PERCEPÇÃO DA PESSOA IDOSA ACERCA DA IATROGENIA: UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA SOCIOLÓGICA

OLDER ADULTS’ PERCEPTION OF IATROGENESIS: A SOCIOLOGICAL PHENOMENOLOGICAL APPROACH

PERCEPCIÓN DE LAS PERSONAS MAYORES SOBRE LA IATROGENIIA: UN ENFOQUE FENOMENOLÓGICO SOCIOLÓGICO

RESUMO

Objetivo: Esse trabalho visa compreender a percepção da pessoa idosa sobre os efeitos adversos dos medicamentos e outros eventos iatrogênicos decorrentes do uso de polifarmácia. Método: Estudo qualitativo com abordagem fenomenológica, realizado com pessoas idosas cadastradas em três equipes de saúde da família no norte do Espírito Santo. Os dados foram coletados com visitas domiciliares onde os participantes responderam a um questionário semiestruturado. Resultados: Participaram 16 idosos, sendo 75% mulheres, 76% se identificaram como pardos ou negros, 43,75% eram casados e 62,5% residiam com seus companheiros ou outros familiares. Emergiram quatro categorias: conhecimento sobre a iatrogenia; percepção em relação ao uso de múltiplos medicamentos; impacto da iatrogenia; acompanhamento pela atenção primária. Conclusão: A falta de conhecimento da pessoa idosa a respeito dos eventos iatrogênicos favorece a ocorrência de agravos, sendo necessários esclarecimentos e orientações adequadas para essa população, para uma melhor qualidade de vida.

DESCRITORES: Saúde da pessoa idosa; Polimedicação; Reações adversas a medicamentos; Atenção primária à saúde; Pesquisa qualitativa.  

ABSTRACT

Objective: This study aimed to understand older adults' perceptions of adverse drug reactions and other iatrogenic events associated with polypharmacy. Methods: This qualitative study adopted a phenomenological approach and was conducted with older adults registered with three Family Health Strategy teams in northern Espírito Santo, Brazil. Data were collected through home visits, during which participants completed a semi-structured questionnaire. Results: Sixteen older adults participated in the study; 75% were women, 76% self-identified as Black or mixed-race, 43.75% were married, and 62.5% lived with their spouses or other family members. Four categories emerged: knowledge about iatrogenesis; perceptions regarding the use of multiple medications; the impact of iatrogenesis; and follow-up provided by primary health care. Conclusion: Older adults' lack of knowledge about iatrogenic events contributes to the occurrence of adverse outcomes, highlighting the need for appropriate education and guidance to promote better quality of life.

RESUMEN

Objetivo: Comprender la percepción de las personas mayores sobre las reacciones adversas a los medicamentos y otros eventos iatrogénicos asociados con la polifarmacia. Método: Estudio cualitativo con enfoque fenomenológico realizado con personas mayores registradas en tres equipos de la Estrategia de Salud de la Familia del norte de Espírito Santo, Brasil. Los datos se obtuvieron mediante visitas domiciliarias y un cuestionario semiestructurado. Resultados: Participaron 16 personas mayores; el 75% eran mujeres, el 76% se autoidentificó como personas negras o pardas, el 43,75% estaba casado y el 62,5% vivía con familiares o su pareja. Surgieron cuatro categorías: conocimiento sobre la iatrogenia, percepción del uso de múltiples medicamentos, impacto de la iatrogenia y seguimiento en la atención primaria de salud. Conclusión: Es necesario fortalecer la educación sanitaria para prevenir eventos iatrogénicos y mejorar la calidad de vida de las personas mayores.

INTRODUÇÃO

No processo de envelhecimento e as doenças crônicas há um aumento na demanda pelo uso contínuo de medicamentos, o que favorece a polifarmácia e eleva o risco de efeitos adversos e outros eventos iatrogênicos. Atualmente, a população idosa representa o segmento etário de crescimento mais acelerado no Brasil e se destaca como a principal consumidora de medicamentos, tornando-se um problema de saúde pública (1-2).

A definição mais comumente relatada de polifarmácia é o uso de cinco ou mais medicamentos diariamente. Isso geralmente ocorre devido a múltiplas comorbidades, consultas com diferentes especialistas, automedicação e, sobretudo, ao uso de medicamentos além do recomendado no atendimento clínico (3).

Entende-se por iatrogenia medicamentosa qualquer intervenção, seja ela correta ou equivocada, justificada ou não, que resulte em alguma lesão para a saúde do paciente (4).

Vale frisar que os medicamentos ocupam papel central no tratamento, na recuperação da saúde e no controle da maioria das doenças. No entanto, é essencial reconhecer que nenhum fármaco é totalmente isento de riscos, uma vez que todos, em maior ou menor grau, podem desencadear reações adversas. Seu uso varia de acordo com fatores como idade, sexo, condições de saúde, além de aspectos sociais, econômicos e demográficos (4-5).

A iatrogenia é responsável por agravos à saúde dos idosos, tais como quedas, déficits cognitivos, depressão, desnutrição, infecções resistentes, imobilidade, déficits de audição e visão, tonturas, morte prematura, dentre outros. Afeta diretamente a qualidade de vida da pessoa idosa, comprometendo sua capacidade funcional, restringindo-a de suas atividades cotidianas e induzindo ao isolamento social(6).

As pessoas idosas são as principais usuárias dos serviços de saúde e o gasto mensal com medicamentos pode ser exorbitante, o que indica a necessidade de maior capacitação dos profissionais de saúde que se ocupam do cuidado à pessoa idosa e à formulação de políticas que promovam o acesso e o uso racional de medicamentos para evitar iatrogenias(7). Além disso, é fundamental que a pessoa idosa tenha conhecimento que a interação medicamentosa pode trazer efeitos que comprometem a sua qualidade de vida.

Com base nesses pressupostos, este estudo justifica-se por buscar compreender a percepção da pessoa idosa acerca da iatrogenia e o impacto dos eventos iatrogênicos em suas vidas. A partir desse conhecimento, pretende-se contribuir para o aperfeiçoamento da assistência a esse grupo de indivíduos, promovendo, assim, uma melhoria na qualidade de vida. Para tanto, o objetivo deste estudo foi compreender a percepção da pessoa idosa sobre os efeitos adversos dos medicamentos e outros eventos iatrogênicos decorrentes do uso de polifarmácia, além de descrever o impacto da iatrogenia na vida dessas pessoas.

MÉTODO

Trata-se de estudo qualitativo de abordagem fenomenológica compreensiva sociológica de Alfred Schütz(8), realizada em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) que conta com três equipes de Estratégia de Saúde da Família (ESF), responsável pelo atendimento de aproximadamente 21 mil pessoas residentes no balneário Guriri norte e sul, localizado no norte do Espírito Santo. A UBS foi selecionada por conveniência e por ser campo de prática para os estágios curriculares e extracurriculares do curso de graduação em Enfermagem de uma universidade pública.

Contou-se com a colaboração dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que indicaram as pessoas idosas e agendaram as visitas domiciliares para que os pesquisadores pudessem apresentar a pesquisa e realizar a coleta dos dados, em caso de aceite na participação. As visitas ocorreram no mês de setembro de 2022, em dias, horários e locais previamente reservados, de forma a garantir a privacidade e o sigilo da pessoa idosa, considerando os dias de visitas de cada agente de saúde lotado em qualquer ESF e sua disposição em colaborar.

Foram critérios de inclusão: idosos cadastrados nos ESFs que utilizavam mais de cinco medicamentos há mais de quatro anos, que apresentavam doenças crônicas. E exclusão, pessoas idosas com algum déficit cognitivo relatado pela família e/ou com dificuldade de entendimento, identificadas pelos agentes comunitários.

Para a coleta de dados, aplicou-se um formulário semiestruturado, que apresentava perguntas para a identificação do perfil sociodemográfico dos entrevistados, como idade, sexo, estado civil, raça/cor, escolaridade, ocupação, renda e moradia e na sequência perguntas abertas fenomenológicas.

Para a seleção da amostra foi definido o critério de saturação (9), que é usado para estabelecer ou fechar o tamanho final de uma amostra quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição.

A análise foi feita por meio da fenomenologia compreensiva sociológica de Alfred Schütz, dado que, o termo fenomenologia significa estudo dos fenômenos, daquilo que aparece à consciência. Essa análise se faz a partir da categorização dos dados e da denominação dos motivos “para” e “porque”(8).

Os que se relacionam ao alcance dos objetivos, expectativas e projetos são chamados “motivos para” e aqueles que se fundamentam como antecedentes no acervo de conhecimentos na experiência vivida no âmbito biopsicossocial da pessoa são denominados “motivos porque” (8,10).

Para compreender a percepção dos idosos acerca da iatrogenia, onde os “motivos para e porque” dizem que a ação interpretada pelo sujeito a partir de seus motivos existenciais, derivados das vivências inscritas na subjetividade, constituem fios condutores da ação no mundo social.

Portanto, a partir do fenômeno que é a percepção do idoso acerca da iatrogenia, ou seja, a ação social dos idosos numa relação face a face com o pesquisador dá voz, pois este idoso traz nas falas  a bagagem de conhecimento vivências e experiências nas suas subjetividades. Tal dialogo vai gerando intersubjetividades entre as pessoas do grupo, expressado nas falas com os motivos para e motivos porque.

Por se tratar de uma pesquisa envolvendo seres humanos, foram consideradas as seguintes resoluções: a Resolução CNS/MS n° 466/2012 e, por ter sido realizada no âmbito da Unidade Básica de Saúde do SUS, a Resolução CNS/MS n° 580/18. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), da Universidade Federal do Espírito Santo, conforme parecer do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) de número 5.579.221. Após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), iniciou-se a coleta de dados, sendo os participantes identificados pela sigla PI (Pessoa Idosa), seguida de numeração sequencial, iniciando-se pelo numeral 1 e obedecendo a ordem das entrevistas, a fim de manter o sigilo e o anonimato.

RESULTADOS

Foram entrevistadas 16 pessoas idosas cadastradas nas UBSs, apesar da saturação dos dados ter ocorrido a partir da décima segunda entrevista.

De acordo com os dados sociodemográficos, a maioria dos participantes era composta por mulheres (75,00%) e pessoas que se autodeclararam pardas ou pretas (75,00%), com faixa etária entre 60 e acima de 80 anos de idade (100,00%). Em relação ao estado civil, 43,75% eram casados, 43,75% viúvos e 12,5% divorciados/separados. Além disso, 37,50% moravam sozinhos, enquanto 62,50% residiam com companheiros, filhos ou outros familiares.

Todos os participantes desta pesquisa tinham a aposentadoria como principal fonte de renda, com ganhos variando entre um e seis salários-mínimos. A maioria (75,00%) recebia renda mensal de 1 a 3 salários-mínimos. Além disso, quase a metade (43,75%) não terminou o ensino fundamental, e um participante não tinha escolaridade.

Após a caracterização sociodemográfica dos participantes e leitura das entrevistas, procedeu-se a uma análise com base na fenomenologia compreensiva de Alfred Schütz, emergindo das falas quatro categorias que permitiram compreender a percepção dos idosos acerca da iatrogenia e entender os motivos para e os motivos porque a seguir:

Categoria 1- Conhecimento sobre a iatrogenia

É possível observar a falta de conhecimento dos idosos em relação ao termo iatrogenia. Dos 16 participantes, apenas um referiu conhecer o significado.

A iatrogenia são doenças causadas por remédios, pelo próprio tratamento, tipo efeitos colaterais [...] (PI 10).

A partir das experiências em seu cotidiano, os idosos concederam as respostas do seu entendimento e conhecimento acerca dos eventos iatrogênicos. Sendo assim, foi possível notar que, quando perguntado se sentiam algum efeito adverso ao fazerem uso dos medicamentos, observou-se que alguns participantes acreditaram ter tido problemas em função de interação medicamentosa, como demonstrado nas falas a seguir.

[...] mas já aconteceu comigo, eu tive que ficar internada por 30 dias por causa de medicamento, que um não combinou com o outro e deu ferimento no estômago [...] (PI 6).

“[...] quando comecei tomar os medicamentos deu uma coisa estranha, mas conversei com a doutora, foi diminuindo. Até desmaiei uma vez, suando frio [...] (PI 8).

Em relação ao uso de vários medicamentos, foi possível identificar a percepção dos participantes sobre o próprio envelhecimento, além de como o consumo excessivo e inadequado de medicamentos pode resultar em sérias complicações para a sua saúde.

Eu não acho muito bom não, mas posso fazer o que meu filho? Faz parte da vida envelhecer [...] (PI 2).

Não é coisa boa não, por que até quando eu vou ficar tomando esses medicamentos, eu não posso parar [...] (PI 6).

Categoria 2- Percepção em relação ao uso de múltiplos medicamentos

Quando questionados sobre qual o significado desses medicamentos para a saúde, os discursos ressaltaram a consciência acerca da importância do tratamento medicamentoso na recuperação da saúde.

[...] eles ajudam muito, minha pressão estava muito alta, oscilando, subindo e descendo, fui no cardiologista, aí tomando melhora [...] (PI 8).

As falas demonstraram também o entendimento do impacto negativo do uso incorreto dos medicamentos e da noção de que o uso de medicamentos de forma inadequada pode prejudicar a saúde.

[...] se tomar errado pode ter complicação [...] (PI 1).

[...] olho na bula para conferir e não tomar errado [...] (PI 2).

[...] bem difícil eu tomar medicamento por conta própria, automedicar [...] (PI 9).

As percepções acerca das complicações em que o uso inadequado de medicamentos pode acarretar explicitam os “motivos para”.

Nota-se a preocupação dos idosos com as possíveis consequências do uso inadequado das medicações. Essa preocupação os leva a seguir o tratamento prescrito pelo médico, como evidenciado nas respostas dos idosos, que confirmaram tomar os medicamentos corretamente. Apenas uma senhora mencionou ter se esquecido de tomar o medicamento.

[...] eu tomo certinho, as vezes acontece de eu ficar na dúvida se tomei, mas aí me orientaram a não tomar naquele dia [...] (PI 9).

Categoria 3- Impacto da iatrogenia

Os participantes relataram que os eventos iatrogênicos interferiram negativamente na qualidade de vida, comprometendo sua capacidade funcional, dificultando as atividades cotidianas e contribuindo para o isolamento social, como consta na fala de uma pessoa idosa.

Eu gostava de ficar lendo umas três a quatro horas, lendo a bíblia, e aí agora 20 minutos no máximo, aí eu já peço pra deitar [...] (PI 10).

[...] outro de pressão que eu não tomo mais, por que estou me sentindo mal, tinha hora que tomava ele, achava meio [...], por isso parei, sentia meio tonto [...] (PI 1).

Categoria 4- Acompanhamento pela atenção primária

A partir da análise das entrevistas, foi possível compreender que os idosos possuem entendimento sobre a importância do acompanhamento regular por meio de consultas periódicas para a revisão da lista de medicamentos prescritos pelos profissionais de saúde.

Sempre sou acompanhada pela médica aqui do postinho [...] (PI 9).

Tinha um medicamento que me dava sono demais e o médico parou [...] (PI 12).

DISCUSSÃO 

O perfil sociodemográfico encontrado neste estudo foi semelhante ao descrito na literatura, evidenciando predominância do sexo feminino, baixa escolaridade e renda entre um e três salários mínimos. Estudos apontam que as mulheres brasileiras procuram os serviços de saúde com maior frequência do que os homens, o que pode favorecer maior exposição ao uso de medicamentos prescritos e não prescritos e, consequentemente, aumentar o risco de eventos iatrogênicos. Além disso, o baixo nível de escolaridade observado entre os participantes constitui um importante fator associado ao desenvolvimento de doenças crônicas e ao uso de múltiplos medicamentos. Essa condição geralmente reflete um contexto socioeconômico desfavorável, contribuindo para maior vulnerabilidade às iatrogenias (11-12).

A interpretação dos achados foi fundamentada na fenomenologia compreensiva de Alfred Schütz, que compreende a ação humana a partir dos “motivos porque”, relacionados às experiências vividas, e dos “motivos para”, direcionados às intenções e objetivos futuros (5). Essa abordagem permitiu compreender a percepção dos idosos sobre a iatrogenia a partir de suas vivências e da forma como atribuem significado ao uso dos medicamentos.

Em relação ao conhecimento sobre a iatrogenia, verificou-se que a maioria dos participantes desconhecia o termo, embora demonstrasse reconhecer situações relacionadas a efeitos adversos e interações medicamentosas quando questionada sobre suas experiências. Esse resultado reforça a fragilidade do conhecimento da população acerca do autocuidado e da segurança no uso de medicamentos. A literatura destaca que a educação em saúde constitui um direito garantido pelo Sistema Único de Saúde e que estratégias educativas favorecem a ampliação do conhecimento da população, contribuindo para a identificação precoce de sinais de alerta e para a promoção da qualidade de vida (13). De forma semelhante, Autores (14) afirmam que as interações medicamentosas ainda são pouco compreendidas pela população, principalmente pela ausência de orientações adequadas durante o acompanhamento em saúde.

O desconhecimento do termo “iatrogenia” pode estar relacionado ao uso de linguagem técnica durante a entrevista e ao baixo nível de escolaridade dos participantes, configurando uma possível limitação metodológica. Entretanto, os relatos demonstraram que os idosos possuíam conhecimento empírico sobre os efeitos adversos dos medicamentos, adquirido por meio de suas experiências pessoais. Sob a perspectiva de Schütz (8), essas experiências representam os “motivos porque”, uma vez que as ações e percepções dos indivíduos são construídas a partir das vivências acumuladas ao longo da vida.

Quanto à percepção sobre o uso de múltiplos medicamentos, observou-se que os participantes reconheciam a importância da terapêutica medicamentosa para o controle das doenças crônicas, mas também demonstravam preocupação com o uso excessivo e inadequado desses medicamentos. Esse achado está em consonância com Conti, Sañudo e Ramos (15), que ressaltam que frequentemente ocorre excesso de prescrições para pessoas idosas, reforçando que a farmacoterapia deve ser individualizada e utilizada apenas quando realmente necessária. O envelhecimento favorece o aparecimento de doenças crônicas e, consequentemente, da polifarmácia, tornando a pessoa idosa mais suscetível aos eventos iatrogênicos. Além disso, a automedicação representa um importante fator agravante, pois aumenta o risco de interações medicamentosas e reações adversas (16).

Ainda nessa categoria, embora a maioria dos idosos afirmasse utilizar corretamente os medicamentos, alguns demonstraram dificuldade em identificar todos os fármacos utilizados e suas respectivas indicações terapêuticas. Esse resultado evidencia que a adesão ao tratamento não depende apenas do seguimento da prescrição, mas também da compreensão adequada sobre o uso dos medicamentos. O uso incorreto pode comprometer o tratamento, agravar doenças preexistentes e aumentar significativamente o risco de eventos iatrogênicos (15). Sob a perspectiva fenomenológica, as atitudes de seguir corretamente a prescrição médica refletem os “motivos para”, uma vez que representam ações direcionadas à manutenção da saúde e à prevenção de complicações futuras (8).

No que se refere ao impacto da iatrogenia, os relatos evidenciaram prejuízos à qualidade de vida, limitações funcionais e interrupção do tratamento em decorrência dos efeitos adversos dos medicamentos. Esses achados corroboram estudos que demonstram que o uso indiscriminado de medicamentos compromete a funcionalidade da pessoa idosa e reduz sua qualidade de vida. Estima-se que idosos utilizem, em média, entre quatro e seis medicamentos diariamente, número que tende a aumentar com o avanço da idade e com a presença de múltiplas morbidades, potencializando os riscos associados à polifarmácia (16). Além disso, reações adversas podem levar à suspensão ou ao abandono do tratamento, comprometendo sua eficácia e favorecendo novos agravos à saúde (17).

Em relação ao acompanhamento pela Atenção Primária à Saúde, os resultados evidenciaram que os participantes reconhecem a importância das consultas periódicas e da revisão das prescrições medicamentosas pelos profissionais de saúde. A literatura destaca que o monitoramento das prescrições é responsabilidade da equipe de saúde e deve ser realizado de forma individualizada, contribuindo para a prevenção de incidentes relacionados à segurança do paciente e às iatrogenias (18). Embora a polifarmácia faça parte da rotina do cuidado à pessoa idosa, especialmente na Atenção Básica, seu uso deve ser constantemente reavaliado para evitar prescrições inadequadas, sobretudo entre indivíduos com menor escolaridade e vulnerabilidade socioeconômica (19).

Nesse contexto, orientações insuficientes podem gerar dúvidas, interpretações equivocadas e erros no uso dos medicamentos. Dessa forma, torna-se fundamental fortalecer a comunicação entre profissionais e usuários, estabelecendo vínculo e relação de confiança capazes de favorecer a identificação precoce de efeitos adversos e dificuldades relacionadas ao tratamento (17,19). Além disso, a atuação interdisciplinar das equipes da Estratégia Saúde da Família contribui para diferenciar manifestações decorrentes do processo de adoecimento daquelas provocadas por reações adversas aos medicamentos, possibilitando ajustes na terapêutica e acompanhamento contínuo da pessoa idosa (19-20).

Destaca-se, ainda, a importância da capacitação dos profissionais de saúde que prestam cuidados às pessoas idosas, bem como da formulação de políticas públicas que promovam o acesso a medicamentos por essa população, incentivando o uso racional desses fármacos para evitar iatrogenias (11).

Dessa forma, evidencia-se a importância do acompanhamento e do olhar sensível e individual do profissional de saúde da atenção primária para prevenir a exposição da pessoa idosa a múltiplos fármacos, o que pode favorecer interações medicamentosas e reações adversas que afetam sua qualidade de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pessoas idosas são os pacientes mais vulneráveis às iatrogenias e aos efeitos adversos de medicamentos, devido às alterações decorrentes do processo natural de envelhecimento, que exigem cuidados especiais, principalmente com o surgimento de doenças crônicas.

Constatou-se que a falta de conhecimento da pessoa idosa a respeito dos eventos iatrogênicos favorece a ocorrência de agravos. Nesse sentido, são necessários esclarecimentos e orientações adequadas sobre a iatrogenia para essa população, a fim de promover uma melhor qualidade de vida. O desconhecimento é o principal impacto da iatrogenia na vida das pessoas idosas, conforme evidenciado por suas vivências e experiências relatadas.

Diante disso, é essencial realizar revisões periódicas dos medicamentos prescritos, fornecendo orientações claras e adaptadas à linguagem que possa ser facilmente compreendida, considerando sempre as singularidades e vulnerabilidades da pessoa idosa.

Conclui-se que a iatrogenia pode ser compreendida como um problema de saúde pública, uma vez que falhas nas condutas da equipe podem ocorrer quando os profissionais não conhecem o paciente em sua total singularidade. Tais falhas e/ou omissões podem acontecer desde o acolhimento da pessoa idosa até o acompanhamento contínuo por parte da equipe multidisciplinar.

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Roberta Coelho De Marco

Secretária Municipal de Saúde de Governador Valadares

Rua Peçanha, 1009, Centro – 35010161- Governador Valadares, MG – Brasil

robertinhacoelho@hotmail.com +55 (33) 99180-8080

Valquíria Camin de Bortoli

Universidade Federal do Espírito Santo, Centro Universitário Norte do Espírito Santo - CEUNES, Departamento de Ciências da Saúde - DCS.

BR 101, Km 60, Litorâneo - 29932540 - São Mateus, ES – Brasil

valquiria.bortoli@ufes.br - +55 (27) 98878-4825

Alaianne Moreira de Souza: Acadêmica de Enfermagem, Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0009-0000-1940-6156. 

Adriana Nunes Morais Partelli: Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente na Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9978-2994

Bruno De-Bruym Ferrarine: Acadêmico de Enfermagem. Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0009-0007-9144-7068

Marta Pereira Coelho: Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente na Universidade Federal do Espírito Santo –  CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2046-6954. 

Milânia Effgen Caran: Enfermeira. Mestre em Ciência, Tecnologia e Educação e Especialista em Enfermagem em Estomaterapia, Feridas e Incontinências. Docente na Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0009-0006-1208-460209-0006-1208-4602

Murilo Soares Costa: Enfermeiro. Doutor em Infectologia e Medicina Tropical. Docente na Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-5688-4824

Roberta Coelho De Marco: Médica . Especialista em Medicina de Família e Comunidade. Secretária Municipal de Saúde de Governador Valadares-MG, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0009-0008-2557-850X

Valquíria Camin de Bortoli: Farmacêutica. Doutora em Farmacologia. Docente na Universidade Federal do Espírito Santo – CEUNES, São Mateus-ES, Brasil. Orcid: https://orcid.org/0000-0001-5801-8447