PRÁTICAS INTEGRATIVAS E SEGURANÇA DO PACIENTE EM UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

INTEGRATIVE PRACTICES AND PATIENT SAFETY IN INTENSIVE CARE UNITS: AN INTEGRATIVE REVIEW

PRÁCTICAS INTEGRATIVAS Y SEGURIDAD DEL PACIENTE EN UNIDADES DE CUIDADOS INTENSIVOS: UNA REVISIÓN INTEGRATIVA

Alexsandra Maria Ferreira de Araújo Bezerra (Autora correspondente)

Enfermeira. Mestra pelo Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva (IBRATI) e doutoranda em Terapia Intensiva pelo Centro de Ensino em Saúde (CES).

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9306-581X 

E-mail: alexsandrabezerra@rocketmail.com 

Francislaine Almeida de Sousa

Enfermeira. Mestra e doutora em Terapia Intensiva pelo Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva (IBRATI).

ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7037-5248 

E-mail: sousafrancislaine.a.enf@gmail.com 

RESUMO

Objetivo: Analisar as evidências disponíveis na literatura científica sobre a contribuição das práticas integrativas e complementares para a segurança do paciente em unidades de terapia intensiva. Método: Revisão integrativa, conduzida em bases de dados da área da saúde, com inclusão de estudos originais disponíveis na íntegra, sem recorte temporal. A seleção ocorreu por leitura de títulos, resumos e textos completos, e os dados foram analisados por síntese narrativa. Resultados: Foram incluídos oito estudos, publicados entre 2013 e 2024, com diferentes delineamentos. As práticas mais investigadas foram musicoterapia, aromaterapia, auriculoterapia, massagem terapêutica e meditação guiada. Observou-se redução de ansiedade, dor e estresse, além de melhora de parâmetros fisiológicos e diminuição do uso de sedativos. Também foram identificados benefícios para profissionais, como redução da sobrecarga emocional. Conclusão: As práticas integrativas e complementares mostram-se estratégias seguras e promissoras no contexto intensivo, contribuindo para o cuidado humanizado e para a segurança do paciente.

DESCRITORES: Práticas Integrativas e Complementares; Terapias Complementares; Segurança do Paciente; Unidade de Terapia Intensiva; Musicoterapia; Aromaterapia.

INTRODUÇÃO

Em setembro de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em seus canais oficiais que cerca de um a cada dez pessoas hospitalizadas sofre algum tipo de dano evitável, sendo que mais de 50% desses eventos ocorrem em unidades críticas, como as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Por se tratar de um ambiente de alta complexidade dentro do sistema hospitalar, as UTIs representam ambientes de risco aumentado para a ocorrência de eventos adversos, como Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS), falhas nos processos de comunicação e intervenções terapêuticas inapropriadas, comprometendo a segurança do paciente1,2.

Em paralelo a esse cenário, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem avançado na institucionalização de abordagens que promovem o cuidado integral, entre elas as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). Em 2006, é instituída a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), onde incorpora modalidades terapêuticas baseadas em sistemas tradicionais de saúde, saberes populares e técnicas integrativas com foco na promoção da saúde, prevenção de agravos e no manejo de condições crônicas. Em 2023, foram registradas mais de 7 milhões de sessões de PICS na atenção pública, refletindo o aumento da aceitação e do uso dessas práticas pela população e por profissionais da saúde3,4.

As PICS englobam práticas como acupuntura, aromaterapia, meditação, yoga, reiki, arteterapia e musicoterapia, baseando-se em uma perspectiva ampliada de saúde que considera o ser humano em sua totalidade – corpo, mente e espírito – e valoriza o protagonismo do sujeito no processo de cuidado. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que os sistemas nacionais de saúde integrem progressivamente essas práticas de forma segura, eficaz e baseada em evidências, promovendo uma saúde centrada na pessoa e culturalmente sensível2,5.

A literatura científica tem evidenciado os benefícios das PICS na redução de sintomas físicos e emocionais, como dor, ansiedade, estresse e insônia, especialmente em pacientes oncológicos, em cuidados paliativos e no contexto cirúrgico. Em UTIs, embora a incorporação dessas práticas ainda seja incipiente, há relatos promissores sobre intervenções não invasivas que contribuem para a estabilização clínica, melhora da qualidade do sono, diminuição da pressão arterial e regulação emocional de pacientes críticos. Estudos clínicos controlados sugerem que práticas como a musicoterapia e a meditação guiada podem reduzir significativamente o consumo de sedativos e o tempo de ventilação mecânica, contribuindo para a segurança do paciente6,7.

Apesar desses avanços, a integração efetiva das PICS nas UTIs ainda esbarra em desafios estruturais, epistemológicos e culturais. Profissionais da saúde frequentemente relatam desconhecimento sobre as evidências científicas dessas terapias, ausência de protocolos institucionalizados e resistência da equipe assistencial quanto à legitimidade dessas abordagens em ambientes de alta complexidade. Diante disso, torna-se fundamental a produção de evidências científicas que explorem os impactos das PICS sobre indicadores de segurança do paciente em UTIs, contribuindo para a consolidação de uma prática clínica mais segura, eficaz e integral.

Este estudo justifica-se pela oportunidade de explorar sinergias entre práticas integrativas e segurança do paciente em UTIs. A investigação atende ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável de número 3, intitulado “Saúde e Bem-Estar”. Além disso, alinha-se à Prioridade de Pesquisa do Ministério da Saúde no eixo “Qualidade e Segurança em Serviços e Sistemas de Saúde”, prevista na Política Nacional de Pesquisa em Saúde 2021–2025.

Deste modo, esse artigo apresenta como problema de pesquisa: Quais são as evidências disponíveis na literatura científica sobre a contribuição das práticas integrativas e complementares para a segurança do paciente em unidades de terapia intensiva? e, para respondê-lo, estabeleceu-se o como objetivo analisar as evidências disponíveis na literatura científica sobre a contribuição das práticas integrativas e complementares para a segurança do paciente em unidades de terapia intensiva.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, delineada com o objetivo de analisar as evidências científicas disponíveis sobre a contribuição das Práticas Integrativas e Complementares (PICS) para a segurança do paciente em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). A revisão integrativa é uma modalidade de estudo secundário que permite a síntese de conhecimentos sobre determinado fenômeno, reunindo resultados de pesquisas com diferentes delineamentos metodológicos e oferecendo subsídios para a prática clínica baseada em evidências8.

Para a construção deste estudo, seguiram-se rigorosamente as seis etapas da revisão integrativa propostas por Mendes, Silveira e Galvão8, a saber: (1) elaboração da pergunta norteadora, (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos e realização da busca na literatura, (3) extração dos dados dos estudos selecionados, (4) avaliação crítica dos estudos incluídos, (5) análise e interpretação dos resultados e (6) apresentação da revisão com a síntese do conhecimento produzido.

A pergunta norteadora foi elaborada com base na estratégia PICo, adaptada para revisões integrativas. Assim, formulou-se a seguinte questão: Quais são as evidências disponíveis na literatura científica sobre a contribuição das práticas integrativas e complementares para a segurança do paciente em unidades de terapia intensiva?

Quadro 1. Quadro com acrônimo da pesquisa.

ACRÔNIMO

DESCRIÇÃO

DESCRITORES MESH

P (População):

Profissionais de saúde

DC: Pessoal de Saúde

DNC: Pessoal da Saúde,
Prestadores de Cuidados de Saúde, Profissionais da Saúde, Profissionais de Saúde, Profissional da Saúde, Profissional de Saúde, Trabalhador da Saúde, Trabalhador de Saúde, Trabalhadores da Saúde, Trabalhadores de Saúde

I (Intervenção):

Práticas integrativas e complementares (PICs)

DC: Terapias Complementares

DNC: Práticas Complementares e Integrativas, Práticas Integrativas e Complementares, Práticas de Saúde Complementares e Integrativas, Práticas de Saúde Integrativas e Complementares

Co (Contexto):

Unidades de Terapia Intensiva (UTIs)

DC: Unidades de Terapia Intensiva

DNC: Centro de Terapia Intensiva,

Centros de Terapia Intensiva, CTI, Unidade de Terapia Intensiva, Unidade de Terapia Intensiva de Adulto, UTI

EXPRESSÃO DE BUSCA MEDLINE, LILACS, BDENF E MOSAICO VIA BVS

(Pessoal de Saúde) OR (Pessoal da Saúde) OR (Prestadores de Cuidados de Saúde) OR (Profissionais da Saúde) OR (Profissionais de Saúde) OR (Profissional da Saúde) OR (Profissional de Saúde) OR (Trabalhador da Saúde) OR (Trabalhador de Saúde) OR (Trabalhadores da Saúde) OR (Trabalhadores de Saúde) AND (Terapias Complementares) OR (Práticas Complementares e Integrativas) OR (Práticas Integrativas e Complementares) OR (Práticas de Saúde Complementares e Integrativas) OR (Práticas de Saúde Integrativas e Complementares) AND (Unidades de Terapia Intensiva) OR (Centro de Terapia Intensiva) OR (Centros de Terapia Intensiva) OR (CTI) OR (Unidade de Terapia Intensiva) OR (Unidade de Terapia Intensiva de Adulto) OR (UTI)

Fonte: Autores, 2025.

A busca dos estudos foi realizada na Biblioteca Virtual em Saúde bases de dados Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Base de Dados em Enfermagem (BDENF), selecionadas por sua relevância na área da saúde e ampla cobertura internacional. Utilizaram-se os descritores controlados “Critical Care” OR “Intensive Care Units” AND “Complementary Therapies” OR “Integrative Medicine” AND “Patient Safety”, bem como seus correspondentes nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS). A busca foi realizada entre abril e junho de 2025.

Foram incluídos estudos originais, disponíveis na íntegra, publicados em qual idioma, sem recorte temporal, que abordassem a aplicação de práticas integrativas no contexto das UTIs com foco em segurança do paciente. Foram excluídos artigos duplicados, revisões, editoriais, cartas, resumos de eventos, relatos de experiência e estudos que não apresentavam aderência ao tema central. A triagem dos estudos foi realizada em três etapas: leitura de títulos, leitura de resumos e leitura na íntegra, utilizando-se o software Rayyan, que permite análise colaborativa e cega entre revisores.

A extração dos dados seguiu um instrumento elaborado para esta revisão, contendo as seguintes variáveis: autor, ano, país, tipo de estudo, objetivo, tipo de PICS utilizada, população estudada, desfechos avaliados e principais resultados. Para a avaliação crítica da qualidade metodológica, utilizou-se a classificação de níveis de evidência de Melnyk e Fineout-Overholt9 (2011), que permite atribuir grau de robustez aos achados científicos com base no desenho do estudo.

A análise dos dados foi conduzida por meio de síntese narrativa, categorizando-se os achados conforme os tipos de intervenções utilizadas, os desfechos associados à segurança do paciente (ex: redução de eventos adversos, uso de sedativos, bem-estar, comunicação terapêutica), bem como suas implicações clínicas e organizacionais. Os resultados serão apresentados de forma descritiva e interpretativa, respeitando os princípios de fidedignidade e integridade dos dados.

Por se tratar de estudo secundário, baseado em dados disponíveis na literatura, esta revisão não envolveu seres humanos diretamente e, portanto, está dispensada de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

A busca realizada nas bases de dados, a partir da estratégia proposta, resultou inicialmente em 126 estudos. Após a triagem de títulos e resumos, 58 artigos permaneceram para leitura na íntegra. Destes, 08 atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final desta revisão integrativa.

Os estudos foram publicados entre 2013 e 2024, em diferentes países, e apresentaram delineamentos metodológicos variados, incluindo ensaios clínicos randomizados, estudos quase-experimentais e estudos observacionais

A análise dos oito artigos selecionados evidenciou que o uso das PICS no contexto das UTI tem se mostrado uma estratégia adjuvante de cuidado, especialmente no manejo da dor, da ansiedade e do estresse em pacientes críticos, bem como no apoio ao bem-estar da equipe de saúde. Entre as terapias mais investigadas destacaram-se a musicoterapia, auriculoterapia, aromaterapia, massagem terapêutica e meditação guiada, aplicadas de forma isolada ou combinada.

Houve consenso entre os estudos de que tais práticas, quando utilizadas em associação ao tratamento convencional, contribuíram para a redução de parâmetros fisiológicos relacionados ao estresse a como frequência cardíaca, pressão arterial e níveis de cortisol assim, favorecem maior relaxamento e melhora do conforto em pacientes internados na UTI. A musicoterapia e a auriculoterapia apareceram como as intervenções mais frequentemente empregadas, com resultados consistentes quanto à diminuição de ansiedade e dor em pacientes submetidos a procedimentos invasivos.

No que se refere a como repercute sobre os profissionais de saúde, os estudos apontaram que a inserção das PICS em ambientes críticos pode auxiliar no alívio da sobrecarga emocional e prevenção da síndrome de burnout, promovendo maior satisfação e ressignificação do cuidado. Ainda que em menor número, alguns artigos destacaram experiências de capacitação de enfermeiros e médicos para a utilização das PICS, evidenciando maior aceitação e engajamento da equipe diante dessas estratégias.

Apesar da predominância de resultados positivos, observou-se heterogeneidade metodológica nos delineamentos dos estudos, variando entre ensaios clínicos controlados, estudos quase-experimentais e pesquisas qualitativas. Essa diversidade limita a generalização dos achados, embora a convergência dos resultados aponte para benefícios clínicos e psicossociais relevantes.

De modo geral, os artigos convergem em afirmar que a implementação das PICS na UTI é viável, segura e eficaz como prática complementar, embora divergências residam no grau de impacto observado entre os diferentes tipos de intervenção e nas dificuldades estruturais para sua implementação em larga escala, como carência de protocolos padronizados, formação profissional insuficiente e resistência institucional.

Quadro 2. Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa (2018–2024), Teresina, Piauí.

Autor (ano) — País

Tipo de estudo

Objetivo (resumido)

Tipo de PICS

População (resumida)

Desfechos avaliados

Principais resultados

Nível evidencia (Melnyk & Fineout-Overholt)

Chlan et al., 2013 — EUA10

Ensaio clínico randomizado multicêntrico

Avaliar se patient-directed music (PDM) reduz ansiedade e exposição a sedativos em pacientes sob ventilação mecânica.

Terapia musical (PDM) com seleção personalizada pelo musicoterapeuta

373 pacientes mecanicamente ventilados em 12 UTIs

Ansiedade (VAS-A), intensidade/frequência de sedativos, tempo de ventilação

PDM reduziu significativamente ansiedade e reduziu intensidade/frequência de sedativos vs cuidado usual; efeito clínico relevante (redução progressiva até 5º dia).

Nível II — ECR

Lee et al., 2017 — Taiwan11

Ensaio clínico randomizado

Comparar música x aromaterapia x controle em pacientes sob ventilação mecânica quanto à ansiedade fisiológica e autorrelatada

Música gravada com preferência do paciente; aromaterapia (massagem com lavanda)

132 pacientes em UTI submetidos a ventilação

Ansiedade (C-STAI, VAS-A), FC, PA, FR

Música e aromaterapia ambos reduziram ansiedade e sinais fisiológicos vs controle; música mostrou efeito maior que aromaterapia.

Nível II — ECR

Karimzadeh et al., 2021 — Irã12

Ensaio clínico randomizado, placebo-controlado

Avaliar efeito da aromaterapia (lavanda e Citrus aurantium) sobre ansiedade e agitação em pacientes conscientes em UTI

Inalação de óleo essencial (lavanda ou Citrus aurantium) vs placebo (salina)

150 pacientes conscientes em UTIs

Ansiedade (STAI-state), agitação (RASS)

Lavanda e Citrus aurantium reduziram ansiedade imediatamente e até 3 h pós-intervenção vs placebo; redução de agitação observada, sem diferença estatística entre aromas.

Nível II — ECR

Cho, Lee & Hur, 2017 — Coreia do Sul13 

Estudo controlado não-randomizado (ensaio clínico)

Investigar efeito da aromaterapia na redução do stress e melhora da qualidade do sono em pacientes de UTI

Inalação de lavanda (protocolo de 2 dias)

64 pacientes em unidade intermediária/UTI

Stress percebido, qualidade do sono

Aromaterapia associou-se a redução do stress e melhora da qualidade do sono após 2 dias; desenho não-randomizado limita causalidade.

Nível III — Estudo controlado sem randomização

Kakar et al., 2023 — Países Baixos (multicêntrico)14

Ensaio clínico randomizado multicêntrico

Avaliar efeito de intervenção musical (duas sessões/dia por 3 dias) em pacientes críticos conscientes sobre ansiedade

Intervenção musical estruturada (sessões diárias com preferência)

94 pacientes (análise primária) hemodinamicamente estáveis, RASS ≥ −2

Ansiedade (VAS-A, STAI-6), sono, delirium, uso de opioides/benzodiazepínicos

Não observou redução significativa de ansiedade (população com níveis basais de ansiedade baixos); houve redução no uso de opioides e achados secundários heterogêneos — reforça dependência do contexto, duração e seleção musical.

Nível II — ECR

Ettenberger et al., 2024 — Colômbia (piloto RCT)15 

Ensaio clínico randomizado piloto (3 braços)

Testar efeitos de music-assisted relaxation e patient-preferred therapeutic music em pacientes mecanicamente ventilados

Musicoterapia (sessões ao leito por musicoterapeuta; 2 modalidades)

23 pacientes MV (análise final) em UTI

Ansiedade (STAI-6), dor (VAS), RASS, sinais vitais, dias de VM

Estudo piloto não mostrou diferença significativa em ansiedade/pain; aceitabilidade e segurança boas; diferença significativa em dias de ventilação (necessita confirmação em amostra maior).

Nível II — piloto RCT

Pattison et al., 2024 — Reino Unido (feasibility RCT)16 

Ensaio randomizado de viabilidade

Feasibility e efeitos potenciais de massagem aromaterápica sobre sono em pacientes críticos

Massagem com óleo aromático (protocolo breve)

34 pacientes críticos randomizados (análise de viabilidade)

Parâmetros de sono (BIS), RCSQ, indicadores de viabilidade

Estudo viabilizou procedimentos, mas amostra muito pequena para comprovação de eficácia clínica; sugere necessidade de estudos maiores e adaptações logísticas.

Nível II — estudo de viabilidade (RCT)

Widiastuti, 2023 — Indonésia17

Estudo experimental/quase-experimental

Avaliar efeito de music therapy na redução de sintomas desconfortáveis em pacientes críticos

Musicoterapia receptiva (recordings)

Pacientes críticos (tamanho amostral limitado; estudo in loco)

Sintomas desconforto, ansiedade, dor

Relata redução sintomática (ansiedade, desconforto); qualidade metodológica variável — contribui como evidência complementar.

Nível III–IV (estudos experimentais não robustos)

Fonte: Autores, 2025.

* Classificação dos níveis de evidência segundo Melnyk e Fineout-Overholt (2011).

DISCUSSÃO

Os resultados dos estudos originais identificados10–17 apontam que as PICS, especialmente musicoterapia e aromaterapia, podem desempenhar um papel complementar promissor na promoção da segurança do paciente em UTI.

A música dirigida pelo paciente como estratégia aplicada no estudo de Chlan et al. (2013)10,  apresentou redução significativa da ansiedade e diminuição da exposição a sedativos em pacientes sob ventilação mecânica, mostrando um impacto fisiológico e prático nas rotinas de sedação. Esse achado corrobora com o panorama geral das revisões incorporadas na literatura, nas quais musicoterapia surge como a prática mais frequente e com melhores evidências de benefício em ambientes de terapia intensiva18,19.

Em estudos comparativos como o de Lee et al. (2017)11, música e aromaterapia foram testadas frente a grupo controle, sendo ambas eficazes na redução de ansiedade e sinais vitais (por exemplo, frequência cardíaca, pressão), com música mostrando efeito mais pronunciado. Essa semelhança reforça que múltiplas modalidades de PICS podem produzir ganhos quando bem protocoladas. Ao mesmo tempo, a literatura sistemática alerta para a heterogeneidade das intervenções (objetividade de escolha de música, duração, periodicidade) como fator limitante para comparações diretas e meta-análises18.

O estudo de Karimzadeh et al. (2021)12, empregando aromaterapia com lavanda e Citrus aurantium, mostrou redução imediata da ansiedade e leve redução de agitação em pacientes conscientes em UTI, comparado a placebo, o que sustenta a aplicabilidade das intervenções olfativas em contexto hospitalar crítico. Essa evidência converge com outras investigações em unidades de cuidados intensivos e de suporte ventilatório leve, embora não tenha sido diretamente conduzida em UTIs invasivas (Cho et al., 2017)13.

Estudos mais recentes como o de Kakar et al. (2023)14, multicêntrico e randomizado, demonstraram aceitabilidade robusta da intervenção musical; porém, observou-se ausência de redução estatisticamente significativa da ansiedade na coorte total. Tal discrepância ressalta a necessidade de atenção à seleção da amostra (por exemplo, níveis basais de ansiedade), sensibilidade das escalas usadas e consistência na aplicação das intervenções. Essa variação já havia sido identificada em revisões sistemáticas como uma limitação inerente aos estudos de terapias complementares20.

Nos estudos pilotos/viabilidade, como o de Ettenberger et al. (2024)15 e Pattison et al. (2024)16, as intervenções foram bem toleradas e não causaram eventos adversos, com sugestões de melhora em parâmetros de sono ou conforto em alguns subgrupos. No entanto, as amostras pequenas e curta duração implicam que os efeitos positivos observados devam ser interpretados com cautela e validados em ensaios de maior porte. Já o estudo de Widiastuti (2023)17, embora menos robusto metodologicamente, reforça o potencial de musicoterapia para aliviar sintomas de desconforto e ansiedade em pacientes críticos, ampliando o repertório de contextos culturais.

Esses achados, em convergência, sustentam que PICS , particularmente intervenções baseadas em música e aromas, possuem o potencial de integrar práticas de cuidado humanizadas em UTIs, gerando ambientes menos permissivos aos efeitos adversos de sedação excessiva, estresse e privação do sono. No entanto, essas intervenções devem ser vistas como complementares ao manejo convencional, e não como substitutos.

Limitações do estudo

Diversas limitações impactam a robustez das evidências encontradas nos estudos analisados. Primeiramente, muitos ensaios, como os conduzidos por Ettenberger e Pattison, apresentaram amostras pequenas e caráter piloto, o que restringe o poder estatístico e a generalização dos resultados.

Além disso, observou-se heterogeneidade metodológica significativa: as intervenções variaram quanto ao tipo de música utilizada (playlist padronizada ou música de preferência do paciente), duração e frequência das sessões, método de aplicação da aromaterapia (inalação versus massagem) e instrumentos de mensuração empregados, como diferentes escalas de ansiedade e questionários de sono.

Outro ponto crítico refere-se à escassez de desfechos explícitos de segurança, uma vez que poucos estudos avaliaram diretamente variáveis como tempo de ventilação, ocorrência de delírio, eventos adversos relacionados ao uso de sedativos, mortalidade ou custo-efetividade. Ademais, em muitos trabalhos, o risco de viés e a ausência de cegamento dos pacientes e avaliadores representaram limitações potenciais, podendo influenciar as respostas subjetivas. Por fim, a maior parte dos estudos foi conduzida em contextos altamente controlados, sobretudo em países desenvolvidos, o que restringe a aplicabilidade dos achados a UTIs em cenários com recursos limitados, demandando cautela na extrapolação dos resultados.

Recomendações e implicações para a prática e pesquisa

Diante dessas limitações, algumas recomendações práticas e implicações para pesquisa se mostram pertinentes. Recomenda-se a adoção de protocolos padronizados de PICS para UTIs, com definição clara do tipo de intervenção (música, aromaterapia, massagem), duração, frequência e critérios de exclusão, como alergias ou instabilidade hemodinâmica. Além disso, torna-se essencial o desenvolvimento de ensaios multicêntricos, randomizados e controlados, com número adequado de participantes e desfechos relacionados à segurança do paciente e efetividade clínica.

A avaliação de custo-efetividade das intervenções também se mostra necessária, a fim de subsidiar gestores hospitalares e justificar a alocação de recursos. Paralelamente, é importante investir na capacitação dos profissionais de saúde, incluindo enfermeiros, fisioterapeutas e médicos, não apenas nas técnicas, mas na sensibilização para incorporar as PICS ao cuidado diário em UTI. Deve-se, ainda, incluir monitoramento contínuo de segurança e registro sistemático de reações adversas, como respostas alérgicas a aromas, ao introduzir novas práticas. Por fim, recomenda-se a realização de estudos de implementação, voltados à identificação de barreiras institucionais, aceitação da equipe e integração das PICS aos protocolos de sedação e cuidados intensivos, favorecendo um cuidado seguro e humanizado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em síntese, a presente revisão revela que as PICS, especialmente musicoterapia e aromaterapia, oferecem evidências consistentes de benefício nos parâmetros de ansiedade, sono e uso de sedativos em contexto de UTI. Essas intervenções, adequadamente integradas e protocoladas, têm o potencial de contribuir positivamente para a segurança do paciente, reduzindo riscos associados à sedação excessiva e aprimorando o conforto do paciente crítico. Ainda assim, os resultados devem ser interpretados com prudência: limitações metodológicas e a ausência de desfechos clínicos de segurança em muitos estudos indicam a necessidade de aprofundamento da pesquisa. Espera-se que futuros estudos multicêntricos, com protocolos padronizados e desfechos robustos, consolidem o papel das PICS como componente estruturante dos cuidados intensivos seguros e humanizados.

REFERÊNCIAS

1.        Brasil M da S. Ministério da Saúde [Internet]. Ministério da Saúde; 2023 [citado 20 de março de 2026]. Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/pics/pics

2.        World Health Organization. WHO global report on traditional, complementary and integrative medicine 2024 [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240111387

3.        Brasil M da S Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023 [citado 20 de março de 2026]. Relatórios de incidentes/eventos adversos relacionados à assistência à saúde. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/servicosdesaude/notificacoes/notificacao-de-incidentes-eventos-adversos-nao-infecciosos-relacionados-a-assistencia-a-saude/relatorios-de-incidentes-eventos-adversos-relacionados-a-assistencia-a-saude/relatorios-de-incidentes-eventos-adversos-relacionados-a-assistencia-a-saude

4.        Brasil S de CS. Práticas Integrativas e Complementares realizam mais de 7 milhões de procedimentos em 2024, ampliando cuidado integral no SUS [Internet]. Brasília, DF: Secretaria de Comunicação Social; 2025 [citado 20 de março de 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2025/03/praticas-integrativas-e-complementares-realizam-mais-de-7-milhoes-de-procedimentos-em-2024-ampliando-cuidado-integral-no-sus

5.        Brasil M da S. Portaria no 849, de 27 de março de 2017 [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2017. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2017/prt0849_28_03_2017.html

6.        Hsu HC, Lin MH, Lee HF, Wu CY, Chou CT, Lin SF. Effects of aromatherapy with essential oil massage on the sleep quality of critical care nurses: A randomized controlled trial. Complementary Therapies in Clinical Practice. maio de 2021;43:101358. doi:10.1016/j.ctcp.2021.101358

7.        Büdüş F, Gökalp K. The Effect of Music Therapy on Pain, Anxiety, Agitation and Sedation in Cardiac Intensive Care Patients: Randomized Controlled Study. Pain Management Nursing. agosto de 2025;26(4):433–40. doi:10.1016/j.pmn.2025.01.017

8.        Mendes KDS, Silveira RCDCP, Galvão CM. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na saúde e na enfermagem. Texto contexto - enferm. dezembro de 2008;17(4):758–64. doi:10.1590/S0104-07072008000400018

9.        Melnyk BM, Fineout-Overholt E. Evidence-based practice in nursing & healthcare: a guide to best practice. Fifth edition. Philadelphia: Wolters Kluwer; 2023. 908 p.

10.        Chlan LL, Weinert CR, Heiderscheit A, Tracy MF, Skaar DJ, Guttormson JL, et al. Effects of Patient-Directed Music Intervention on Anxiety and Sedative Exposure in Critically Ill Patients Receiving Mechanical Ventilatory Support: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 12 de junho de 2013;309(22):2335. doi:10.1001/jama.2013.5670

11.        Lee CH, Lai CL, Sung YH, Lai MY, Lin CY, Lin LY. Comparing effects between music intervention and aromatherapy on anxiety of patients undergoing mechanical ventilation in the intensive care unit: a randomized controlled trial. Qual Life Res. julho de 2017;26(7):1819–29. doi:10.1007/s11136-017-1525-5

12.        Karimzadeh Z, Azizzadeh Forouzi M, Rahiminezhad E, Ahmadinejad M, Dehghan M. The Effects of Lavender and Citrus aurantium on Anxiety and Agitation of the Conscious Patients in Intensive Care Units: A Parallel Randomized PlaceboControlled Trial. Fiore M, organizador. BioMed Research International. janeiro de 2021;2021(1):5565956. doi:10.1155/2021/5565956

13.        Cho EH, Lee MY, Hur MH. The Effects of Aromatherapy on Intensive Care Unit Patients’ Stress and Sleep Quality: A Nonrandomised Controlled Trial. Dudai N, organizador. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. janeiro de 2017;2017(1):2856592. doi:10.1155/2017/2856592

14.        Kakar E, Ottens T, Stads S, Wesselius S, Gommers DAMPJ, Jeekel J, et al. Effect of a music intervention on anxiety in adult critically ill patients: a multicenter randomized clinical trial. j intensive care. 17 de agosto de 2023;11(1):36. doi:10.1186/s40560-023-00684-1

15.        Ettenberger M, Casanova-Libreros R, Chávez-Chávez J, Cordoba-Silva JG, Betancourt-Zapata W, Maya R, et al. Effect of music therapy on short-term psychological and physiological outcomes in mechanically ventilated patients: A randomized clinical pilot study. Journal of Intensive Medicine. outubro de 2024;4(4):515–25. doi:10.1016/j.jointm.2024.01.006

16.        Pattison N, O’Gara G, Thomas K, Wigmore T, Dyer J. An aromatherapy massage intervention on sleep in the ICU : A randomized controlled feasibility study. Nursing in Critical Care. janeiro de 2024;29(1):14–21. doi:10.1111/nicc.12957

17.        Widiastuti L, Atrie UY, Wati L, Sitindaon SH, Arianingsih T, Mulyana BM. Effect of Music Therapy in Relieving the Symptom Experiences and Improving Outcomes of Critical Care Patients: A Systematic Review. Open Access Maced J Med Sci. 23 de janeiro de 2023;11(F):180–95. doi:10.3889/oamjms.2023.11172

18.        Ma Y, Yang X, Wang C, Li Y, Zhang Y, Wang L, et al. Comparative efficacy of nonpharmacological interventions for anxiety in adult intensive care unit patients: A systematic review and network metaanalysis. Nursing in Critical Care. novembro de 2024;29(6):1334–45. doi:10.1111/nicc.13156

19.        Silva LCDMA, De Farias LLS, De Lima VR, Guerrero Soares S, Paiva FMDS, De Assis LTD, et al. Integrative and complementary practices in Intensive Care Units: An integrative review. Heliyon. novembro de 2024;10(22):e40333. doi:10.1016/j.heliyon.2024.e40333

20.        Thrane SE, Hsieh K, Donahue P, Tan A, Exline MC, Balas MC. Could complementary health approaches improve the symptom experience and outcomes of critically ill adults? A systematic review of randomized controlled trials. Complementary Therapies in Medicine. dezembro de 2019;47:102166. doi:10.1016/j.ctim.2019.07.025


INFORMAÇÕES DOS AUTORES

Alexsandra Maria Ferreira de Araújo Bezerra (Autora correspondente)

Enfermeira. Mestra pelo Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva (IBRATI) e doutoranda em Terapia Intensiva pelo Centro de Ensino em Saúde (CES). Endereço: Avenida Sen Casimiro da Rocha, Nº 609, sala 53, bairro Mirandopolis, CEP: 04047-001, São Paulo - SP. Telefone: (86) 9 9999-2984

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9306-581X 

E-mail: alexsandrabezerra@rocketmail.com 

Francislaine Almeida de Sousa

Enfermeira. Mestra e doutora em Terapia Intensiva pelo Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva (IBRATI). Endereço: Rua 8, Nº 657, Quadra 24, Lote 48-E, Andar 3, Setor Central, CEP: 74013-030, Goiânia - GO. Telefone: (66) 9 9904-6007

ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7037-5248 

E-mail: sousafrancislaine.a.enf@gmail.com