RISCO DE ASPIRAÇÃO: CRIAÇÃO DE OBJETO DE APRENDIZAGEM PARA ENFERMAGEM UTILIZANDO ULTRASSOM GÁSTRICO

ASPIRATION RISK: DEVELOPMENT OF A LEARNING OBJECT FOR NURSING USING GASTRIC ULTRASONOGRAPHY

RIESGO DE ASPIRACIÓN: DESARROLLO DE UN OBJETO DE APRENDIZAJE PARA ENFERMERÍA MEDIANTE ECOGRAFÍA GÁSTRICA

Marcella Barreto Maia Caldas (autor responsável)
Enfermeira. Universidade do Estado do Rio de Janeiro

E-mail: marcella.barreto@outlook.com. Telefone: (21) 994070154
Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-6884-7417 

Gabriella de Carvalho Lourenço de Souza
Enfermeira. Universidade Veiga de Almeida
Orcid:
https://orcid.org/0009-0000-7706-3980

Andrezza Serpa Franco
Doutora em Enfermagem. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-5008-1345

Elson Santos de Oliveira
Doutor em Enfermagem. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-9377-0140

Josiana Araujo de Oliveira
Doutora em Enfermagem. Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Orcid:
https://orcid.org/0000-0001-6625-4685

Carolina da Costa Lipari
Enfermeira especialista. Universidade Veiga de Almeida.
Orcid:
https://orcid.org/0000-0003-2411-2659

RESUMO

Objetivo: Desenvolver um protótipo de objeto de aprendizagem para apoiar profissionais de enfermagem na realização da ultrassonografia gástrica em internados na Unidade de Terapia Intensiva. Método: Estudo exploratório e descritivo, voltado à criação de um objeto de aprendizagem para auxiliar o uso do ultrassom gástrico por enfermeiros. Resultado: Desenvolvido um card interativo com QR Code, destinado ao ensino da ultrassonografia gástrica e da avaliação do risco de broncoaspiração. O protótipo foi avaliado por 17 participantes por meio de formulário eletrônico. Conclusão: O material mostrou-se útil para ampliar conhecimentos e desenvolver habilidades. Com base nas sugestões dos participantes, foi elaborada uma versão aprimorada do card, tornando-o mais completo e aplicável à prática clínica e ao processo de ensino assistencial.

DESCRITORES: Ultrassonografia; Aprendizagem; Enfermagem; Aspiração Respiratória de Conteúdos Gástricos; Unidades de Terapia Intensiva.

ABSTRACT

Objective: To develop a prototype learning object to support nursing professionals in performing gastric ultrasonography in patients admitted to the Intensive Care Unit. Method: Exploratory and descriptive study aimed at developing a learning object to support nurses in the use of gastric ultrasound. Results: An interactive card with a QR Code was developed to support the teaching of gastric ultrasonography and the assessment of aspiration risk. The prototype was evaluated by 17 participants through an electronic questionnaire. Conclusion: The material proved useful for expanding knowledge and developing skills. Based on the participants’ suggestions, an improved version of the card was developed, making it more comprehensive and applicable to clinical practice and nursing education.

DESCRIPTORS: Ultrasonography; Learning; Nursing; Respiratory Aspiration of Gastric Contents; Intensive Care Units.

RESUMEN 

Objetivo: Desarrollar un prototipo de objeto de aprendizaje para apoyar a los profesionales de enfermería en la realización de la ecografía gástrica en pacientes ingresados en la Unidad de Cuidados Intensivos. Método: Estudio exploratorio y descriptivo, orientado al desarrollo de un objeto de aprendizaje para facilitar el uso de la ecografía gástrica por enfermeros. Resultados: Se desarrolló una tarjeta interactiva con código QR, destinada a la enseñanza de la ecografía gástrica y la evaluación del riesgo de broncoaspiración. El prototipo fue evaluado por 17 participantes mediante un formulario electrónico. Conclusión: El material demostró ser útil para ampliar conocimientos y desarrollar habilidades. A partir de las sugerencias de los participantes, se elaboró una versión mejorada de la tarjeta, haciéndola más completa y aplicable a la práctica clínica y al proceso de enseñanza en enfermería.

DESCRIPTORES: Ultrasonografía; Aprendizaje; Enfermería; Aspiración Respiratoria de Contenidos Gástricos; Unidades de Cuidados Intensivos.

INTRODUÇÃO

Com os avanços tecnológicos, os equipamentos de ultrassonografia tornaram-se mais compactos e portáteis, mantendo alta qualidade de imagem. Assim, a ultrassonografia à beira-leito tornou-se uma realidade, consistindo em uma extensão do exame físico a fim de complementar a propedêutica aplicada aos pacientes. Essa técnica de ultrassom à beira leito, o qual é focado, denomina-se ultrassonografia point-of-care (POCUS)1.

Diante deste contexto, a relação da prática de enfermagem com a ultrassonografia, iniciou-se através de um parecer do Conselho Federal nº 206/2015/COFEN para realização de Ultrassonografia Obstétrica, a qual teve sua normatização conforme Resolução COFEN nº 627/2020, visando uma maior autonomia na assistência. Ademais, outro parecer do Conselheiro Federal nº 243/2017/COFEN, o qual, diz respeito à normatização do procedimento de inserção, fixação, manutenção e retirada do cateter central de inserção periférica (PICC) por Enfermeiro com o auxílio do ultrassom2,3,4.

Recentemente, o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), aprovou a Resolução nº 679/2021, a qual normatiza a realização de Ultrassonografia à beira do leito e no ambiente pré-hospitalar por enfermeiro. Dessa maneira, deverá o profissional enfermeiro ter a capacitação específica em Ultrassonografia, e é vedada a ele realizar a emissão de laudo de ultrassonografia, bem como não poderá utilizá-la para fins de diagnóstico nosológico. Nesse cenário, o COFEN estabelece como direito profissional, exercer a enfermagem com autonomia e segurança5.

Com a utilização do POCUS, a ultrassonografia gástrica permite avaliar qualitativa e quantitativamente o conteúdo gástrico, diferenciando estômago vazio de presença de conteúdo sólido ou líquido e contribuindo para a estratificação do risco de broncoaspiração. Dessa forma, o POCUS torna-se uma ferramenta importante para avaliar o conteúdo estomacal e auxiliar na tomada de decisões clínicas, principalmente quando o risco de aspiração é incerto6.

O enfermeiro é habilitado para o manuseio da ultrassonografia, porém seu uso ainda é recente na prática profissional e pouco abordado na formação acadêmica, evidenciando a necessidade de materiais educativos e protocolos7. Diante disso, o problema de pesquisa foi: os profissionais de enfermagem dominam a realização da ultrassonografia gástrica com intuito de avaliar o risco de broncoaspiração? O objetivo foi desenvolver um protótipo de objeto de aprendizagem direcionado aos profissionais de enfermagem para facilitar a realização do ultrassom gástrico à beira-leito em pacientes adultos internados em terapia intensiva, visando à avaliação do risco de broncoaspiração.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, caracterizado como pesquisa aplicada à produção tecnológica, realizado em outubro de 2024, com o objetivo de desenvolver um protótipo de objeto de aprendizagem para facilitar o uso do ultrassom gástrico pela enfermagem. O protótipo foi elaborado com base na literatura científica e consiste em um Card físico e visual, posicionado junto ao aparelho de ultrassom, contendo o passo a passo da insonação gástrica e um QR Code com acesso a vídeo educativo, facilitando a consulta e a aprendizagem da técnica.

O estudo foi desenvolvido em um hospital universitário localizado no município do Rio de Janeiro, em uma unidade de terapia cardio-intensiva cirúrgica, onde as atividades foram realizadas em um ambiente estruturado para treinamentos, configurado para simular um leito hospitalar equipado com aparelho de ultrassonografia e em uma UTI geral, onde a coleta de dados ocorreu em contexto assistencial real, à beira do leito, durante a realização do exame físico de pacientes internados, conduzida por acadêmicos de enfermagem.

Os participantes do estudo foram acadêmicos de enfermagem das Universidades públicas e privadas que realizavam o campo prático para estágio supervisionado, bem como residentes de enfermagem de programas que transitavam na unidade. Foram excluídos do estudo acadêmicos e residentes afastados, licenciados e os voluntários para realização do exame que apresentaram qualquer alteração ao achado clínico durante o exame que houve necessidade de intervenção ou atuação da equipe multidisciplinar.

O desenvolvimento do protótipo ocorreu em cinco fases: análise, design, desenvolvimento, aplicação e avaliação, envolvendo acadêmicos e residentes de enfermagem. Na análise, realizou-se levantamento bibliográfico sobre a técnica de ultrassonografia, enquanto o design contemplou estratégias pedagógicas e tecnológicas para elaboração de um objeto educacional visual e de fácil utilização. A avaliação foi realizada por meio de escala Likert de satisfação e usabilidade, com amostra aleatória, intencional e não probabilística de acadêmicos e residentes de enfermagem.

Para caracterizar a amostra da pesquisa foi realizado um formulário do tipo google forms ® para caracterização dos participantes. Este formulário abordou também os dados da escala Likert após a realização do uso de ultrassom com uso do protótipo e neste mesmo formulário foi inserido o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participação da pesquisa.

Para a análise de dados, as respostas foram retiradas do resumo do google forms®️ agrupadas e categorizadas por dimensões:  1) Visualização e design do Card por meio da escala Likert 2) Compreensão da temática por meio da escala Likert 3) Opinião dos participantes. A escala então foi composta por 5 asserções por concordância, a saber: concordo totalmente, concordo, não concordo e nem discordo, discordo e discordo totalmente. Posteriormente, foram gerados gráficos através do software da plataforma do google forms®, contendo as respostas dos participantes e para porterior análise.

Ressalte-se que a pesquisa em tela faz parte de um projeto de iniciação científica intitulado:” Congestão pulmonar na insuficiência cardíaca: O uso de ultrassom por enfermeiros”, e se encontra consonante com a Resolução nº 466 de 2012 do Conselho Nacional de Saúde que regulamenta a Pesquisa envolvendo seres humanos e aprovado pelo Parecer Consubstanciado do CEP 6.268.007. Este projeto possui objetivo de elaborar objetos de aprendizagem com uso do ultrassom.

RESULTADOS

Como produto desta pesquisa, foi desenvolvido um protótipo de um objeto de aprendizagem (OA) por meio da representação visual de um instrumento (Card) associado a um QR code, o qual direciona a um vídeo explicativo de apoio à realização do exame de ultrassom gástrico.

Figura 1: Frente da primeira versão do protótipo do OA para realização do exame de USG gástrica. Rio de Janeiro, 2024.

Fonte: Os autores, 2024.

Figura 2:  Verso da primeira versão do protótipo do OA para realização do exame de USG gástrica. Rio de Janeiro, 2024.

Fonte: Os autores, 2024.

 O estudo contou com 17 voluntários, sendo 14 acadêmicos de Enfermagem do 10º período e 3 residentes de Enfermagem. Os participantes receberam o Card e assistiram ao vídeo explicativo por meio do QR Code antes da realização da insonação. Após a prática, avaliaram a satisfação e usabilidade do protótipo por meio de escala Likert, em formulário eletrônico do tipo google forms®️. Os dados foram compilados e apresentados em gráficos, conforme as respostas obtidas.

DISCUSSÃO

Com relação à experiência prévia com o ultrassom, 47,1% dos participantes nunca haviam utilizado o aparelho à beira-leito, evidenciando que a prática do POCUS ainda está em fase inicial na Enfermagem. A limitada disponibilidade dos equipamentos e a ausência de ensino sistematizado na graduação dificultam a aprendizagem da técnica, reforçando a necessidade de atualização acadêmica e capacitação profissional para qualificar seu uso na prática clínica5,7.

Quanto à legibilidade das fontes utilizadas no card, 64,7% dos participantes concordaram totalmente e 35,3% concordaram. Em relação às cores, 70,6% concordaram totalmente e 29,4% concordaram com a escolha realizada. Esses resultados demonstram boa aceitação dos elementos visuais do material, destacando a importância de um design gráfico adequado para organizar as informações de forma clara e facilitar a compreensão8,9,10.

Em relação às imagens utilizadas no card, 88,2% dos participantes concordaram ou concordaram totalmente com sua adequação, enquanto 5,9% permaneceram neutros e 5,9% discordaram, indicando boa aceitação, embora haja necessidade de aprimorar a nitidez das imagens. Quanto à clareza das instruções, 100% dos participantes concordaram ou concordaram totalmente, reforçando a importância de uma comunicação objetiva no processo de ensino-aprendizagem. Esse resultado é relevante, especialmente por não ter sido realizado treinamento prévio, evidenciando o potencial do card como recurso instrucional para apoiar a aprendizagem11.

Em relação à influência do modelo de aparelho de ultrassom na aplicabilidade do Card, as respostas foram divergentes: 35,3% concordaram totalmente, 23,5% concordaram, 17,6% foram neutros e 23,5% discordaram. Observou-se ausência de padronização dos equipamentos na unidade, além de dificuldades em sua utilização, sendo necessária a intervenção das pesquisadoras para ligar o aparelho e conectar o probe. Nesse contexto, a padronização das tecnologias pode minimizar variáveis12.

Já no aprendizado sobre o uso do ultrassom e a localização do antro gástrico ocorrem com facilidade, observou-se que, 58,8% dos participantes concordam totalmente, 35,3% apenas concordam e 5,9% não concordam e nem discordam da facilidade em utilizar o ultrassom e encontrar o antro gástrico. Apesar de ser uma tecnologia nova e recém aplicada, o manuseio do POCUS não ocorreu de maneira dificultosa, necessitando de um maior treinamento prévio de acordo com as especificidades do aparelho disponível.

Acerca da possibilidade de aprender a realizar a mensuração do risco de aspiração por meio das imagens explicativas e do cálculo apresentado no card, verificou-se que 64,7% dos participantes concordaram totalmente, 29,4% concordaram e 5,9% discordaram. Apesar do elevado índice de concordância (90%), observou-se que foi necessária a intervenção das pesquisadoras para auxiliar na execução do cálculo. O cálculo da mensuração do conteúdo gástrico não é de simples realização. Com isso, é possível entender que apesar da explicação contida no Card, ainda há a necessidade de um treinamento prévio a respeito do assunto.

No âmbito da avaliação do vídeo como recurso instrucional, constatou-se que 76,5% dos participantes concordaram totalmente, 17,6% concordaram e 5,9% permaneceram neutros quanto à sua aplicabilidade na explicação da técnica. O vídeo, acessível por meio do QR Code disponibilizado no card, apresenta de forma visual todos os passos necessários para a realização da insonação gástrica, alinhando-se ao conteúdo escrito.

Dessa forma, a partir das contribuições dos participantes e da análise dos resultados obtidos, foi elaborado um novo instrumento de aprendizagem.

Figura 4: Frente do Card final reformulado. Rio de Janeiro, 2024.

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

Descrição gerada automaticamente

Fonte: Os autores, 2024.

Figura 5: Verso do Card final reformulado. Rio de Janeiro, 2024.

Fonte: Os autores, 2024.

Em relação às alterações realizadas no card, foi inserida uma imagem demonstrando o posicionamento anatômico do antro gástrico, considerando a dificuldade observada em sua identificação. Também foi aprimorada a qualidade das imagens e adicionadas novas representações do estômago em diferentes condições, incluindo conteúdo sólido em estágio inicial, conteúdo sólido em estágio tardio e conteúdo líquido com presença de bolhas de gás. Além disso, foi realizada alteração da tabela, visando aprimorar a apresentação e a compreensão das informações.

CONCLUSÃO

Durante as práticas, observou-se grande entusiasmo dos participantes, especialmente pelo aprendizado do uso do ultrassom e pela identificação do antro gástrico. Esse entusiasmo pode ter influenciado as respostas ao formulário, caracterizando possível viés de confundimento entre o conhecimento adquirido e a empolgação durante a experiência. O OA desenvolvido em formato de card, mostrou-se satisfatório, contribuindo para a aquisição de conhecimentos teórico-práticos e o desenvolvimento de habilidades na ultrassonografia gástrica e avaliação do risco de broncoaspiração.

Apesar dos resultados positivos, foram identificadas dificuldades no manuseio do equipamento e na compreensão de aspectos anatômicos e fisiológicos, evidenciando a necessidade de treinamentos prévios e sistematizados. As contribuições dos participantes permitiram aprimorar o protótipo, tornando-o mais completo e adequado às demandas práticas. Conclui-se que o OA apresenta potencial como estratégia complementar no ensino da enfermagem e na qualificação da assistência, recomendando-se novos estudos com amostras maiores e diferentes cenários clínicos.

REFERÊNCIAS

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  2. COFEN. Parecer de Conselheiro Federal Nº 206/2015/COFEN. Realização de ultrassonografia obstétrica por enfermeiro obstétrico. Available from: https://www.cofen.gov.br/parecer-de-conselheiro-federal-no-206-2015-cofen_36192.html
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  4. COFEN. Resolução COFEN Nº 627/2020. Normatiza a realização de ultrassonografia obstétrica por enfermeiro obstétrico. Available from: https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-627-2020_78475.html
  5. COFEN. Resolução Nº 679/2021. Aprova a normatização da ultrassonografia à beira do leito e no ambiente pré-hospitalar por enfermeiro. Available from: https://www.cofen.gov.br/resolucao-no-679-2021_86856.html
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