínio clínico e consolidem competências alinhadas às necessidades do SUS¹⁷. Além disso, o presente relato oferece subsídios que podem ser replicados e adaptados em diferentes instituições, difundindo práticas pedagógicas críticas, reflexivas e socialmente comprometidas⁹,¹².

MÉTODO

                Este estudo configura-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza descritivo-analítica, fundamentada na observação sistemática registrada em diário de campo e no feedback espontâneo dos estudantes. A adoção dessa abordagem segue a perspectiva de Minayo¹⁶, segundo a qual a pesquisa qualitativa possibilita captar os significados e intencionalidades atribuídos pelos sujeitos às práticas pedagógicas, superando a mera descrição de atividades e produzindo uma reflexão crítica sobre os processos formativos vivenciados na disciplina de Enfermagem em Unidade de Terapia Intensiva, ofertada em curso de graduação em uma instituição pública de ensino superior¹⁶,¹⁷.

                Seguindo o COREQ, destaca-se que a experiência foi conduzida por docente-pesquisador, com registro sistemático das práticas pedagógicas e sem a utilização de entrevistas formais ou instrumentos de coleta direta de dados junto a discentes. A reflexividade foi considerada mediante o reconhecimento da posição do pesquisador enquanto docente da disciplina e mediador do processo formativo¹⁷.

                A experiência ocorreu ao longo do semestre letivo, envolvendo cerca de 60 estudantes matriculados entre os sextos e oitavos semestres do curso, organizados em duas turmas regulares. Foram realizados 20 encontros presenciais, distribuídos entre módulos teóricos e práticos, planejados para integrar conhecimentos técnico-científicos, habilidades psicomotoras e reflexões críticas acerca da atuação do enfermeiro em cenários de alta complexidade.

                As aulas teóricas foram conduzidas em formato dialogado e expositivo, priorizando a participação ativa dos discentes e a construção coletiva do conhecimento. Recursos como vídeos interativos, materiais de apoio e debates orientados auxiliaram na compreensão de conteúdos de elevada densidade, enquanto a análise de casos clínicos permitiu a aplicação prática dos conceitos, estimulando o raciocínio clínico, a tomada de decisão fundamentada e a reflexão ética¹⁶,¹⁷.

                As práticas supervisionadas em laboratório foram estruturadas em três eixos centrais da atuação do enfermeiro em Unidade de Terapia Intensiva. O primeiro eixo envolveu a gasometria arterial, abordando a técnica de coleta, os princípios de biossegurança e a interpretação dos parâmetros ácido-básicos em correlação com diferentes quadros clínicos¹⁹–²¹.

                O segundo eixo contemplou o manejo das vias aéreas, com ênfase em estratégias de oxigenoterapia, utilização de dispositivos básicos e avançados, simulações de situações críticas e aplicação de checklist de segurança para a intubação orotraqueal. O terceiro eixo correspondeu à ventilação mecânica, incluindo fundamentos dos modos ventilatórios, ajustes iniciais, monitorização de parâmetros, análise de curvas gráficas e resolução de problemas relacionados à assistência ventilatória³.

                Como atividade integradora, os estudantes organizaram e apresentaram seminários sobre medicações administradas em bomba de infusão, contemplando preparo, diluição, cálculo de doses, compatibilidade, promoção segura de infusões e prevenção de eventos adversos, etapa que reforçou a interface entre farmacologia, tecnologia e segurança do paciente³.

                O material empírico que sustenta este relato foi produzido a partir de registros no diário de campo do docente e do feedback espontâneo dos estudantes durante e após as atividades. A análise seguiu abordagem descritivo-analítica, permitindo identificar avanços técnicos, cognitivos e relacionais, bem como os significados atribuídos pelos discentes ao processo formativo, em consonância com a perspectiva qualitativa¹⁶.

                Do ponto de vista ético, salienta-se que não houve coleta de dados de pacientes ou discentes para fins de pesquisa científica. Trata-se exclusivamente de relato de experiência docente, em conformidade com a Resolução CNS nº 510/2016, não havendo, portanto, necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

Os resultados desta experiência docente evidenciaram avanços expressivos no processo formativo dos estudantes de Enfermagem, sobretudo no desenvolvimento de competências clínicas, cognitivas e atitudinais indispensáveis ao cuidado em Unidades de Terapia Intensiva. Ao longo dos vinte encontros, observou-se um engajamento crescente, traduzido pela participação ativa nas discussões teóricas e pelo fortalecimento da autonomia no manejo das atividades práticas, confirmando o potencial transformador das metodologias ativas na formação crítica e reflexiva do enfermeiro¹,²,⁸,²⁵. Essa evolução corrobora a relevância de propostas pedagógicas capazes de romper com a passividade tradicional e favorecer a aprendizagem significativa, como já demonstrado em estudos sobre inovação pedagógica e protagonismo discente em enfermagem⁹–¹¹,²⁶.

Nas aulas teóricas, o caráter dialogado mostrou-se fundamental para a construção coletiva do conhecimento, promovendo uma compreensão sólida de conteúdos complexos como ventilação mecânica, gasometria arterial e segurança do paciente. A literatura evidencia que estratégias de ensino centradas no estudante potencializam a integração entre teoria e prática, ampliando o raciocínio clínico e a autonomia intelectual⁶,⁸,¹²,²⁶. Essa vivência reforçou, em minha prática docente, a importância da diversificação metodológica no ensino em saúde, com ênfase na articulação entre saber técnico-científico, julgamento ético e tomada de decisão fundamentada³,⁷,¹⁵,²⁵.

As práticas supervisionadas mostraram-se decisivas para a consolidação do raciocínio clínico. Nos exercícios de gasometria arterial, observou-se a evolução gradual dos estudantes na interpretação dos distúrbios ácido-básicos, com maior segurança na correlação entre achados laboratoriais e situações clínicas reais¹⁹–²¹. Tais resultados estão em consonância com estudos que demonstram o impacto das metodologias práticas e simulações clínicas na formação de enfermeiros críticos, capazes de integrar conhecimento teórico e tomada de decisão segura¹²,¹³,¹⁴.

No módulo de manejo das vias aéreas, houve melhora significativa na precisão técnica e na autoconfiança dos estudantes, evidenciada pela execução correta dos procedimentos e pela aplicação dos protocolos de segurança⁴,⁶,²⁰,²¹. Esse avanço indica que a simulação e o treinamento supervisionado favorecem o desenvolvimento de habilidades psicomotoras e do julgamento clínico situacional, contribuindo para a segurança assistencial e a liderança profissional⁵,⁶,¹².

Já nas atividades sobre ventilação mecânica, os estudantes apresentaram progressiva capacidade de análise das curvas ventilatórias, reconhecimento de alarmes e ajustes de parâmetros, o que confirma a relevância de estratégias pedagógicas que aproximam a teoria da realidade da UTI³,⁴,⁶,¹⁵. A literatura reforça que a aprendizagem baseada em problemas e a simulação de alta fidelidade ampliam a compreensão dos processos fisiológicos e a tomada de decisão rápida em contextos de alta complexidade¹²,¹³,¹⁴,²⁷.

Outro achado relevante emergiu nos seminários sobre bombas de infusão. Durante as apresentações, os discentes demonstraram domínio crescente sobre preparo de medicamentos, cálculo de doses e compatibilidade de soluções, articulando farmacologia, tecnologia e segurança do paciente³,⁹,¹⁰,²⁶. Essa atividade confirmou o papel das metodologias ativas na integração interdisciplinar e na consolidação de competências clínicas e gerenciais, alinhadas às boas práticas de segurança do paciente e à cultura de cuidado centrado⁵,⁹,¹¹.

Sob a dimensão relacional e atitudinal, notaram-se avanços expressivos em comunicação assertiva, empatia, liderança e trabalho em equipe, corroborando o papel da interação dialógica e da aprendizagem colaborativa na formação ética e humanizada do enfermeiro¹,²,⁷,²⁶. Os relatos espontâneos dos estudantes revelaram ainda maior motivação e sentimento de pertencimento ao processo educativo, aspectos frequentemente associados à aprendizagem significativa e à educação problematizadora freireana⁸,⁹,¹⁵,²⁶.

De forma integrada, a experiência demonstrou que as metodologias ativas favorecem a construção de uma postura crítica e reflexiva diante dos casos clínicos, ampliando a compreensão da complexidade das decisões em terapia intensiva e ressignificando o papel do enfermeiro em contextos de alta complexidade¹,³,⁷,²⁷. Assim, a disciplina analisada aproximou a formação acadêmica da realidade do cuidado, fortalecendo a articulação entre teoria, prática e reflexão crítica — elementos indispensáveis para a formação de enfermeiros competentes, autônomos e socialmente comprometidos, conforme as diretrizes do Sistema Único de Saúde¹⁶,¹⁷,²⁵,²⁷.

DISCUSSÃO

 A experiência docente analisada evidencia que a organização pedagógica da disciplina de Enfermagem em Terapia Intensiva potencializa a formação profissional quando estruturada em um percurso que articula teoria, prática e reflexão crítica. Em minha vivência, essa articulação mostrou-se decisiva para o engajamento discente e para a consolidação de competências clínicas e relacionais. Esse achado converge com estudos que defendem que a docência deve superar a linearidade do ensino²⁴,³¹ e ressaltam o papel das metodologias ativas na construção de sujeitos críticos e socialmente comprometidos⁹,¹¹,²⁶. Tal perspectiva encontra sustentação na pedagogia freireana e nas concepções de aprendizagem significativa, nas quais o estudante é protagonista do próprio processo e o professor atua como mediador do conhecimento⁷,⁸,¹⁵.

No que se refere a conteúdos de alta densidade técnica, como gasometria arterial, ventilação mecânica e farmacoterapia, percebi que abordagens diferenciadas foram indispensáveis para favorecer a compreensão e aplicação prática. O caráter dialogado das aulas e o uso de casos clínicos ajudaram a evitar a fragmentação do ensino, aproximando os estudantes da realidade assistencial²⁶,⁷,¹⁹,²⁰. A literatura corrobora que a integração entre teoria e prática constitui um dos pilares da aprendizagem ativa, ao possibilitar que o estudante reconheça o significado do conhecimento no contexto real de trabalho¹,²,⁶,¹². Sobretudo, confirma-se o valor da mediação docente, que é o elemento que dá sentido e contexto à aprendizagem⁷,⁹,²⁴,³¹. Sem condições institucionais adequadas — como espaços de simulação, tempo docente e investimento em infraestrutura —, há o risco de essas metodologias se limitarem a esforços individuais, sem alcance formativo sistêmico⁴,⁵,¹⁴,²⁷.

Outro aspecto central foi o fortalecimento do raciocínio clínico e da tomada de decisão fundamentada em evidências. Na prática, notei maior segurança dos estudantes ao interpretar parâmetros laboratoriais e justificar condutas. Esse resultado dialoga com estudos prévios²,⁵,¹²,¹⁹, que destacam a importância da prática supervisionada e das metodologias ativas para o desenvolvimento do julgamento clínico e da autonomia profissional. Tais competências, conforme evidenciam Ghezzi et al.⁸ e Kim e Yoo¹², são consolidadas quando o uso de tecnologias educacionais se associa à reflexão crítica e à contextualização clínica. Nesse sentido, as metodologias ativas mostraram-se mais do que instrumentos técnicos: constituíram processos pedagógicos que exigem mediação docente crítica e diálogo constante⁷,⁹,²⁴,³¹, sustentando a formação de profissionais autônomos e reflexivos.

A dimensão relacional e organizacional também se destacou. O trabalho em equipe, a comunicação assertiva e a liderança emergiram como competências fortalecidas durante as práticas supervisionadas, em consonância com a literatura sobre preceptoria em ambientes complexos²⁸ e gestão do cuidado na formação em enfermagem⁸,²⁰. Em especial, as simulações de deterioração clínica permitiram vivências de cooperação multiprofissional e tomada de decisão rápida, conforme já discutido por Miranda et al.⁵ e De Mendonça Lopes et al.³, que apontam tais experiências como oportunidades ímpares para o desenvolvimento de competências colaborativas e de segurança assistencial¹³,¹⁴.

O seminário sobre bombas de infusão foi outro momento revelador, pois além de aprofundar aspectos técnicos, como preparo e cálculo de doses, proporcionou discussões sobre riscos e protocolos³,⁹,¹⁰,²⁶. Essa experiência reforçou a cultura de segurança e de corresponsabilidade no uso de tecnologias em saúde, confirmando achados de Fernandes et al.¹⁰ e Jeffries¹¹, que demonstram o potencial das metodologias ativas e da simulação clínica para o ensino seguro de práticas complexas. Assim, o aprendizado se estendeu para além do domínio técnico, alcançando a compreensão ética e a prevenção de eventos adversos¹²,²⁶,²⁷.

A motivação e a satisfação discente também emergiram como elementos relevantes. Diversos estudantes relataram espontaneamente maior confiança e engajamento, o que, na minha percepção, foi reflexo direto do protagonismo que assumiram nas atividades. Esse resultado aproxima-se de análises que destacam a confiança como fator determinante para a permanência e motivação em contextos intensivos²⁶,²⁹,³⁰. Estudos internacionais recentes indicam que o envolvimento ativo dos estudantes em processos de ensino-aprendizagem complexos está associado ao fortalecimento da autoeficácia e à redução da ansiedade em ambientes de cuidado de alta complexidade¹¹,¹²,¹³.

Do ponto de vista normativo, os resultados alinham-se aos marcos da formação em saúde no Brasil. As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Enfermagem¹⁵ e a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde¹⁶ já orientam para uma formação crítica, integral e vinculada ao trabalho em saúde. Minha experiência confirma que, embora essas diretrizes estejam bem estabelecidas, ainda há uma distância entre o que está prescrito e o que se materializa nas instituições¹⁵–¹⁸,²⁴. O Parecer CNE/CES nº 443/2024 sinaliza uma atualização necessária, mais próxima das demandas contemporâneas do SUS, mas ainda exigirá esforços interinstitucionais para superar desigualdades estruturais e consolidar a integração ensino-serviço-comunidade.

Apesar dos avanços, alguns desafios permaneceram evidentes: a heterogeneidade dos conhecimentos prévios e o tempo restrito para aprofundar os debriefings limitaram parte do processo. Essa dificuldade corrobora análises que indicam a necessidade de metodologias que consolidem o raciocínio clínico como eixo transversal da formação⁶,¹²,³⁰,³¹. Em minha prática, identifiquei a urgência de estratégias de nivelamento, ampliação dos espaços de simulação e maior investimento institucional, de modo a reduzir desigualdades e qualificar a aprendizagem¹²,¹⁴,¹⁵,²⁷.

Por fim, a experiência reforçou o papel do professor como mediador, capaz de orientar os estudantes na construção de saberes críticos e socialmente comprometidos²⁴,³¹. Essa mediação docente, ancorada no diálogo e na problematização freireana, é o eixo que transforma o espaço de ensino em um lugar de reflexão ética, emancipação e compromisso social⁷,⁸,⁹,³¹. Sem ela, mesmo as metodologias mais inovadoras perdem sua potência transformadora.

De modo geral, a discussão mostra que a docência em Terapia Intensiva, sustentada por metodologias ativas e práticas supervisionadas, vai além da transmissão de conteúdos técnicos. Ela promove a formação de profissionais críticos, reflexivos e alinhados aos princípios do SUS¹⁵,¹⁶,²⁵,²⁷. Essa experiência evidencia a pertinência da inovação pedagógica nesse campo e aponta para a necessidade de sua institucionalização como prática formativa estruturada, garantindo sustentabilidade e alcance coletivo⁸,⁹,¹⁵,²⁴.

CONCLUSÃO

A experiência docente na disciplina de Enfermagem em Terapia Intensiva evidenciou que a integração entre aulas dialogadas, práticas supervisionadas e atividades integradoras favorece o desenvolvimento de competências técnicas, cognitivas e relacionais, além de fortalecer a autonomia discente e o raciocínio clínico. Essa combinação metodológica mostrou-se essencial para formar enfermeiros críticos e comprometidos com a segurança do paciente e com os princípios do SUS, demonstrando que metodologias ativas, quando institucionalizadas, contribuem para uma formação mais reflexiva e alinhada às demandas contemporâneas do cuidado em saúde.

Apesar dos avanços observados, persistem desafios como a heterogeneidade dos conhecimentos prévios, o tempo restrito para debriefings e a limitação de recursos pedagógicos. Esses fatores reforçam a necessidade de políticas institucionais que ampliem o apoio docente e os investimentos em infraestrutura e espaços de simulação. De modo geral, a experiência confirma que a docência em Terapia Intensiva é um campo estratégico de inovação pedagógica, capaz de transformar o processo de ensino-aprendizagem e consolidar uma prática educativa crítica, ética e socialmente comprometida.

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