QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO DE PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM EM UTI DE HOSPITAL DE ENSINO
QUALITY OF LIFE AT WORK FOR NURSING PROFESSIONALS IN THE ICU OF A TEACHING HOSPITAL
CALIDAD DE VIDA EN EL TRABAJO DE LOS PROFESIONALES DE ENFERMERÍA EN LA UNIDAD DE CUIDADOS INTENSIVOS DE UN HOSPITAL UNIVERSITARIO
Francisco Willian Melo de Sousa[1]
Mestrando em Saúde da Família pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em associação com a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
Francisco Marcelo Leandro Cavalcante
Doutorando em Enfermagem pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB).
Hiara Rose Moreno Amaral
Mestranda em Saúde da Família pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em associação com a Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
Francisco Rosemiro Guimarães Ximenes Neto
Pós-Doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).
Anny Caroline dos Santos Olímpio
Doutoranda em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Raila Souto Pinto Menezes
Doutoranda em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Tiago Sousa de Melo
Doutor em Biotecnologia em Saúde pela Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO).
RESUMO
Objetivo: Avaliar a Qualidade de Vida no Trabalho dos profissionais de enfermagem que atuavam em uma unidade de terapia intensiva de um hospital de ensino. Método: Estudo descritivo, realizado com 52 profissionais de Enfermagem que atuavam no setor de Terapia Intensiva Adulto. Utilizou-se para coleta de dados o instrumento QWLQ-bref. Resultados: O índice de qualidade de vida no trabalho, obtido entre os profissionais de enfermagem foi de 62,6%, sendo classificado como satisfatório pela escala QWLQ-bref. Em relação aos domínios, observou-se menor satisfação no domínio físico/saúde (52,3%) e maior satisfação no domínio pessoal (70,7%). No domínio físico, houve maior insatisfação em relação ao prejuízo do sono no trabalho (2,11), seguida da satisfação intermediária a respeito da avaliação do sono (3,25). Conclusão: Os achados oferecem subsídios relevantes para a gestão dos serviços de saúde, ao sinalizar a necessidade de intervenções institucionais voltadas à organização do processo de trabalho.
DESCRITORES: Qualidade de vida no trabalho; Profissionais de enfermagem; Unidade de terapia intensiva.
INTRODUÇÃO
A qualidade de vida dos profissionais de enfermagem que atuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) é determinada por um conjunto de fatores inter-relacionados, que abrangem desde as condições e a organização do ambiente de trabalho até aspectos subjetivos, como resiliência, satisfação profissional e cultura organizacional. A compreensão integrada desses elementos é fundamental para a promoção do bem-estar dos trabalhadores e para a melhoria dos resultados assistenciais em contextos de alta complexidade. Evidências indicam que ambientes laborais favoráveis, caracterizados por suporte institucional, recursos adequados e relações colaborativas, associam-se a menores níveis de esgotamento e maior satisfação com a compaixão entre profissionais de enfermagem em UTI.(1)
No campo da saúde, os trabalhadores estão expostos a múltiplos riscos relacionados ao trabalho (físicos, químicos, biológicos, psicológicos e organizacionais), que exigem a adoção de estratégias voltadas à prevenção de acidentes e ao enfrentamento do adoecimento relacionado ao trabalho. No caso da enfermagem hospitalar, especialmente em UTI, essa exposição é potencializada pela atuação em turnos alternados, jornadas prolongadas, sobrecarga assistencial e baixos salários, configurando um cenário propício ao desgaste físico e mental.(2)
Quando as condições do ambiente de trabalho são inadequadas, seja do ponto de vista estrutural, organizacional, do dimensionamento de pessoal ou da disponibilidade e qualidade de materiais, ampliam-se os riscos à saúde e as repercussões negativas na vida dos trabalhadores.(3)
Nessa perspectiva, a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) emerge como um constructo central para a análise do processo laboral em saúde. O conceito de QVT passou a ser discutido a partir da década de 1950, na Inglaterra, associado à compreensão dos aspectos sociais e técnicos do trabalho, com o objetivo de reduzir o sofrimento dos trabalhadores e promover melhores condições laborais. Além disso, a QVT relaciona-se às influências que as atividades profissionais exercem sobre a vida pessoal, social e emocional dos indivíduos.(4)
No contexto da UTI, a QVT é influenciada por diferentes variáveis, como condições de trabalho, relações interpessoais, satisfação com a remuneração, reconhecimento e valorização profissional. Esses fatores impactam diretamente o comprometimento com o trabalho, a produtividade e a motivação, assim como aspectos externos ao ambiente laboral, incluindo saúde, lazer, estado emocional e vida pessoal.(5) Quando tais elementos se mostram insuficientes, repercutem no adoecimento profissional e na qualidade da assistência prestada à clientela.(6)
Diante desse contexto, fatores organizacionais e laborais específicos, como a dinâmica dos setores, o título profissional e a frequência de turnos noturnos, exercem influência significativa sobre a qualidade de vida no trabalho, com repercussões diretas na saúde física e mental dos profissionais.(7) A resiliência destaca-se como um importante recurso psicossocial, capaz de atenuar os efeitos do estresse ocupacional, reduzir o esgotamento e aumentar a satisfação com a compaixão, explicando parcela significativa da variabilidade desses desfechos. De modo complementar, maiores níveis de satisfação no trabalho associam-se a melhor qualidade de vida profissional, reforçando a relevância do reconhecimento, da autonomia e do sentido atribuído ao cuidar.(8)
Ante o exposto, a avaliação da QVT dos profissionais de enfermagem configura-se como uma ferramenta estratégica para a gestão em saúde, ao subsidiar a elaboração de intervenções voltadas à melhoria das condições laborais, ao fortalecimento da satisfação e da motivação profissional e à qualificação da assistência. Assim, o objetivo deste estudo é avaliar a qualidade de vida no trabalho dos profissionais de enfermagem que atuavam em uma unidade de terapia intensiva de um hospital de ensino.
Trata-se de um estudo transversal, sob abordagem quantitativa, desenvolvido em uma UTI adulto de um hospital de ensino, localizado na região Noroeste do estado do Ceará. Ressalta-se que esta investigação constitui um recorte de uma pesquisa mais ampla, intitulada “Condições de trabalho e qualidade de vida dos profissionais de Enfermagem atuantes em Unidade de Terapia Intensiva”, da qual foram extraídos os dados analisados neste estudo.
A população do estudo foi composta por 96 profissionais da enfermagem, assim estratificado por categoria profissional: 18 enfermeiros e 78 técnicos de enfermagem. No entanto, apenas 52 responderam ao questionário, sendo 11 enfermeiros e 41 técnicos de enfermagem. Neste estudo, foram considerados como critérios de inclusão os seguintes: ser profissional de enfermagem e o tempo na instituição igual ou superior a seis meses. Em relação aos critérios de exclusão: profissionais que atuavam somente na função administrativa.
Os dados foram coletados a partir do instrumento QWLQ-bref, versão adaptada do Quality of Working Life Questionnaire -78 (QWLQ-78). O referido recurso é constituído de 20 questões, subdividido em quatro domínios, sendo três questões de domínio psicológico, quatro de domínio físico/saúde, quatro de domínio pessoal e nove de domínio profissional. As respostas do instrumento seguem a escala tipo likert com a classificação: 1 - nada, 2 - muito pouco, 3 - mais ou menos, 4 - bastante, 5 - extremamente. Por sua vez, A escala global de avaliação possui variação de pontuação de 0 a 100, sendo os domínios classificados da seguinte forma: muito insatisfatório (0 a 22,5), insatisfatório (22,5 a 45), neutro (45 a 55), satisfatório (55 a 77,5), muito satisfatório (77,5 a 100).(9,10)
O questionário assim como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi aplicado por meio da plataforma Google Forms®. Antes da aplicação do instrumento, os pesquisadores realizaram visitas nas UTI, ocasião na qual foi apresentada a proposta de pesquisa aos coordenadores de enfermagem do serviço, bem como realizado o teste- piloto, por meio da amostragem não probabilística, realizado com três enfermeiros e cinco técnicos de enfermagem, esses escolhidos aleatoriamente pelo pesquisador, com objetivo de identificar possíveis inadequações e realizar ajustes no instrumento de coleta.
A coleta de dados ocorreu entre os meses de junho a agosto de 2024. Os dados foram tabulados e sistematizados em planilhas do programa Microsoft Excel® 2013, e analisados com base na escala tipo likert, bem como mediante a estatística descritiva. Além disso, adotou-se o escore de avaliação do QWLQ-bref (Cheremeta et al., 2011).
O estudo atendeu as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, conforme a Resolução Nº 466/2012.(11) Além disso, o projeto foi submetido ao Comitê de Pesquisa em Saúde do Centro Universitário Inta (UNINTA) e aprovado sob o Parecer Nº 6.873.572 (CAAE: 80135824.1.0000.8133).
Quanto ao perfil sociodemográfico dos profissionais de enfermagem evidenciou-se que era constituído em sua maioria de mulheres jovens, pardas e solteiras.
O índice de qualidade de vida no trabalho, obtido entre os profissionais de enfermagem foi de 62,6%, sendo classificado como satisfatório pela escala QWLQ-bref, conforme ilustrado na Figura 1. Em relação aos domínios, a maioria foi classificado como satisfatório, exceto o físico. Diante disso, observou-se menor satisfação no domínio físico/saúde (52,3%) e maior satisfação no domínio pessoal (70,7%).
Figura 1. Resultados da Qualidade de Vida no Trabalho.
A Figura 1 evidencia que a QVT dos profissionais de enfermagem da UTI apresentou índice global satisfatório (62,6%), segundo os parâmetros do QWLQ-bref, indicando uma avaliação global positiva do contexto laboral, ainda que permeada por tensões próprias do trabalho intensivo. Entre os domínios avaliados, observa-se maior satisfação no domínio pessoal (70,7%), seguido pelos domínios psicológico (65,6%) e profissional (61,7%), sugerindo que aspectos relacionados à realização pessoal, relações interpessoais, identidade profissional e sentido atribuído ao trabalho funcionam como importantes fatores de proteção frente às adversidades do ambiente da UTI. Em contraste, o domínio físico/saúde apresentou o menor escore (52,3%), situando-se na faixa limítrofe entre neutro e satisfatório, o que sinaliza uma zona crítica de vulnerabilidade.
A Tabela 1 apresenta os dados estatísticos descritivos dos domínios da QVT dos profissionais de enfermagem, expressos por meio das medidas de tendência central, dispersão e amplitude. A análise desses indicadores permite compreender o comportamento dos escores médios em cada domínio avaliado pelo instrumento QWLQ-bref, bem como a variabilidade das respostas, possibilitando a identificação de áreas com maior e menor estabilidade na percepção dos profissionais acerca de sua qualidade de vida no trabalho.
Tabela 1. Dados descritivos dos domínios de qualidade de vida.
Domínio | Média | DP | Cof Var | Mín | Máx | Amp |
Físico | 3,093 | 0,577 | 18,658 | 2,110 | 3,530 | 1,420 |
Psicológico | 3,627 | 0,429 | 11,833 | 3,190 | 4,210 | 1,020 |
Pessoa | 3,823 | 0,410 | 10,727 | 3,400 | 4,380 | 0,980 |
Profissional | 3,463 | 0,214 | 6,184 | 3,050 | 3,780 | 0,730 |
QVT | 3,501 | 0,226 | 6,459 | 2,110 | 4,380 | 2,270 |
A Tabela 1 evidencia diferenças relevantes entre os domínios da QVT, tanto em termos de nível médio de satisfação quanto de variabilidade das respostas, permitindo identificar áreas de maior estabilidade e de maior vulnerabilidade entre os profissionais de enfermagem da UTI.
Observa-se que o domínio pessoal apresentou a maior média (3,823), associado a baixa dispersão (DP = 0,410; coeficiente de variação = 10,7%) e menor amplitude (0,98), indicando percepção mais homogênea e consistente de satisfação relacionada a aspectos como realização pessoal, relações interpessoais e reconhecimento social e familiar. Em seguida, destacam-se os domínios psicológico (média = 3,627) e profissional (média = 3,463), ambos com coeficientes de variação relativamente baixos, especialmente o domínio profissional (6,18%), o que sugere maior consenso entre os participantes quanto a esses aspectos da QVT.
Em contraste, o domínio físico apresentou a menor média (3,093), além da maior variabilidade relativa (coeficiente de variação = 18,7%) e amplitude elevada (1,42), evidenciando maior heterogeneidade nas percepções e sinalizando uma área crítica da qualidade de vida no trabalho. Esse resultado indica que as condições físicas e de saúde - como sono, fadiga e conforto no ambiente laboral - constituem o principal eixo de fragilidade da QVT nesse contexto. O índice global de QVT (média = 3,501) apresentou baixa variabilidade (CV = 6,45%), reforçando uma avaliação geral relativamente estável e satisfatória, porém sustentada de forma desigual entre os domínios, com maior comprometimento no componente físico.
A Tabela 2 apresenta as pontuações médias das questões que compõem os domínios da QVT dos profissionais de enfermagem, permitindo uma análise mais detalhada dos aspectos específicos que influenciam a percepção dos trabalhadores. A avaliação item a item possibilita identificar dimensões mais sensíveis do cotidiano laboral, bem como aquelas associadas a maiores níveis de satisfação, contribuindo para a compreensão dos fatores que sustentam ou fragilizam a QVT no contexto de elevada complexidade assistencial da UTI.
Tabela 2. Pontuações médias das questões dos domínios de qualidade de vida.
Domínios | Questões | Médias |
Físico | 1 - Em que medida você avalia o seu sono? | 3,25 |
2 - Em que medida algum problema com o sono prejudica seu trabalho? | 2,11 | |
3 - Suas necessidades fisiológicas básicas são satisfeitas adequadamente? | 3,48 | |
4 - Em que medida você se sente confortável no ambiente de trabalho? | 3,53 | |
Psicológico | 5 - Em que medida você avalia sua motivação para trabalhar? | 3,48 |
6 - Como você avalia sua liberdade de expressão no seu trabalho? | 3,19 | |
7 - Em que medida você avalia o orgulho pela sua profissão? | 4,21 | |
Pessoal | 8 - Você se sente realizado com o trabalho que faz? | 4,05 |
9 - Como você avalia a qualidade da sua relação com seus superiores e/ou subordinados? | 3,40 | |
10 - Em que medida sua família avalia o seu trabalho? | 4,38 | |
11 - Em que medida você é respeitado pelos seus colegas e superiores? | 3,46 | |
12 - Como você avalia a sua liberdade para criar coisas novas no trabalho? | 3,52 | |
13 - Como você avalia a igualdade de tratamento entre os funcionários? | 3,25 | |
14 - Em que medida você possui orgulho da organização na qual trabalha? | 3,67 | |
15 - Em que medida você está satisfeito com o seu nível de participação nas decisões da empresa? | 3,05 | |
16 - Você está satisfeito com o seu nível de responsabilidade no trabalho? | 3,55 | |
17 - Você se sente satisfeito com os treinamentos dados pela organização? | 3,59 | |
18 - Você se sente satisfeito com a variedade das tarefas que realiza? | 3,3 | |
19 - Como você avalia o espírito de camaradagem no seu trabalho? | 3,78 | |
20 - O quanto você está satisfeito com a sua qualidade de vida no trabalho? | 3,46 |
A Tabela 2 revela evidências importantes sobre os aspectos específicos que sustentam ou fragilizam a QVT dos profissionais de enfermagem da UTI, ao detalhar as pontuações médias de cada item dos domínios avaliados pelo QWLQ-bref.
No domínio físico, destaca-se de forma consistente o sono como principal fator crítico, uma vez que a questão “em que medida algum problema com o sono prejudica seu trabalho?” apresentou a menor média entre todas as questões (2,11), indicando insatisfação relevante. A avaliação do próprio sono obteve média intermediária (3,25), sugerindo percepção ambígua entre reconhecimento do problema e adaptação às condições impostas pelo trabalho intensivo. Em contrapartida, aspectos como conforto no ambiente de trabalho (3,53) e satisfação das necessidades fisiológicas básicas (3,48) apresentaram escores mais favoráveis, indicando que a fragilidade do domínio físico concentra-se especialmente nas repercussões do sono sobre o desempenho laboral.
Nos domínios psicológico e pessoal, observam-se escores elevados em itens relacionados ao sentido e à valorização do trabalho, com destaque para o orgulho pela profissão (4,21), a realização com o trabalho exercido (4,05) e a avaliação positiva da família sobre o trabalho (4,38), que configuram importantes fatores protetivos da QVT. Entretanto, itens associados à participação nas decisões organizacionais (3,05), à liberdade de expressão (3,19) e à igualdade de tratamento entre os funcionários (3,25) apresentaram médias mais baixas, apontando fragilidades na dimensão participativa e democrática do trabalho. De modo geral, os resultados indicam que a QVT dos profissionais é sustentada sobretudo por elementos subjetivos, identitários e relacionais, enquanto fatores organizacionais e físicos, especialmente o sono, permanecem como os principais focos de vulnerabilidade no contexto da UTI.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo permitem uma reflexão sobre a QVT dos profissionais de enfermagem atuantes em UTI, evidenciando a coexistência de elementos protetivos e fatores de vulnerabilidade no contexto laboral pós-pandemia de covid-19. A análise integrada do índice global de QVT, dos domínios avaliados e das pontuações específicas dos itens revela que, embora a QVT tenha sido classificada como satisfatória, persistem fragilidades estruturais, organizacionais e relacionadas à saúde física, especialmente no que concerne ao sono e à sobrecarga laboral. A discussão desses achados, à luz da literatura nacional e internacional, possibilita compreender como as condições de trabalho, a organização do processo assistencial e os aspectos subjetivos e relacionais influenciam a experiência laboral da enfermagem em ambientes de alta complexidade, como a UTI, e aponta implicações relevantes para a gestão, a saúde do trabalhador e a qualidade do cuidado.
Nesse contexto, a avaliação da QVT dos profissionais de enfermagem que atuam no setor de Terapia Intensiva Adulto revela uma complexa interação entre fatores estressores e recursos disponíveis. Nessa direção, a qualidade de vida desses profissionais é frequentemente impactada por fatores como ambiente de trabalho, carga horária, reconhecimento profissional, colaboração interdisciplinar e prevalência de burnout.(12)
Os achados do presente estudo indicaram que, na maioria dos domínios avaliados, a QVT foi considerada satisfatória, assim como o índice geral. Esse resultados corroboram com pesquisa desenvolvida com equipes de enfermagem que atuavam no setor de Terapia Intensiva de um hospital público, localizado em Manaus (AM), a qual evidenciou nivéis satisifatórios de QVT entre os profissionais.(13)
Em contrapartida, um estudo desenvolvido no setor de terapia intensiva de um hospital público de Mérida, na Venezuela, identificou uma qualidade de vida regular dos enfermeiros. Além disso, constatou-se que esse nível de qualidade está associado com a síndrome de burnout em estágio grave.(14) Outra pesquisa realizada com enfermeiros que trabalhavam num hospital em Lisboa, no contexto da pandemia de Covid-19, evidenciou insatisfação dos profissionais em relação ao cansaço físico e emocional, aos distúrbios do sono e a fragilidades de educação permanente em serviço.(15)
O ambiente de trabalho tem efeito significativo no bem-estar físico e emocional do profissional. Nessa concepção, o local de trabalho pode desempenhar um papel na promoção de uma força de trabalho de enfermagem saudável, mediante a garantia da participação da equipe de enfermagem na tomada de decisões, na disponibilidade de recurso pessoal e material adequados e encorajamento do trabalho colaborativo.(16) Assim, o ambiente de trabalho é um fator determinante: ambientes colaborativos, com liderança autêntica, tomada de decisão efetiva e reconhecimento significativo, estão associados a maior satisfação e menor burnout.(17,18)
A pandemia por Covid-19, considerada uma crise global de saúde, repercutiu significativamente na qualidade de vida dos profissionais da saúde, principalmente os da equipe de enfermagem.(16) Transtornos mentais como a ansiedade, depressão, estresse, burnout, tornaram-se frequentes entre os profissionais, e o aumento desses casos se deu, principalmente, em decorrência dos efeitos do cenário pandêmico. Diante disso, a qualidade de vida dos profissionais de enfermagem na UTI mostrou-se insatisfatória, com repercussões diretas na qualidade de vida emocional e profissional.(19)
Ao estratificar o índice geral da QVT por domínios, observou-se maior satisfação dos participantes no domínio pessoal. Esse domínio refere-se aos “aspectos familiares, crenças pessoais e religiosas e aspectos culturais que influenciem o trabalho dos colaboradores”.(9) Resultado semelhante foi identificado em estudo realizado com funcionários de um Hospital Filantrópico, incluindo os profissionais de Enfermagem, localizado no Paraná (PR).(20)
Por outro lado, o domínio físico/saúde apresentou o menor escore, caracterizando índice neutro de satisfação. Diante disso, questões relacionadas ao sono foram fatores determinantes para este resultado. Assim, constatou-se que, houve maior insatisfação em relação ao prejuízo do sono no trabalho; seguida da satisfação intermediária a respeito da avaliação do sono.
O sono é uma necessidade básica humana, o qual atua na restauração e regulação do organismo, e influencia na saúde e bem-estar do profissional de enfermagem. Quando essa necessidade é prejudicada, causa implicações importantes à saúde, como fadiga, estresse, alterações do humor, déficit de atenção, por exemplo. Ademais, a longo prazo, desencadeia doenças gastrointestinais e do aparelho circulatório.(21)
Estudos apontam que os profissionais de enfermagem apresentam má qualidade do sono.(22,21) Isso se deve, dentre outros fatores, a sobrecarga de trabalho, ao trabalho no período noturno, demandas cognitivas, os múltiplos vínculos empregatícios.(23) No cenário pandêmico de covid-19, esses prejuízos à qualidade do sono foram intensificados, em decorrência da alta carga de trabalho, principalmente, no cenário da UTI, com o aumento do número de admissões de covid-19 nesse setor.(24) Portanto, a qualidade do sono prejudicada, além das repercussões no bem-estar físico, mental, emocional e social, reflete no aumento de riscos de acidentes de trabalho e fragilidade na qualidade da assistência prestada à clientela.(25)
Diante do contexto de elevada complexidade e exigência assistencial das UTI, a QVT dos profissionais de enfermagem constitui um eixo central para a sustentabilidade do cuidado. Um ambiente de trabalho acolhedor, com condições favoráveis às práticas laborais, relações interpessoais saudáveis, adequada qualidade do sono, valorização profissional e satisfação com o trabalho são aspectos primordiais para a promoção da QVT nesse cenário.(13) Nessa perspectiva, a qualidade de vida no trabalho implica criar, manter e aprimorar o ambiente laboral, tanto em suas condições físicas - como higiene e segurança - quanto em suas dimensões psicológicas e sociais.(9)
Os resultados deste estudo evidenciam que a QVT dos profissionais de enfermagem atuantes em UTI apresentou índice global satisfatório, indicando percepção positiva do contexto laboral no período pós-pandemia de covid-19. Destacaram-se como fatores protetivos os domínios pessoal, psicológico e profissional, especialmente aqueles relacionados à realização com o trabalho, orgulho pela profissão, apoio familiar, espírito de camaradagem e sentido atribuído ao cuidar. Em contrapartida, o domínio físico/saúde configurou-se como o principal eixo de vulnerabilidade, com destaque para o impacto negativo dos distúrbios do sono sobre o desempenho profissional, evidenciando repercussões persistentes da intensificação do trabalho, das jornadas prolongadas e do trabalho noturno no contexto da UTI.
No que se refere às contribuições para a prática, os achados oferecem subsídios relevantes para a gestão dos serviços de saúde, ao sinalizar a necessidade de intervenções institucionais voltadas à organização do processo de trabalho, ao manejo das escalas, à promoção da saúde do trabalhador, com ênfase na qualidade do sono, e ao fortalecimento de estratégias de educação permanente, acolhimento e valorização profissional. Quanto às fragilidades, destacam-se o delineamento transversal, o tamanho amostral reduzido e a realização do estudo em um único hospital de ensino, o que limita a generalização dos resultados. Ainda assim, o estudo contribui de forma significativa para a compreensão da QVT da enfermagem em ambientes de alta complexidade assistencial, reforçando a importância da avaliação contínua das condições de trabalho como instrumento estratégico para a promoção da saúde do trabalhador e a qualificação do cuidado.
REFERÊNCIAS