Socialidade e Cuidado: Diálogos Epistemológicos Entre Michel Maffesoli e as Teóricas de Enfermagem
Sociality and Care: Epistemological Dialogues Between Michel Maffesoli and Nursing
Socialidad y Cuidado: Diálogos Epistemológicos Entre Michel Maffesoli y las Teóricas de Enfermería
Endric Passos Matos
Doutorando em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
https://orcid.org/0000-0003-3807-4702
Lucas Benedito Fogaça Rabito
Doutorando em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professor Assistente do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
https://orcid.org/0000-0001-8651-9193
Rejane Santos Barreto
Doutora em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Professora Assistente do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
https://orcid.org/0000-0002-2973-0272
Simone Santos Souza
Doutoranda em Enfermagem e Saúde pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem e Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professora Assistente do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC).
https://orcid.org/0000-0002-5283-6083
Nathalie Campana de Souza
Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
https://orcid.org/0000-0001-7384-3154
Andressa Kauche Santin
Mestranda em Gestão Tecnológica e Inovação em Urgência e Emergência pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).
https://orcid.org/0009-0005-6038-782X
Lorena Franco Buzzerio
Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
https://orcid.org/0000-0001-9504-7538
Rafaely de Cassia Nogueira Sanches
Doutora em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá (UEM).
https://orcid.org/0000-0002-1686-7595
Autor correspondente
Endric Passos Matos
RESUMO
Objetivo: Refletir sobre a interface entre a Sociologia do Cotidiano de Michel Maffesoli e teorias de enfermagem, destacando aproximações epistemológicas e implicações para o cuidado. Métodos: Estudo teórico-reflexivo, de abordagem qualitativa, fundamentado na análise de obras seminais de Maffesoli e de teóricas da enfermagem. O percurso metodológico envolveu leitura analítica, identificação de conceitos-chave, comparação dialética entre referenciais e construção de matriz de correlação teórica. Por tratar-se de pesquisa exclusivamente bibliográfica, dispensou apreciação por Comitê de Ética. Resultados: Evidenciou-se que a perspectiva maffesoliana amplia a compreensão do cuidado ao valorizar o cotidiano, a subjetividade e as relações afetivas, dialogando com modelos como adaptação, autocuidado, relações interpessoais e necessidades humanas básicas. Considerações finais: A integração desses referenciais fortalece a dimensão humanística da enfermagem, favorecendo práticas mais sensíveis à realidade vivida, superando abordagens estritamente tecnicista e valorizando a potência do cotidiano na saúde.
DESCRITORES: Sociologia; Teorias de Enfermagem; Humanização da Assistência.
ABSTRACT
Objective: To reflect on the interface between Michel Maffesoli's Sociology of the Everyday and nursing theories, highlighting epistemological approximations and implications for care. Methods: Theoretical-reflective study, with a qualitative approach, based on the analysis of seminal works by Maffesoli and nursing theorists. The methodological path involved analytical reading, identification of key concepts, dialectical comparison between references, and construction of a theoretical correlation matrix. As this was an exclusively bibliographic research, it did not require appreciation by an Ethics Committee. Results: It was evidenced that the Maffesolian perspective expands the understanding of care by valuing the everyday, subjectivity, and affective relationships, dialoguing with models such as adaptation, self-care, interpersonal relationships, and basic human needs. Final considerations: The integration of these references strengthens the humanistic dimension of nursing, favoring practices more sensitive to lived reality, overcoming strictly technical approaches, and valuing the power of the everyday in health.
DESCRIPTORS: Sociology; Nursing Theory; Humanization of Assistance.
RESUMEN
Objetivo: Reflexionar sobre la interfaz entre la Sociología de lo Cotidiano de Michel Maffesoli y las teorías de enfermería, destacando aproximaciones epistemológicas e implicaciones para el cuidado. Métodos: Estudio teórico-reflexivo, de abordaje cualitativo, fundamentado en el análisis de obras seminales de Maffesoli y de teóricas de la enfermería. El recorrido metodológico involucró lectura analítica, identificación de conceptos clave, comparación dialéctica entre referenciales y construcción de una matriz de correlación teórica. Por tratarse de una investigación exclusivamente bibliográfica, no requirió la apreciación de un Comité de Ética. Resultados: Se evidenció que la perspectiva maffesoliana amplía la comprensión del cuidado al valorar lo cotidiano, la subjetividad y las relaciones afectivas, dialogando con modelos como adaptación, autocuidado, relaciones interpersonales y necesidades humanas básicas. Consideraciones finales: La integración de estos referenciales fortalece la dimensión humanística de la enfermería, favoreciendo prácticas más sensibles a la realidad vivida, superando abordajes estrictamente tecnicistas y valorando la potencia de lo cotidiano en la salud.
DESCRIPTORES: Sociología; Teorías de Enfermería; Humanización de la Atención.
INTRODUÇÃO
A ciência da enfermagem tem se consolidado ao longo das décadas por meio da construção de saberes que buscam compreender o ser humano em sua integralidade. No entanto, a prática do cuidado muitas vezes se vê aprisionada em modelos tecnicistas que negligenciam a riqueza das interações humanas e a complexidade da vida comum. Nesse cenário, a Sociologia do Cotidiano, proposta por Michel Maffesoli, emerge como um referencial potente para repensar o fazer enfermagem, trazendo à tona a valorização do "aqui e agora", das emoções e dos vínculos que sustentam a existência coletiva. A sociologia compreensiva de Maffesoli, ao se afastar das grandes narrativas e focar nas micro-realidades, oferece uma lente para desvendar as complexidades do cuidado que se manifestam nas interações diárias, nos rituais e nos simbolismos que permeiam a relação entre o enfermeiro e o paciente(1).
Michel Maffesoli(2) defende que a pós-modernidade é marcada por um retorno ao sensível, onde a "razão sensível" passa a mediar as relações sociais, superando o império da racionalidade puramente instrumental. Na enfermagem, o cuidado é, por essência, uma prática cotidiana que ocorre no encontro entre sujeitos, carregada de simbolismos, afetos e rituais que ultrapassam a mera execução de procedimentos técnicos. Compreender esse cotidiano significa mergulhar na socialidade, ou seja, na forma como os indivíduos se agrupam e compartilham suas vivências no ambiente de saúde. A vida cotidiana não é o banal, mas o lugar da "potência", onde a resistência e a criatividade dos sujeitos se manifestam diante das pressões institucionais(3). Essa perspectiva convida a enfermagem a reconhecer e valorizar a capacidade inata dos indivíduos e grupos de construir significados e estratégias de enfrentamento em seu próprio contexto de vida e saúde.
Historicamente, diferentes teóricas da enfermagem, em distintos contextos históricos, empenharam-se na sistematização do cuidado sob perspectivas que, embora diversas, apresentam convergências com o pensamento de Michel Maffesoli. Desde a abordagem ambientalista de Florence Nightingale(4) até formulações mais contemporâneas, como o cuidado transpessoal de Jean Watson(5) e a teoria das necessidades humanas básicas de Wanda de Aguiar Horta(6), identifica-se um eixo articulador que aproxima a teoria de enfermagem da sociologia do cotidiano.
A integração desses referenciais mostra-se essencial para uma prática que reconheça o paciente não como objeto passivo de intervenções, mas como sujeito singular, inserido em contexto social e cultural específico, constituído por redes de afetos, sentidos e pertencimentos(7,8). Nessa direção, o presente estudo teve como objetivo realizar uma reflexão sobre a interface entre a teoria do cotidiano de Michel Maffesoli e as teorias de enfermagem do cuidado.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo teórico-reflexivo, de abordagem qualitativa, que se propõe a analisar as convergências entre a sociologia compreensiva e os marcos conceituais da enfermagem. O estudo teórico-reflexivo é definido como uma construção intelectual fundamentada em conceitos e construtos pertinentes ao uso de teorias em uma determinada área do saber, visando validar, ampliar e ressignificar a compreensão sobre um fenômeno complexo(9). Este tipo de estudo permite ao pesquisador distanciar-se da prática imediata para refletir sobre as bases epistemológicas que a sustentam.
A reflexão foi ancorada primordialmente nas obras seminais de Maffesoli(10), com destaque para as noções de cotidiano, razão sensível, socialidade, imaginário e potência. Simultaneamente, realizou-se uma imersão em artigos científicos que discutem as principais teorias de enfermagem, abrangendo as fases histórica, filosófica e de modelos conceituais. O percurso metodológico envolveu três etapas: 1) Leitura analítica e exaustiva dos textos selecionados para identificação de conceitos-chave; 2) Síntese reflexiva através da comparação dialética entre os pressupostos sociológicos e as proposições das teóricas de enfermagem; 3) Construção da interface teórica materializada em uma tabela de correlações e discussão crítica.
No que tange aos aspectos éticos, por se tratar de uma pesquisa teórica baseada exclusivamente em revisão de literatura e análise de obras de domínio público e publicações científicas, o presente estudo dispensa a apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa. Tal conduta está em conformidade com as diretrizes da Resolução nº 510/2016 e da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que estabelecem que pesquisas que utilizam apenas informações de acesso público e referencial teórico-bibliográfico não necessitam de tramitação no sistema CEP/CONEP.
RESULTADOS
A análise das interfaces teóricas revelou que o pensamento de Maffesoli oferece um suporte robusto para a compreensão das diversas dimensões do cuidado propostas pelas teóricas de enfermagem. Foi possível identificar que conceitos como a socialidade e a razão sensível permeiam as interações descritas em modelos de relacionamento interpessoal e cuidado transpessoal, enquanto a noção de potência e cotidiano se alinha perfeitamente às teorias focadas na autonomia e adaptação do sujeito.
A síntese dessas aproximações, correlacionando os conceitos da sociologia do cotidiano com as principais teorias de enfermagem, suas características centrais e o ano de publicação, é apresentada conforme a Tabela 1.
Tabela 1 – Interface entre os conceitos de Maffesoli e as Teorias de Enfermagem. Maringá-PR, 2026.
Conceito de Maffesoli | Teoria / Teórica / Ano | Característica da Teoria de Enfermagem | Relação com o Conceito de Maffesoli |
Cotidiano: Espaço-tempo do "aqui e agora" onde a vida acontece em sua plenitude e simplicidade. | Teoria Ambientalista / Florence Nightingale (1860) | Controle do Ambiente / higiene (Entorno) | O ambiente é o palco do cotidiano; Nightingale foca no controle do entorno para permitir que a vida flua no processo de cura diário. |
Potência: Energia vital intrínseca aos sujeitos e grupos que permite a resistência e a ação criativa. | Teoria das 14 Necessidades / Virgínia Henderson (1955) | Independência do Paciente | A potência é a força vital para agir; Henderson objetiva a independência do paciente no cotidiano para que ele recupere sua agência vital. |
Socialidade: Forma de "estar-junto" baseada no afeto, na empatia e nos vínculos comunitários. | Relações Interpessoais / Hildegard Peplau (1952) | Interação Enfermeiro-Cliente / Relacionamento Interpessoal | A socialidade é o "estar-junto" afetivo; Peplau foca na interação direta e mútua como núcleo do cuidado no encontro entre sujeitos. |
Razão Sensível: Saber que integra a lógica racional à dimensão emocional, sensorial e intuitiva. | Seres Humanos Unitários / Martha E. Rogers (1970) | Campo de Energia / Ser Unitário | A razão sensível integra o todo (racional/sensível); Rogers vê o ser humano como um campo de energia integral e indivisível. |
Cotidiano / Adaptação: O viver diário como um processo contínuo de ajuste aos estímulos do meio. | Teoria da Adaptação / Calista Roy (1970) | Processos de Adaptação | O cotidiano exige enfrentamento constante; Roy propõe que a enfermagem ajude o paciente a se adaptar às mudanças do ambiente vivido. |
Potência / Agência: Capacidade de agir sobre si mesmo e sobre o mundo a partir da força vital. | Teoria do Autocuidado / Dorothea Orem (1971) | Agência de Autocuidado total | A potência maffesoliana é a energia vital de ação; Orem foca na capacidade do indivíduo de prover seu próprio cuidado total no dia a dia. |
Socialidade / Transação: O encontro dialógico que gera acordos e trocas simbólicas entre os sujeitos. | Teoria de King (comunicação) / Imogene M. King (1971) | 3 sistemas interatuantes (pessoal, interpessoal e social) | A socialidade envolve a negociação do viver; King enfatiza a interação entre enfermeiro e paciente para alcançar metas comuns no cotidiano. |
Ética da Estética: Compartilhar de emoções e sentimentos que fundamentam a união entre os seres. | Teoria do Cuidado Transpessoal / Jean Watson (1979) | Cuidado Transpessoal / Amor / Relação entre saúde, doença e comportamento humano | A ética da estética é o compartilhar de emoções; Watson propõe um cuidado baseado na sensibilidade e conexão alma-a-alma. |
Imaginário / Cotidiano: Conjunto de símbolos e mitos que dão sentido às necessidades e vivências diárias. | Teoria das Necessidades Humanas Básicas / Wangia A. Horta (1979) | Pirâmide de Maslow | O imaginário molda as necessidades percebidas; Horta vê o cuidado como a assistência no equilíbrio das necessidades no cotidiano. |
Socialidade / Tribo: Agrupamentos humanos unidos por afinidades, rituais e identidades culturais comuns. | Teoria da Enfermagem Transcultural / Madeleine Leininger (1978) | Cuidado Cultural / Enfermagem emergente | O tribalismo refere-se aos grupos com culturas próprias; Leininger enfatiza o respeito aos rituais e valores da "tribo" cultural do paciente. |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Os resultados apresentados na Tabela 1 evidenciam a riqueza do diálogo entre a sociologia compreensiva de Maffesoli e as teorias de enfermagem. As correlações identificadas demonstram que, apesar das diferentes abordagens e contextos históricos, há uma convergência fundamental na valorização do ser humano em sua totalidade, do ambiente de cuidado e das relações interpessoais como elementos centrais para a compreensão e a prática da enfermagem. Essa intersecção teórica não apenas válida a profundidade humanística da enfermagem, mas também oferece novas perspectivas para a análise do cuidado em sua dimensão cotidiana e afetiva.
DISCUSSÃO
A profundidade da teoria de Michel Maffesoli ultrapassa os anos e se adequa com notável plasticidade a diferentes temáticas na enfermagem e na saúde ao longo das décadas. O pensamento maffesoliano convida o enfermeiro a abandonar o "desenvolvimento" puramente burocrático para se envolver com um cuidado afetivo, aquele que toca e, por isso, torna-se efetivo(8). Essa conexão com as temáticas da enfermagem é vital, pois o cuidado não ocorre no vácuo, mas sim no tecido social pulsante do cotidiano. A obra de Maffesoli(11) permite uma releitura das teorias clássicas, revelando que a enfermagem, desde o seu nascimento, já carregava as sementes da sociologia compreensiva ao lidar com o "aqui e agora" do sofrimento e da cura(10).
A "razão sensível" de Maffesoli oferece um suporte epistemológico fundamental para que a enfermagem supere o dualismo arraigado entre ciência e arte, integrando a racionalidade técnica à sensibilidade do cuidado. Ao analisar a ciência do ser humano unitário de Martha Rogers(12), percebe-se uma ressonância direta com a proposta maffesoliana de integrar o racional ao energético e sensível. Rogers propõe um campo de energia que não pode ser fragmentado, o que dialoga profundamente com a crítica de Maffesoli à ciência moderna reducionista(2,12). Essa perspectiva holística é fundamental para a compreensão do cuidado em sua totalidade, permitindo visualizar o paciente não como um conjunto de sintomas, mas como um ser vibrante e integrado em seu entorno.
Da mesma forma, a aplicação da teoria do cuidado transpessoal de Jean Watson(13) eleva a assistência ao patamar da "ética da estética", onde o compartilhar de emoções profundas e o amor transpessoal tornam-se o fundamento da união entre cuidador e ser cuidado, transcendendo a mera técnica fria e instrumental. Como reforça Maffesoli(1), o ritmo da vida é intrinsecamente marcado por essa alternância constante entre o material e o imaginário, o que se traduz no equilíbrio dinâmico das necessidades humanas básicas, conceito central na teoria de Wanda Horta(6), enfatizando a complexidade e a riqueza do processo de cuidar no cotidiano assistencial.
A socialidade, enquanto forma essencial de "estar-junto", encontra um eco significativo nas análises sobre as relações interpessoais de Hildegard Peplau(14) e nas contribuições sobre o alcance de metas de Imogene King(15). A enfermagem é compreendida como um processo fundamentalmente interpessoal, onde a interação genuína é o motor principal da saúde e da construção da identidade profissional(16); essa interação culmina na transação e no alcance de metas compartilhadas, conforme a perspectiva de King(17). Tais perspectivas teóricas reforçam a ideia maffesoliana de que a vida social e clínica é construída no encontro, na negociação contínua e na vivência compartilhada do cotidiano(10). O cotidiano familiar e clínico revela a força inegável dos laços tribais e da solidariedade orgânica que sustenta os sujeitos em sofrimento(18), evidenciando a importância das redes de apoio e da comunidade no processo de cura e bem-estar, especialmente em contextos de vulnerabilidade e crise.
A permanência e a atualidade da teoria de Maffesoli devem-se ao fato inegável de que o cotidiano continua sendo o lugar primordial onde a vida acontece em sua plenitude e complexidade. A noção de "potência" é essencial para compreender as discussões sobre a aplicabilidade da teoria do déficit de autocuidado de Dorothea Orem¹⁹ e sobre as necessidades humanas fundamentais de Virginia Henderson(20). O enfermeiro, sob a ótica maffesoliana, não "dá" saúde ao paciente de forma passiva, mas atua como um catalisador ativo da potência vital que o sujeito já possui em seu cotidiano(3), auxiliando-o a se adaptar e a encontrar seus próprios recursos, como demonstra a aplicação do modelo de adaptação de Callista Roy na prática(21). Esses diálogos necessários e enriquecedores entre sociologia e saúde permitem uma prática de enfermagem mais humanizada e integral, valorizando o imaginário e o sensível em foco na pós-modernidade(22), respeitando o cuidado cultural e a diversidade de saberes proposta por Madeleine Leininger(23).
Como limitações deste estudo, aponta-se a natureza estritamente teórica que não se propõe a uma validação empírica imediata em cenários assistenciais específicos. Além disso, a vastidão da obra de Maffesoli e a multiplicidade de teorias de enfermagem impedem uma análise exaustiva de todas as possíveis conexões em um único artigo, sugerindo a necessidade de estudos futuros focados em interfaces específicas, como o cuidado em saúde mental ou a gestão do cotidiano hospitalar, para aprofundar as discussões e explorar novas perspectivas de integração entre a sociologia compreensiva e a prática clínica contemporânea.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A reflexão sobre a interface entre a Sociologia do Cotidiano de Michel Maffesoli e as Teorias de Enfermagem revela uma sinergia fundamental para a evolução do cuidado contemporâneo. Conclui-se que o referencial maffesoliano oferece as ferramentas conceituais necessárias para que a enfermagem resgate a importância do sensível, do afeto e da vivência grupal em suas práticas, sem renunciar à competência técnica.
As teorias de enfermagem, quando lidas sob a lente da sociologia compreensiva, ganham uma nova vitalidade, permitindo que o enfermeiro compreenda o paciente como um ser unitário, adaptativo e dotado de uma potência vital que se manifesta no dia a dia. A integração desses saberes fortalece a identidade da enfermagem como uma ciência humanística e social, capaz de celebrar a vida em sua complexidade e beleza, transformando o cotidiano da assistência em um espaço de verdadeira socialidade e cura.
AGRADECIMENTOS
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – Brasil, pelo apoio à realização deste trabalho, por meio do financiamento concedido sob o código 001.
REFERÊNCIAS
1. Maffesoli M. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. Rio de Janeiro: Record, 2007b.
2. Maffesoli M. Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.
3. Maffesoli M. A potência da vida: a força do cotidiano na pós-modernidade. Revista Fama, 2010; 2(1): 15-28.
4. Medeiros ABA, Enders BC, Lira ALBDC. Teoria Ambientalista de Florence Nightingale: Uma Análise Crítica. Esc Anna Nery [Internet]. 2015 [cited 2016 Jan 10];19(3):518–24. Available from: https://doi.org/10.5935/1414-8145.2015006
5. Savieto RM, Leão ER. Assistência em Enfermagem e Jean Watson: Uma reflexão sobre a empatia. Esc Anna Nery [Internet]. 2016 [cited 2026 Jan 05];20(1):198–202. Available from: https://doi.org/10.5935/1414-8145.20160026
6. Rodrigues ARM, Rodrigues DP, Silveira MAM, Fontenele FMC. Contribuições da Teoria das Necessidades Humanas Básicas para o cuidado de enfermagem durante a gravidez. Research, Society and Development. 2020 [cited 2026 Jan 05];24;9(10):e2179107112. Available from: https://doi.org/10.33448/rsd-v9i10.7112
7. Nóbrega JF, Nitschke RG, Souza AIJ, Santos EKA. A sociologia compreensiva de Michel Maffesoli: implicações para a pesquisa em enfermagem. Cogitare Enferm. [Internet]. 2012 [cited 2026 Jan 10];17(2):373-6. Available from: https://doi.org/10.5380/ce.v17i2.24572
8. Nitschke RG, Tholl AD, Potrich T, Silva KM, Michelin SR, Laureano DD. Contribuições do pensamento de Michel Maffesoli para pesquisa em enfermagem e saúde. Texto contexto - enferm [Internet]. 2017 [cited 2016 Jan 05];26(4):e3230017. Available from: https://doi.org/10.1590/0104-07072017003230017
9. Lacerda MR, Silva RS, Gomes NP, Souza SRRK. Reflections on theoretical framework use in nursing research. Rev Bras Enferm [Internet]. 2024 [cited 2026 Jan 10];77(3):e20230486. Available from: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2024-0486pt
10. Maffesoli M. O conhecimento comum: introdução à sociologia compreensiva. Porto Alegre: Sulina, 2007a.
11. Maffesoli M. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
12. Sá AC. A ciência do ser humano unitario de Martha Rogers e sua visão sobre a criatividade na prática da enfermagem. Rev esc enferm USP [Internet]. 1994 [cited 2026 Jan 05];28(2):171–6. Available from: https://doi.org/10.1590/0080-6234199402800200171
13. Favero L, Meier MJ, Lacerda MR, Mazza VA, Kalinowski LC. Aplicação da Teoria do Cuidado Transpessoal de Jean Watson: uma década de produção brasileira. Acta paul enferm [Internet]. 2009 [cited 2026 Jan 10];22(2):213–8. Available from: https://doi.org/10.1590/S0103-21002009000200016
14. Almeida VCF, Lopes MVO, Damasceno MMC. Teoria das relações interpessoais de Peplau: análise fundamentada em Barnaum. Rev esc enferm USP [Internet]. 2005 [cited 2026 Jan 10];39(2):202–10. Available from: https://doi.org/10.1590/S0080-62342005000200011
15. Moreira TMM, Araújo TL. O modelo conceitual de sistemas abertos interatuantes e a teoria de alcance de metas de Imogene King. Rev Latino-Am Enfermagem [Internet]. 2002 [cited 2026 Jan 10];10(1):97–107. Available from: https://doi.org/10.1590/S0104-11692002000100015
16. Pinheiro CW, Araújo MM, Rolim KMC, Oliveira CM, Alencar AB. Teoria das relações interpessoais: reflexões acerca da função terapêutica do enfermeiro em saúde mental. Enferm Foco [Internet]. 2019 [cited 2026 Jan 10];10(3):64-9. Available from: https://doi.org/10.21675/2357-707X.2019.v10.n3.2291
17. Silva VGF, Melo LGS, Silva BN, Souza NL. O cuidado de enfermagem nas relações sorodiferentes: uma análise à luz de Imogene King. Esc Anna Nery [Internet]. 2024 [cited 2026 Jan 10];28:e20240016. Available from: https://doi.org/10.1590/2177-9465-EAN-2024-0016pt
18. Bellini LC, Rodrigues TFCS, Sanches RCN, Nitschke RG, Giacon-Arruda BCC, Radovanovic CAT. Daily life of families and covid-19: in the light of the comprehensive sociology of Michel Maffesoli. Texto contexto Enferm [Internet]. 2022 [cited 2026 Jan 10];31:e20220184. Available from: https://doi.org/10.1590/1980-265X-TCE-2022-0184pt
19. Bezerra MLR, Faria RPR, Costa de Jesus CA, Reis PED, Pinho DLM, Kamada I. Aplicabilidade da teoria do déficit do autocuidado de ordem no Brasil: uma revisão integrativa. J Manag Prim Health Care [Internet]. 2018 [cited 2026 Jan 05];9:e16. Available from: https://doi.org/10.14295/jmphc.v9i0.538
20. Fernandes BKC, Clares JWB, Borges CL, Nóbrega MML, Freitas MC. Nursing diagnoses for institutionalized elderly people based on Henderson’s theory. Rev esc enferm USP [Internet]. 2019 [cited 2026 Já 10];53:e03472. Available from: https://doi.org/10.1590/S1980-220X2018004103472
21. Coelho SMS, Mendes IMDM. Da pesquisa à prática de enfermagem aplicando o modelo de adaptação de Roy. Esc Anna Nery [Internet]. 2011 [cited 2026 Jan 10];15(4):845–50. Available from: https://doi.org/10.1590/S1414-81452011000400026
22. Bosi MLM. Pós-modernidade: elementos para uma compreensão - entrevista com Michel Maffesoli. Interface (Botucatu) [Internet]. 2024 [cited 2026 Jan 10];28:e240118. Available from: https://doi.org/10.1590/interface.240118
23. Sousa VN, Rodrigues GC, Gomes LEM, Silva DL, Masson VA, Rossignolo SCO. A teoria de Madeleine Leininger aplicada ao acolhimento de enfermagem para atenção primária: uma revisão integrativa. Rev. Contemp. [Internet]. 2024 [cited 2026 Jn 10];4(12):e6818. Available from: https://doi.org/10.56083/RCV4N12-036