READAPTAÇÃO FUNCIONAL E SOFRIMENTO PSÍQUICO NA ENFERMAGEM: ANÁLISE CRÍTICA SOBRE A GESTÃO DO TRABALHO

FUNCTIONAL READAPTATION AND PSYCHOLOGICAL DISTRESS IN NURSING: A CRITICAL ANALYSIS OF WORK MANAGEMENT

READAPTACIÓN FUNCIONAL Y MALESTAR PSICOLÓGICO EN ENFERMERÍA: UN ANÁLISIS CRÍTICO DE LA GESTIÓN DEL TRABAJO

Tipo de artigo: Relato de experiência

Raquel dos Santos Rosa Peixoto

Enfermeira, Mestra em Enfermagem pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Orcid: https://orcid.org/0000-0002-6885-6927

RESUMO

Objetivo: Analisar as repercussões da readaptação funcional informal e do desvio de função na saúde mental de uma enfermeira do setor público. Método: Relato de experiência descritivo-reflexivo, fundamentado na vivência profissional em uma instituição pública de saúde. A análise foi realizada mediante a articulação da prática institucional com a literatura sobre saúde do trabalhador, enfermagem, gestão do trabalho e as diretrizes da Organização Mundial da Saúde. Resultados: A ausência de formalização pericial e de planejamento organizacional converteu a readaptação em um isolamento funcional. O ambiente administrativo, desprovido de suporte e com ambiguidade de papéis, atuou como novo estressor, intensificando o sofrimento ético-político e a desvalorização profissional. Conclusão: A readaptação, quando reduzida a um manejo administrativo sem amparo técnico, falha em seu caráter protetivo e agrava o adoecimento mental. Evidencia-se a necessidade de modelos de gestão que promovam ambientes laborais compatíveis com as condições dos profissionais de enfermagem.

DESCRITORES: Enfermagem; Saúde Mental; Saúde do Trabalhador; Condições de Trabalho; Gestão em Saúde.

INTRODUÇÃO

A readaptação funcional de trabalhadores da saúde constitui um importante dispositivo de proteção à saúde do trabalhador, especialmente diante de processos de adoecimento relacionados ao trabalho. No âmbito da enfermagem, profissão marcada por elevada carga física, emocional e organizacional, a readaptação deveria possibilitar a permanência do profissional no serviço sem prejuízo à sua saúde e à qualidade da assistência (1,2).

Entretanto, na prática institucional, observa-se que a readaptação funcional nem sempre se concretiza de forma coerente com seus pressupostos éticos e legais, sendo comum a manutenção do trabalhador em situações de desvio de função, ainda que formalmente readaptado. Tal contradição revela fragilidades na gestão do trabalho em saúde e pode intensificar o sofrimento físico e psíquico do profissional (1,2,3).

No contexto do serviço público de saúde, essas situações assumem maior complexidade, uma vez que se entrelaçam com questões administrativas, carência de recursos humanos e interpretações restritivas da legislação trabalhista. Para a enfermagem, tais práticas repercutem não apenas na saúde do trabalhador, mas também na organização do trabalho e na qualidade do cuidado prestado (1,3,4).

Desse modo, o presente artigo tem como objetivo relatar a experiência de uma enfermeira readaptada que permaneceu em desvio de função em um serviço público de saúde por três anos, analisando as implicações dessa vivência para a saúde do trabalhador, a ética profissional e a gestão do trabalho em enfermagem.

MÉTODO

Trata-se de um estudo do tipo relato de experiência, de abordagem descritiva e reflexiva, fundamentado na vivência profissional de uma enfermeira atuante no serviço público de saúde. A experiência relatada ocorreu em uma instituição pública, no período de 2022-2025, envolvendo o processo de readaptação funcional e a permanência em atividades caracterizadas como desvio de função.

A construção do relato foi baseada na sistematização das experiências vivenciadas no cotidiano de trabalho, organizadas de forma crítica e analítica, à luz da literatura científica relacionada à saúde do trabalhador, à enfermagem e à gestão do trabalho em saúde. Não foram utilizados dados de prontuários, documentos institucionais identificáveis ou informações que possibilitassem a identificação de pessoas ou da instituição.

Foram respeitados os princípios éticos que regem a produção científica, com a preservação do anonimato da profissional e da instituição envolvida, conforme a Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012. Por se tratar de um relato de experiência, o estudo não foi submetido à apreciação de Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS (RELATO DE EXPERIÊNCIA)

A experiência ocorreu em uma instituição pública de saúde, em um setor de caráter administrativo, para o qual a enfermeira foi encaminhada após adoecimento relacionado ao trabalho. A mudança de setor foi apresentada como estratégia de readaptação funcional, porém não foi formalizada por meio de laudo médico-pericial específico.

A condução desse processo revelou falhas administrativas importantes. A inserção da profissional no novo setor ocorreu sem planejamento prévio, sem definição clara das atividades compatíveis com sua condição de saúde e sem acompanhamento sistemático por parte da gestão. A ausência de formalização técnico-legal fragilizou o reconhecimento institucional da readaptação e abriu espaço para interpretações subjetivas sobre sua capacidade laboral.

Nesse contexto, a readaptação assumiu caráter informal e predominantemente administrativo. Mesmo alocada em setor administrativo, a enfermeira passou a desempenhar atividades que extrapolavam o escopo previsto para a readaptação, configurando desvio de função. Essas demandas eram frequentemente justificadas pela necessidade institucional e pela escassez de recursos humanos.

A permanência nesse cenário de incerteza e sobrecarga gerou graves repercussões psíquicas, manifestadas por sentimento de insegurança, impotência e sofrimento ético-moral. A ausência de espaços de escuta e mediação contribuiu para a intensificação do sofrimento, evidenciando que a condução inadequada da readaptação funcional pode agravar o adoecimento mental, em vez de promover proteção e reabilitação no trabalho.

DISCUSSÃO

A experiência relatada evidencia que a readaptação funcional, embora concebida como estratégia de proteção à saúde do trabalhador, assumiu caráter predominantemente administrativo, limitando sua efetividade na reabilitação e na prevenção do adoecimento mental. Estudos apontam que, quando dissociada de avaliações técnicas qualificadas e de uma gestão sensível às condições psíquicas do profissional, essa medida tende a perder seu caráter protetivo (1,2).

O ambiente de trabalho ao qual a enfermeira foi designada mostrou-se incompatível com sua condição psíquica, intensificando o sofrimento mental. A literatura evidencia que contextos laborais marcados por exigências excessivas, ambiguidade de papéis e fragilidade na proteção institucional elevam significativamente o risco de adoecimento mental entre trabalhadores da saúde, com impacto expressivo na enfermagem (1,2,4,5).

A ausência de formalização pericial no processo de readaptação fragilizou a delimitação das atividades e comprometeu a articulação entre gestão e medicina do trabalho. Diretrizes internacionais reforçam o papel central da medicina do trabalho na mediação entre condições de saúde, organização do trabalho e proteção do trabalhador, aspecto ausente na experiência analisada (5,6).  

Todavia, a manutenção da profissional em desvio de função por três anos evidencia uma lacuna crítica na gestão, compreendida pela incapacidade de implementar acomodações razoáveis. Segundo as diretrizes internacionais, o retorno ao trabalho deve ser acompanhado de modificações nas tarefas e no suporte de supervisão. A ausência de treinamento dos gestores para lidar com a saúde mental, resulta em condutas negligentes que individualizam o problema, tratando o adoecimento como uma incapacidade absoluta em vez de uma condição manejável mediante ajustes no ambiente laboral (5,6).

Nesse contexto, o desvio de função emerge como consequência da fragilidade institucional, frequentemente naturalizado sob o discurso da escassez de recursos humanos e da manutenção da produtividade. Estudos contemporâneos associam essa lógica organizacional à intensificação do sofrimento mental no setor público de saúde (3,7,8,9).

Dessa forma, o relato demonstra que a promoção da saúde mental do trabalhador exige mais do que a realocação funcional, demandando políticas institucionais atualizadas, articulação efetiva com a medicina do trabalho e estratégias alinhadas às recomendações internacionais sobre saúde mental no trabalho (1,5,7).  

As implicações para a enfermagem extrapolam o caso individual. Trata-se de uma categoria historicamente exposta a elevadas cargas de trabalho, exigências emocionais intensas e modelos de gestão que frequentemente priorizam a continuidade do serviço em detrimento da saúde do trabalhador. Processos de readaptação fragilizados tendem, nesse cenário, a reproduzir e aprofundar vulnerabilidades já presentes no cotidiano laboral (1,2).  

A ausência de protocolos claros e de acompanhamento sistemático pela medicina do trabalho compromete a saúde mental do profissional readaptado, a qualidade do trabalho e a segurança dos processos assistenciais e administrativos. Evidências indicam associação entre adoecimento mental na enfermagem, aumento do absenteísmo, rotatividade e afastamentos prolongados, com impactos diretos sobre equipes e serviços de saúde (1,2,7).  

Assim, o fortalecimento de políticas institucionais de readaptação funcional, a qualificação da atuação da medicina do trabalho e a participação ativa da enfermagem nos espaços de gestão configuram estratégias centrais para a promoção da saúde mental da categoria, reconhecendo o trabalhador como sujeito de direitos e não apenas como força produtiva (1,5,7,10).

CONCLUSÃO

Este relato de experiência evidenciou que a readaptação funcional, quando conduzida de modo informal, sem respaldo pericial e dissociada de políticas institucionais efetivas de saúde do trabalhador, pode deixar de cumprir sua função protetiva e contribuir para o agravamento do adoecimento mental. A experiência analisada demonstra que a simples realocação do trabalhador, especialmente em ambientes administrativos ou técnicos inadequados, não garante reabilitação nem preservação da saúde mental.

O adoecimento mental observado não se configura como fragilidade individual, mas como expressão de processos organizacionais marcados por fragilidades na gestão do trabalho, na atuação da medicina do trabalho e na priorização da continuidade do serviço em detrimento da saúde do trabalhador. Essa lógica institucional tende a naturalizar o sofrimento, invisibilizar os impactos psíquicos do trabalho e transferir para o indivíduo a responsabilidade por condições que são estruturalmente produzidas.

Para a enfermagem, os achados reforçam a necessidade de fortalecimento de políticas de readaptação funcional baseadas em avaliações técnicas qualificadas, acompanhamento sistemático e ambientes laborais compatíveis com as condições de saúde dos profissionais. Destaca-se ainda a importância da participação ativa da enfermagem nos espaços de gestão e decisão, de modo a tensionar práticas que reproduzem adoecimento e a contribuir para a construção de ambientes de trabalho mais éticos, saudáveis e sustentáveis.

Por fim, este relato busca contribuir para o debate sobre saúde mental e trabalho na enfermagem ao evidenciar que a proteção ao trabalhador deve ocupar posição central nas políticas institucionais. Reconhecer o sofrimento mental como questão coletiva e organizacional é fundamental para a promoção de condições de trabalho dignas, para a valorização da enfermagem e para a efetivação do cuidado também dirigido àqueles que cuidam.

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