MORTALIDADE POR NEOPLASIAS MALIGNAS DA MAMA EM MULHERES ≥ 20 ANOS, PIAUÍ, 2010-2023

 

Maricélia Rubim da Silva1

Graziela Katiuscia de Carvalho e Araújo2.

Francisco Furtado de Sousa Júnior3.

Jefferson da Silva Rodrigues4.

Pedro Henrique Andrade de Vasconcelos5.

Ryan Carlos Leite de Andrade6.

Tilara Amélia Oliveira Moreira7.

Francisco Antonio da Cruz dos Santos8.

RESUMO

Objetivo: analisar a mortalidade por NMM em mulheres (≥ 20 anos) residentes no Piauí de 2010 a 2023. Metodologia: estudo transversal e ecológico com do Sistema de Mortalidade tabulados via Tabwin. Foi analisado a distribuição espaço-temporal e perfil epidemiológico. Calculou-se as taxas por 100.000 pelo Excel, confeccionou-se os mapas com número de casos por municípios e calculou-se o teste Qui-quadrado de Pearson com significância de 5%.  Resultados: foram registrados 2.617 óbitos por NMM no Piauí. Verificou-se aumento nas taxas de mortalidade (12,5 a 17,6%), maior concentração de óbitos nos municípios mais populosos, elevadas proporções de mulheres com 50 a 59 anos (25,8%), pardas (58,9%) e casadas (37,6%). Observou-se significância estatística com todas as variáveis analisadas entre adultas e idosas. Conclusão: A mortalidade por CMM apresentou distribuição temporal crescente, concentrada em municípios populosos e com fatores sociodemográficos proporcionalmente elevados e estatisticamente significativos quando comparados entre grupos etários distintos.  

Descritores: Neoplasias da Mama.  Mortalidade. Monitoramento Epidemiológico. Distribuição Espacial.

1 INTRODUÇÃO

A neoplasia mamária, especialmente o câncer de mama maligno, representa um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo, sendo a neoplasia maligna mais incidente entre as mulheres. Dessa forma, as estimativas para o ano de 2022 foi de 66.280 casos novos, o que representa uma taxa ajustada de incidência de 43,74 casos por 100.000 mulheres brasileiras (1).

No Brasil, o câncer de mama ocupa o primeiro lugar entre os tipos de neoplasias malignas mais comuns em mulheres, seguido pelo câncer do colo do útero, com elevadas taxas de incidência e mortalidade associadas, evidenciando esforços para a adoção de estratégias eficazes de detecção precoce, acesso oportuno a tratamentos adequados para a população afetada (2). Entre 2005 a 2019 o Brasil registrou 207.683 mortes por câncer de mama em mulheres com 20 anos ou mais, onde a região Nordestes concentrou 17,8% (n = 36.910) dos casos e apresentou uma taxa média de 16,43 a cada 100.000 mulheres (3).

Ao longo das últimas décadas, o controle do câncer de mama no Brasil evoluiu significativamente, refletindo um compromisso crescente da saúde pública com essa neoplasia. A partir dos anos 1980, com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), iniciouse uma ampliação nas ações voltadas à detecção precoce e ao tratamento, consolidando políticas públicas, reafirmando o câncer de mama como prioridade na agenda nacional, instituição de diretrizes e protocolos para ampliação o acesso à exames, procedimentos e tratamentos de mulheres em todo o país (1).

O tratamento e a internação por neoplasia maligna mamária (NMM) apresentam custos que variam conforme o estágio da doença, o tipo de intervenção realizada (cirurgia, quimioterapia ou radioterapia) e o sistema de saúde responsável pelo atendimento (SUS ou suplementar). De acordo com Observatório de Oncologia (4), os custos com neoplasias mamárias corresponderam a quase 4 milhões em 2016, evidenciando o impacto econômico significativo dessa doença para o sistema de saúde brasileiro.

A mortalidade por câncer de mama no Brasil continua sendo um desafio relevante para a saúde pública, apesar dos avanços nas políticas públicas de rastreamento e tratamento oncológico, desigualdades regionais no acesso aos serviços de saúde comprometem acesso aos serviços de saúde, especialmente nas regiões mais vulnerabilizadas socialmente. Segundo o painel de mortalidade elaborado pelo INCA, embora avanços tecnológicos e políticas de rastreamento tenham contribuído para melhorias nos indicadores, ainda se observam taxas expressivas de óbitos, principalmente entre mulheres com diagnóstico tardio, afetando diretamente sua qualidade de vida e sobrevida (5).

Analisar informação acerca dos óbitos por NMM em mulheres no estado do Piauí justifica-se pela relevância epidemiológica e social desse agravo, que representa uma das principais causas de morte por câncer entre a população feminina brasileira. Estudar a mortalidade por câncer de mama no contexto piauiense, além da relevância, é algo inédito e fundamental evidenciar padrões, distribuições, perfis, visto que a literatura apresenta lacunas quando a esse tema de óbitos em mulheres piauienses.

Assim, o objetivo desse trabalho foi analisar a distribuição espaço-temporal e perfil epidemiológico dos óbitos por NMM em mulheres piauienses nos anos de 2010 a 2023.

2 METODOLOGIA

Estudo transversal e ecológico misto, que avaliou dados sobre óbitos por neoplasias malignas da mama em pessoas do sexo feminino no estado do Piauí, no período de janeiro de 2010 a dezembro de 2023 (6). A tabulação das informações foi realizada por meio da ferramenta Tabwin disponível no portal Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) que armazena dados oriundos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) (7).

        A coleta de dados ocorreu no sítio eletrônico do DATASUS no link “acesso à informação” no item “informações de saúde (Tabwin)”, importando para o computador dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) sobre óbitos de residentes do Piauí de 2010 a 2023. No aplicativo Tabwim, foi realizada a tabulação por meio da seleção e filtragem das variáveis.  Filtrou-se por: Unidade federativa de residência Piauí, sexo feminino, faixas etárias ≥ 20 anos e CID-10 = C50: Neoplasias malignas da mama. Organizou-se as demais variáveis por linhas e colunas (8).

Ademais, foram coletadas estimativas da projeção populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) para estado do Piauí para cada ano e com a população de mulheres com idade ≥ 20 anos.

As variáveis selecionadas este estudo foram: óbitos por neoplasias malignas mamárias; faixa etária (20 anos), raça/cor (branca, parda e outras), escolaridade (em anos), estado civil (solteiro, casado e outros) taxa de mortalidade (por 100.000 mulheres), anos (2010 a 2023), municípios.

Os dados foram importados em 05 de julho de 2025. A organização dos dados iniciais e informações finais foram realizadas no Excel 2016 para confecção de tabelas, gráficos e cálculos de frequências e taxas (9).  

As taxas foram calculadas pela constante 100.000. Os mapas foram confeccionados pelo aplicativo Tabwin a partir da frequência (n) de casos em cada município do estado. As demais analises foram realizadas no SPSS versão 25, para cálculo do estatísticas descritivas, teste Qui-quadradro de Pearson e p-valor, significativo quando <0,05.

        O presente estudo utiliza dados secundários do SIM/Datasus, que armazenam dados de domínio público, sem identificação, não sendo necessário a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) para sua realização, como prever a resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

3 RESULTADOS

Entre os anos de 2010 e 2023, foram registrados 2.617 óbitos por NMM em mulheres ≥ 20 anos de idades, residentes no estado do Piauí, com variações anuais tanto no número absoluto de mortes quanto nas taxas ajustadas por 100 mil mulheres. Conforme o Gráfico 1, A taxa de mortalidade oscilou de 12,5 em 2010 para 17,6 em 2023 por 100 mil/mulheres, representando um aumento de aproximadamente 40,9% no período analisado. Observa-se uma tendência crescente ao longo dos anos, com picos notáveis em 2017 (18,9 por 100 mil) e 2021 (18,9 por 100 mil).

Gráfico 1. Taxa temporal de óbitos por NMM em mulheres (≥ 20 anos), Piauí, 2010 e 2023.

Fonte: elaborado pelos autores. Dados: SIM - DATASUS/Tabnet, 2025; IBGE – estimativas populacionais, 2025.

A Tabela 1 apresenta a distribuição de 2.617 registros de óbitos segundo características sociodemográficas. Observa-se maior concentração na faixa etária de 50 a 59 anos (25,8%), seguida por 60 a 69 anos (21,9%) e 40 a 49 anos (18,4%), indicando predomínio de indivíduos de meia-idade e idosos. Quanto à raça/cor da pele, predominam indivíduos pardos (58,9%) e brancos (25,1%). Em relação à escolaridade, verificou-se distribuição relativamente homogênea entre os estratos de nenhuma escolaridade (18,5% a 18,1%), 1 a 11 anos de estudo, com menor proporção entre aqueles com 12 anos ou mais de escolaridade (10,2%). No estado civil, destacou-se a maior frequência de indivíduos casados (37,6%).

Tabela 1. Perfil dos óbitos por NMM em mulheres (≥20 anos) segundo características sociodemográficas (faixa etária, Raça/cor de pela escolaridade e estado civil), Piauí, 2010 e 2023.

Variáveis

Frequência

n

%

Faixa Etária

20 a 29 anos

24

0,9

30 a 39 anos

211

8,1

40 a 49 anos

481

18,4

50 a 59 anos

674

25,8

60 a 69 anos

572

21,9

70 a 79 anos

356

13,6

80 anos e mais

299

11,4

Raça/Cor de pele

Branca

658

25,1

Preta

245

9,4

Parda

1541

58,9

Outras

14

0,5

Escolaridade

Nenhuma

483

18,5

1 a 3 anos

467

17,8

4 a 7 anos

472

18,0

8 a 11 anos

473

18,1

12 anos e mais

268

10,2

Estado Civil

Solteiro

610

23,3

Casado

984

37,6

Viúvo

451

17,2

Separado judicialmente

131

5,0

Outro

129

4,9

Total

2617

100,0

Fonte: elaborado pelos autores. Dados: SIM - DATASUS/Tabnet, 2025.

No período analisado, observou-se maior número de óbitos entre mulheres adultas (1.300; 49,7%) em comparação às idosas (1.158; 44,2%). Quanto à raça/cor da pele, predominou a mortalidade entre mulheres pretas/pardas em ambos os grupos etários, sendo mais elevada entre adultas (37,7%) do que entre idosas (30,6%). As mulheres brancas apresentaram proporções menores, porém ligeiramente superiores entre idosas (13,3%) em relação às adultas (11,8%). Essa distribuição mostrou associação estatisticamente significativa (p=0,001).

Em relação à escolaridade, destaca-se que a ausência de instrução foi mais frequente entre as idosas (13,1%) do que entre as adultas (5,3%). Já as maiores proporções de óbitos entre mulheres com 8 anos ou mais de estudo ocorreram no grupo adulto (18,7%), enquanto entre as idosas essa proporção foi consideravelmente menor (9,6%). As diferenças segundo escolaridade foram estatisticamente significativas (p<0,001), sugerindo desigualdades sociais associadas à mortalidade.

No que se refere ao estado civil, observou-se maior proporção de óbitos entre viúvas/separadas, especialmente entre as adultas (25,4%), seguidas pelas idosas (17,1%). As mulheres em união apresentaram maior proporção de óbitos no grupo idoso (16,3%) quando comparado ao adulto (5,9%). Entre solteiras, a mortalidade foi mais elevada entre adultas (14,4%). As diferenças também foram estatisticamente significativas (p<0,001).

Tabela 2. Perfil dos óbitos por NMM em mulheres segundo faixa etária e fatores sociodemográficos associados, Piauí, 2010 e 2023.

Variáveis

Adultas

Idosas

 

n

%

n

%

p-valor

Total

1300

49,7

1158

44,2

Raça/Cor de pele

0,001

Brancas

309

11,8

349

13,3

Preta/Pardas

986

37,7

800

30,6

Outras

5

0,2

9

0,3

Escolaridade

<0,001

Nenhuma

140

5,3

343

13,1

1 a 8 anos

498

19,0

441

16,9

8 e mais

490

18,7

251

9,6

Estado Civil

<0,001

Solteiras

378

14,4

232

8,9

Viúvas/Separadas

665

25,4

448

17,1

Em união  

155

5,9

427

16,3

 

Fonte: elaborado pelos autores. Dados: SIM - DATASUS/Tabnet, 2025.

A distribuição espacial da frequência de óbitos por NMM no estado do Piauí, conforme a Figura 1, revela uma forte concentração dos casos em municípios-polo com maior infraestrutura de saúde, destacando-se Teresina com 1.039 óbitos, seguida por Parnaíba (133), Picos (68), Campo Maior (60), Floriano (57) e Piripiri (47). Em contraste, diversos municípios apresentaram números muito baixos ou ausência de registros, como Caldeirão Grande do Piauí, Manoel Emídio, Pavussu e Tamboril do Piauí, possivelmente refletindo subnotificação ou carência de serviços especializados.

Figura 1. Distribuição espacial dos casos de óbitos por NMM em mulheres (≥20 anos), Piauí, 2010 e 2023.

Fonte: elaborado pelos autores. Dados: SIM - DATASUS/Tabnet, 2025; IBGE – estimativas populacionais, 2025.

        

4 DISCUSSÕES

Entre os anos de 2010 e 2023, foram registrados 2.617 óbitos por NMM em mulheres ≥ 20 anos, residentes no estado do Piauí. Observou-se valores crescentes nas taxas de mortalidade, apresentando associação de grupos etários com o perfil sociodemográfico. Apresentou maiores proporções em mulheres entre 50 a 59 anos, pardas, sem escolaridade e casadas. A análise entre grupos adultas e idosas, evidenciou proporções estatisticamente significativas com raça/cor de pele e escolaridade e estado civil.

Estudos nacionais (3;10) e internacionais (11;12), corroboram com os achados desta pesquisa, pois evidenciam um aumento ao longo do tempo nos indicadores de mortalidade por neoplasias de mamas em mulheres. Entretanto no estudo de Pecinato, Jacobo e Silva (13) essa tendencia foi estacionária. Apesar de pequenas reduções pontuais em anos como 2014, 2018, 2020 e 2022, os dados sugerem uma elevação consistente na mortalidade, o que pode estar relacionado a fatores como envelhecimento populacional, aumento da incidência, dificuldades no acesso ao diagnóstico precoce e tratamento oportuno, além de possíveis falhas nos programas de rastreamento. Esses dados reforçam a necessidade de estratégias mais eficazes de prevenção, detecção precoce e cuidado integral às mulheres, especialmente nas regiões com maiores taxas.

Os achados, revelaram que nos municípios onde concentram os principais serviços de diagnóstico e tratamento oncológico, o que pode indicar tanto maior detecção da doença quanto o registro de óbitos de pacientes oriundos de outras localidades (14).

                 Assim, esses achados evidenciam que municípios centrais e com maior segregação socioeconômica tendem a apresentar maiores taxas de mortalidade por câncer de mama, e políticas assistenciais e de acesso aos serviços de saúde são necessidade de territórios mais vulneráveis a problemática (15).

A faixa etária esteve proporcionalmente relacionada aos números de óbitos, assim como nos estudos de Silva et al. (2021) que entre 1990 e 2011, mulheres de todas as faixas etárias (20–39; 40–49; 50–69; ≥ 70) apresentaram aumento da mortalidade, com crescimento mais acentuado no grupo de 50–69 anos e Oliveira, et al.(16) sobre sobrevivência global por câncer de mama. Entretando no estudo de Pecinato, Jacobo e Silva (13) houve uma tendência declinante nessas faixas etárias. Esses dados reforçam que, embora o câncer de mama possa acometer mulheres em diferentes fases da vida, ele afeta de forma mais significativa aquelas em idade produtiva avançada e idosa, evidenciando a importância de estratégias de rastreamento e diagnóstico precoce a partir dos 40 anos, conforme preconizado nas diretrizes de saúde pública.

Em relação a questões étnicos raciais estudos apontou uma forte relação com seguintes questões: aumento nas taxas ao longo do tempo (17) e risco de morte aumentado para mulheres negras em relação a brancas (10). Essa predominância entre mulheres pardas reflete, em parte, o perfil demográfico da população piauiense, mas também pode estar relacionada a desigualdades no acesso aos serviços de saúde, diagnóstico e tratamento oportuno. A variável cor/raça, portanto, constitui um importante marcador social e deve ser considerada na formulação de políticas públicas voltadas à equidade no enfrentamento do câncer de mama.

A escolaridade, neste estudo, foi inversamente proporcional ao número a mortalidade por NMM no estudo. Contudo, em um estudo realizado no sul do Brasil, a mortalidade por câncer de mama foi consistentemente mais alta entre mulheres com ≤ 7 anos de estudo, apresentando quase oito vezes mais óbitos do que aquelas com ≥ 8 anos (13). A escolaridade, portanto, se mostra como um determinante social da saúde e deve ser considerada na formulação de políticas públicas que visem à equidade no enfrentamento do câncer de mama e níveis educacionais mais baixos, o que pode refletir desigualdades no acesso à informação, à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.

O estado civil mostrou-se variável epidemiológica significativa associada à mortalidade e sobrevida por câncer de mama em estudos anteriores (16). Neste estudo, entretanto, a predominância de óbitos foi entre mulheres casadas, isso pode estar associada ao grupo etário ou a questões relacionadas ao cuidado em saúde. Esses dados reforçam a importância de considerar o estado civil como uma variável social relevante na análise dos determinantes da mortalidade por câncer de mama.

O uso de dados secundários, embora amplamente adotado por sua acessibilidade e abrangência, apresenta limitações importantes, especialmente no que se refere à qualidade e à completude das informações. Estudos apontam que sistemas como o SIM estão sujeitos à subnotificação e inconsistências nos registros, o que pode comprometer a precisão dos resultados (18; 19).

No contexto do Piauí, essas limitações são agravadas por desigualdades regionais no acesso aos serviços de saúde, especialmente refletidas pelos indicadores socioeconômicos em saúde (20). A covid19 intensificou esses problemas: houve queda significativa na realização de exames e consultas durante a pandemia, reforçando as barreiras ao diagnóstico precoce de doenças como o câncer de mama (20). Tais fatores estruturais ampliam o risco de subnotificação de casos e resultados piores de saúde. Uma outra limitação está relacionada ao desenho do estudo, pois, como os dados analisados são agregados por populações, todas as inferências feitas são para o nível ecológico, não havendo inferência direta para o nível individual, sob pena de incorrer na falácia ecológica (14).

Por fim, o uso exclusivo de dados do SIM pode envolver sub-registro, erros de classificação da causa básica e incompletude de variáveis sociodemográficas, limitando a precisão das análises e impedindo inferências causais (21). Ainda assim, o sistema é uma fonte essencial para o monitoramento da mortalidade no Brasil. Assim, buscou-se filtrar e organizar os dados para analises mais robustas e precisas.

5 CONCLUSÃO

        O presente estudo permitiu identificar importantes desigualdades na mortalidade por neoplasia maligna de mama no estado do Piauí, entre os anos de 2010 e 2023. Observou-se uma tendência crescente nas taxas de mortalidade ao longo do período, com picos em 2017 e 2021. A distribuição espacial revelou maior concentração dos óbitos nos municípios polos, especialmente Teresina, Parnaíba e Picos, evidenciando desigualdades no acesso ao diagnóstico e tratamento. O perfil das mulheres que foram a óbito apontou predominância da faixa etária entre 50 e 64 anos, de cor parda, com baixa escolaridade e em sua maioria casadas.

        Esses achados reforçam a importância de políticas públicas de rastreamento precoce e acesso equitativo aos serviços de saúde, especialmente em regiões mais vulneráveis. O conhecimento do perfil epidemiológico e da distribuição espaço-temporal da mortalidade por NMM é fundamental para o planejamento de ações mais efetivas de controle do câncer de mama no estado.

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