ELETROESTIMULAÇÃO APLICADA À CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS CUTÂNEAS: REVISÃO INTEGRATIVA.
ELECTROTHERAPY APPLIED TO SKIN WOUND HEALING: INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW.
ELECTROTERAPIA APLICADA A LA CICATRIZACÓN DE HERIDAS CUTÂNEAS: REVISIÓN BIBLIOGRÁFICA INTEGRADORA.
Francisco de Assis Nascimento de Lima. Enfermeiro. Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicada à Regeneração Tecidual da UNIFESP. São Paulo. Brasil. E-mail: franlima3415@gmail.com. orcid.org/0009-0001-2169-2689.
Heitor Francisco de Carvalho Gomes: graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo. Doutorado em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo. Professor Orientador do Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual da UNIFESP.Orcid.org/0000-0002-1464-673X.
Leila Blanes: graduação em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo. Doutora em Ciências pelo Programa de Pós Graduação em Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo. Docente permanente do Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão aplicadas à Regeneração Tecidual da Unifesp. orcid.org/0000- 0002-6922-7719
Lydia Masako Ferreira: graduação em medicina. Doutorado em Cirurgia Plástica Reparadora – UNIFESP. Pós Doc University of California, San Francisco. Livre Docência-UNIFESP. Profª. Titular da Disciplina Cirurgia Plástica UNIFESP.orcid.org/0000-0003-4587-509X.
Autor correspondente:
Francisco de Assis Nascimento de Lima
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Setor: Costa Esmeralda Norte
CEP:77829-016 Araguaína-TO
Telefone (63) 981538856
ELETROESTIMULAÇÃO APLICADA À CICATRIZAÇÃO DE FERIDAS CUTÂNEAS: REVISÃO INTEGRATIVA.
RESUMO
Objetivo: Identificar os tipos de eletroestimulação (EE) descritos na literatura para o tratamento de feridas cutâneas. Método: Revisão integrativa da literatura nas bases de dados eletrônicos: Scielo, LILACS, MEDLINE via PubMed Central de Janeiro 2017 a dezembro 2025. Foi utilizado como estratégia de busca a ferramenta PICO para artigos redigidos em português, inglês e espanhol. Foram incluídos artigos originais com texto completo alinhados ao objeto da pesquisa. Resultados: Foram selecionados 05 artigos. A maioria dos estudos demonstrou cicatrização acelerada de feridas com o uso de eletroestimulação em comparação com a terapia padrão e placebo. Existem diversas modalidades de EE disponíveis e utilizadas com sucesso para a cicatrização de feridas; no entanto, o número de estudos tem variação em quantidade e qualidade entre diferentes modos de aplicação. Conclusão: a eletroestimulação demonstra grande potencial terapêutico ao estimular os processos de cicatrização em vários tipos de feridas. Entretanto, o efeito da EE ainda não está claro. São necessários mais estudos, nos quais as evidências cientificas possam definir os fatores que potencializam a eficácia da EE.
DESCRITORES: Ferimentos e lesões; Cicatrização de Feridas; Terapia de Estimulação elétrica.
ELECTROTHERAPY APPLIED TO SKIN WOUND HEALING: INTEGRATIVE LITERATURE REVIEW.
ABSTRACT
Objective: To identify the types of electrical stimulation (ES) described in the literature for the treatment of cutaneous wounds. Method: An integrative literature review was conducted using the electronic databases SciELO, LILACS, and MEDLINE (via PubMed Central) for the period from January 2017 to December 2025. The PICO framework was used as the search strategy for articles written in Portuguese, English, and Spanish. Original full-text articles relevant to the research topic were included. Results: Five articles were selected. Most studies demonstrated accelerated wound healing with the use of electrical stimulation compared to standard therapy and placebo. Various ES modalities are available and successfully used for wound healing; however, the number of studies varies in quantity and quality across different application modes. Conclusion: Electrical stimulation demonstrates significant therapeutic potential by stimulating healing processes in various types of wounds. However, the specific effects of ES remain unclear. Further studies are needed to provide scientific evidence defining the factors that enhance the efficacy of ES.
KEYWORDS: Wounds and injuries; Wound healing; Electrical stimulation therapy.
ELECTROTERAPIA APLICADA A LA CICATRIZACÓN DE HERIDAS CUTÂNEAS: REVISIÓN BIBLIOGRÁFICA INTEGRADORA.
RESUMEN
Objetivo: Identificar los tipos de electroestimulación (EE) descritos en la literatura para el tratamiento de heridas cutáneas. Método: Revisión bibliográfica integradora en las bases de datos electrónicas: Scielo, LILACS, MEDLINE vía PubMed Central desde enero de 2017 hasta diciembre de 2025. Se utilizó la herramienta PICO como estrategia de búsqueda para artículos escritos en portugués, inglés y español. Se incluyeron artículos originales con texto completo alineado con el objetivo de la investigación. Resultados: Se seleccionaron cinco artículos. La mayoría de los estudios demostraron una cicatrización acelerada de las heridas con el uso de electroestimulación en comparación con la terapia estándar y el placebo. Existen varias modalidades de EE disponibles y utilizadas con éxito para la cicatrización de heridas; sin embargo, el número de estudios varía en cantidad y calidad entre los diferentes métodos de aplicación. Conclusión: La electroestimulación demuestra un gran potencial terapéutico para estimular los procesos de cicatrización en diversos tipos de heridas. Sin embargo, el efecto de la EE aún no está claro. Se necesitan más estudios, en los que la evidencia científica pueda definir los factores que mejoran la efectividad de la estimulación eléctrica.
DESCRIPTORES: Heridas y lesiones; Cicatrización de heridas; Terapia de estimulación eléctrica.
INTRODUÇÃO
As feridas que não avançam no processo normal de cicatrização e permanecem abertas por mais de um mês são classificadas como feridas crônicas(1). Quando não cicatrizam a longo prazo, podem comprometer a qualidade de vida e acarretar custos significativos. Uma estimativa de gastos com feridas em diversos países apontou, em 2019, que os Estados Unidos da América tiveram uma despesa de $ 126,8646, enquanto que o Brasil, na 8ª posição, teve um gasto estimado de $ 6,4386(2). Estes dados retratam o fardo econômico enfrentado por várias nações ao redor do mundo.
Uma das principais etiologias para o desenvolvimento de feridas crônicas é o Diabetes mellitus. O diabetes mellitus é uma doença metabólica caracterizada por hiperglicemia(3) e, quando somada à obesidade, faz com que os indivíduos portadores apresentem maior risco para o surgimento desse tipo de ferida. Entre as complicações do diabetes mellitus, destacam-se a neuropatia relacionada ao diabetes, a doença arterial periférica e as infecções, que favorecem o desenvolvimento de úlceras nos pés e nas pernas, comprometendo significativamente a qualidade de vida do paciente(4).
Contudo, além das lesões associadas ao diabetes, outras etiologias, como a lesão por pressão, a insuficiência venosa e a insuficiência arterial, também representam importante parcela das feridas crônicas e contribuem para a elevada demanda assistencial. Ademais, a maioria das pessoas que convivem com feridas abertas crônicas geralmente apresentam outras condições de saúde associadas, o que contribui para a complexidade do tratamento.
Diante desse cenário, o manejo adequado das feridas crônicas constitui um desafio e requer intervenções capazes de favorecer a cicatrização e prevenir complicações. Abordagens atuais no tratamento de feridas, na sua maioria, baseiam-se em curativos tradicionais que possam absorver o exsudado excessivo, manter umidade suficiente e fornecer uma barreira protetora contra o ambiente externo (6).
Alguns desses curativos são utilizados em feridas recobertas por necrose, na presença de osteomielite ou em feridas neoplásicas(7). Para essas aplicações, envolve-se a incorporação de agentes terapêuticos, como anti-inflamatórios, antibióticos, compostos antibacterianos ou fatores angiogênicos, que são liberados diretamente no leito da ferida(8) com o objetivo de favorecer o processo de cicatrização. Embora esses recursos representem importantes avanços no manejo das feridas, os desafios relacionados à cicatrização, especialmente em feridas crônicas, têm impulsionado a investigação de terapias adjuvantes capazes de potencializar esse processo. Entre essas estratégias, destaca-se a eletroestimulação.
Eletroestimulação é uma aplicação exógena do campo elétrico para acelerar o processo de cicatrização de feridas, imitando a corrente natural de uma lesão(09). A migração celular direcionada sob a influência de um campo elétrico natural é conhecida como galvanotaxis. Tendo em vista que as feridas crônicas têm uma corrente de ferida mais fraca que retarda a migração, proliferação e diferenciação celular(10), espera-se que a eletroestimulação restaure a corrente da lesão e acelere a recuperação da ferida.
Quando a integridade da pele é danificada, um campo elétrico endógeno será gerado na ferida e uma série de reações fisiológicas será iniciada para fechá-la (11). O campo endógeno da ferida tem um efeito promotor em todas as fases da cicatrização. Em feridas que não cicatrizam sozinhas, a ação do referido campo pode auxiliar na estimulação e na manutenção das fases.
O tratamento pela eletroestimulação é considerado vantajoso pelo custo-efetivo e por apresentar poucas complicações; além disso, é considerado uma terapia adjuvante para acelerar a cicatrização de feridas agudas e crônicas, lesões por pressão e úlceras nos pés relacionadas ao diabetes (12).
Diversas formas de aplicação da EE na cicatrização de feridas cutâneas, tem sido amplamente exploradas, e a grande variação nos protocolos utilizados gera incertezas sobre a eficácia e o melhor protocolo aplicável no tratamento(13,14,15).
Apesar dos resultados promissores, diferentes modalidades de eletroestimulação têm sido empregadas na prática clínica e em estudos experimentais, utilizando distintos tipos de correntes e parâmetros de aplicação. Essa heterogeneidade dificulta a compreensão sobre quais estratégias apresentam maior potencial terapêutico para a cicatrização de feridas. Nesse contexto, esta revisão teve como objetivo analisar os tipos de eletroestimulação descritos na literatura para o tratamento de feridas cutâneas, fornecendo uma visão geral sobre os tipos de correntes aplicadas para melhor compreender a eficácia ao promover a cicatrização.
MÉTODOS
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida conforme estratégia metodológica de Mendes, Silveira e Galvão(25), que compreende as etapas: elaboração da pergunta norteadora da pesquisa, busca na literatura, coleta de dados, avaliação crítica dos estudos, análise e síntese dos resultados e apresentação da revisão.
Para execução do estudo a identificação do tema foi por meio do acrônimo PICO, onde elaborou-se a questão de pesquisa. Desta forma, classificou-se: P- Ferida; I- tipos de Eletroestimulação; C- Não aplicável; O- Cicatrização. Por meio desta estratégia emergiu a seguinte questão norteadora: Quais os tipos de eletroestimulação são utilizados no tratamento de feridas cutâneas?
A busca de dados foram levantados a partir das bases eletrônicas: Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Biblioteca virtual de Saúde (BVS), na qual foram consultadas as bases de dados da Literatura Latino Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e da Medical Literature Analysis and Retrievel System Online MEDLINE via PubMed utilizando os seguintes descritores: Ferimentos e lesões; Cicatrização de Feridas; Terapia por estimulação elétrica e seus correspondentes em inglês e espanhol, combinados por operadores booleanos (AND/OR).
Nesta etapa refinou-se a busca ponderando os critérios de inclusão para seleção dos artigos: resumos disponíveis e alinhados ao objeto da pesquisa, artigos publicados em português, inglês e espanhol que abordassem a temática do uso da eletroestimulação no tratamento de feridas e que fossem disponíveis na integra e de forma gratuita obedecendo o Período de 01/01/2017 a 31/12/2025. Como critérios de exclusão, definiu-se: teses, dissertações, artigos não disponíveis para leitura na íntegra de forma gratuita e artigos duplicados.
A seleção dos estudos foi realizada por meio da leitura exploratória dos títulos e resumos, com a eliminação das duplicidades. As publicações elegíveis foram identificadas e selecionadas para a leitura integral dos textos completos. Por fim, os estudos selecionados foram submetidos à extração dos seguintes dados: autor/ano, título/desenho do estudo, tipo de ferida, tipo de eletroestimulação, objetivo do estudo e resultado. Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas (Microsoft Excel) e posteriormente sistematizados em quadros para fins de análise e discussão.
A apresentação e a organização dos resultados da revisão integrativa foram conduzidas com base nas recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA)(26) e o fluxograma foi utilizado para descrever de forma sistemática o processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos, assegurando transparência e rigor metodológico.
RESULTADOS
Neste ínterim, seguindo a definição dos descritores, a busca resultou em 111 artigos que após leitura dos títulos e resumos foram selecionados aqueles que expressavam alinhamento ao objeto da pesquisa sendo incluídos nesta revisão integrativa 05 artigos conforme fluxograma indicado na figura 1.
Fonte: Prisma 2020
O levantamento nas bases de dados resultou em cinco artigos selecionados para este estudo, cujos dados de catalogação podem ser observados na Tabela 1.
Sobre os artigos, pode-se inferir que eles possuem uma distribuição paritária quanto ao idioma da redação. No tocante ao desenho do estudo, observam-se três revisões sistemáticas com meta-análise, dois ensaios clínicos randomizados e controlados, sendo um duplo-cego. Dentro do recorte temporal estipulado, foi encontrado um trabalho em cada ano (2018, 2021, 2023) ao passo que dois em 2022. Com relação aos objetivos dos estudos e os tipos de feridas, observou se que, guardadas as peculiaridades de cada um, todos envolviam aspectos da eletroestimulação como tratamento de úlceras diabéticas, úlceras venosas, feridas, lesão por pressão, feridas crônicas e no pé diabético. Por fim, no que concerne aos resultados, houve predominância na redução das áreas de feridas e úlceras.
Tabela 1. Distribuição dos artigos por autor, ano, título e desenho de estudo, tipo de ferida, tipo de eletroestimulação, objetivo do estudo e resultado.
Autor/ano | Titulo/ desenho do estudo | Tipo de Ferida | Tipo eletroestimulação | Objetivo do estudo | Resultado |
Zheng et al,2022, | Effect of electrical stimulation on patients with diabetes-related ulcers: a systematic review and meta-analysis | Úlcera diabética | Corrente pulsada Corrente continua | Compreender a eficácia da estimulação elétrica (ES) no tratamento de pacientes com úlceras relacionadas ao diabetes. | Mostrou-se eficaz na redução da área da úlcera e Aumento nas taxas de cicatrização com IC:95% e P < 0,05 |
Melotto et al,2022. | The effects of electrical stimulation on diabetic ulcers of foot and lower limb: A systematic review and meta-analysis. | Úlcera diabética | Corrente Pulsada e Corrente continua | Analisar os resultados sobre os efeitos da EE utilizada em combinação com o tratamento padrão de feridas (TPF) no tratamento da ulceração do pé diabético,(UPD) | Mostraram que a taxa de cicatrização parece ser maior entre as úlceras diabéticas tratadas com EE. |
Rajendran et al,2021. | Electrical Stimulation to Enhance Wound Healing:A systematic review and meta-analysis | Feridas agudas Feridas crônicas: Úlcera diabética, vasculares e úlcera por pressão | Corrente Pulsada Corrente continua | Compreender como a estimulação elétrica (EE) influencia os mecanismos celulares envolvidos na cicatrização normal de feridas cutâneas, seus efeitos antibacterianos e a eficácia clínica da EE na aceleração da cicatrização de feridas crônicas. | indicam que EE, principalmente a corrente pulsada pode melhorar a cicatrização de feridas crônicas Desfechos secundários: perfusão da ferida e cicatrização completa, também foram positivos após a exposição. |
Polak et al,2018. | A Randomized, Controlled Clinical Study to Assess the Effect of Anodal and Cathodal Electrical Stimulation on Periwound Skin Blood Flow and Pressure Ulcer Size Reduction in Persons with Neurological Injuries | Úlceras por Pressão no Estágio 2 a 4 | corrente pulsada monofásica de alta voltagem (CPMAV) catódica e anódica | avaliar os efeitos da corrente pulsada monofásica de alta voltagem (CPMAV) catódica e anódica no fluxo sanguíneo cutâneo perilesional (FSCP) e na redução do tamanho de UPP de Estágio 2 a Estágio 4 | Ambas as modalidades EE melhoraram o fluxo sanguíneo e a taxa de redução da área da ferida |
Zulbaran-Rojas et al,2023, | Home-Based Electrical Stimulation to Accelerate Wound Healing-A Double-Blinded Randomized Control Trial. | Úlceras crônicas no pé diabético. | Corrente alternada pulsada de alta voltagem interativa (HVPAC | Examinar a eficácia da EE diária(E-Stim) para acelerar a cicatrização de feridas. | Primeiros dados sobre a eficácia após 4 semanas com redução da área da úlcera em 22% |
A eletroestimulação usada como tratamento de feridas cutâneas apresenta diversos modos de corrente. Dentre os modos que emergiram nos estudos, está a corrente pulsada (CP), corrente alternada pulsada, quando os elétrons oscilam no polo positivo e negativo dos tecidos envolvidos, ambas de alta voltagem e a corrente continua (CC). Outra forma de estimulação elétrica (EE) encontrada é através da associação das correntes citadas que atuam concomitantemente.
No estudo comparativo com placebo ou tratamento padrão (TP) com a EE, feito por ZHENG et al. (2022) que incluiu ensaios clínicos randomizados (ECR), os autores identificaram como modo de tratamento a CP e a CC aplicadas de forma isolada em úlcera diabética no período de 4 a 12 semanas. Para esses autores, as correntes aumentaram a perfusão tecidual e estimularam a angiogênese, não havendo diferenças estatísticas entre CP e CC quanto à cicatrização e à redução da área da úlcera. No entanto, a estimulação elétrica com a CP apresentou um potencial benefício comparado à CC.
Estudo comparativo entre um tratamento simulado e a EE, conduzido por RAJENDRAN et al. (2021) que também envolveu ensaios clínicos randomizados (ECRs), investigou a longo prazo o efeito da EE nos mecanismos da cicatrização e a eficácia durante o tratamento das feridas. Os resultados demonstraram em experimentos in vivo (feridas crônicas) e in vitro que a EE através da CP e CC quando aplicadas nas úlceras diabéticas, úlceras de pressão e úlceras vasculares aumentam a perfusão sanguínea da ferida, controlam o crescimento bacteriano, aumentam a migração de fibroblastos, induzem a angiogênese e estimulam a atividade dos queratinócitos. Além disso, os autores referem que na maioria dos estudos, a CP de alta voltagem mostrou melhores resultados de cicatrização em relação à CC. Entretanto, neste mesmo estudo, uma metanálise de diferentes EE feita por Khouri et al. (2017), apontou que a CC melhorou a redução do tamanho da ferida crônica quando comparada com a CP.
No estudo comparativo entre EE e o tratamento padrão de feridas (TPF), feito por MELOTTO et al. (2022) através de revisão sistemática, analisou a EE aplicada em úlcera diabética, sendo a CC no período de 4 a 16 semanas enquanto a CP de 8 a 12 semanas. Esses autores constataram que a taxa de cicatrização parece ser maior nas úlceras tratadas com EE do que com TPF. Entretanto, as análises dos efeitos da EE sobre as úlceras mostraram conclusões insuficientes em função do alto risco de viés e dos dados obtidos, o que não permitiu aos pesquisadores compreenderem a frequência do uso da EE e a duração de cada aplicação. As diferenças de métodos entre os artigos dificultaram a comparação dos resultados, ainda que sejam promissores.
No estudo de POLAK et al. (2018) clinico, randomizado e duplo cego, conduzido para avaliar a EE com corrente pulsada monofásica de alta voltagem (CPMAV) e aplicada na úlcera de Pressão no estágio 2 a 4 no período de 4 a 8 semanas, melhoraram o fluxo sanguíneo e a taxa de redução da área da ferida. Entretanto, os autores chamam a atenção para que outros estudos possam analisar o tempo ideal de tratamento no alcance da cicatrização.
No estudo de ZULBARAN-ROJAS et al. (2023), através de um ensaio clínico, randomizado e duplo-cego, conduzido para analisar a EE com corrente alternada pulsada de alta voltagem (HVPAC) aplicada nas úlceras crônicas no pé diabético no período de 4 semanas, demonstrou-se um aumento na perfusão tecidual perilesão e uma redução significativa na área da ferida, o que são fortes preditores de cicatrização.
Em geral, a maioria dos estudos demonstrou cicatrização acelerada de feridas com o uso de eletroestimulação (EE) em comparação com a terapia padrão e placebo. Existem diversas modalidades de EE disponíveis e utilizadas com sucesso para a cicatrização de feridas; no entanto, o número de estudos tem variação em quantidade e qualidade entre diferentes modos de aplicação(13).
Fica evidente que a estimulação elétrica(14) é uma ferramenta em potencial para cicatrização de feridas, atuando diretamente nos tecidos para estimular um comportamento cicatrizante. Embora possa induzir várias respostas teciduais na promoção da cicatrização, ainda não foi estabelecida como um método de tratamento aceito (15). Todavia, mostra-se promissora em diferentes formas de tratamento que podem levar a melhores resultados(10) com menos efeitos adversos(16).
DISCUSSÃO
Sabe-se que a estimulação elétrica promove a cicatrização de feridas e úlceras desde a década de 60(11), quando demonstrou eficácia na redução de cicatrizes em lesões de varíola. Desde então, as evidências apontam a eletroestimulação como tratamento de diversas etiologias de feridas e sua aplicação ao longo do tempo foi sendo ampliada para feridas crônicas, isquêmicas e lesões por pressão.(17) Nesse ínterim, tem havido interesse na utilização desta modalidade por empresas médicas e seguradoras.
Dentre os estudos apresentados, a maioria reconhece os potenciais benefícios da estimulação elétrica como uma intervenção complementar ao tratamento de feridas agudas e crônicas, com alto valor na influência dos processos normais envolvidos na cicatrização de feridas(3,4,5,7,14). Em conjunto, os resultados podem ser interpretados de forma otimista.
No que concerne ao modo de tratamento, a CP e a CC, foram mencionadas em três estudos, como mais eficazes do que o tratamento padrão convencional(3,4,5). Em um deles, apesar dos autores citarem resultados promissores, não apresentam dados que sustentem uma análise dos efeitos da EE nas úlceras.(3) No entanto, sugerem que os estudos futuros forneçam dados sobre a adesão dos pacientes à intervenção com estimulação elétrica (EE) e uma descrição das úlceras diabéticas não cicatrizadas utilizando classificações validadas. Sobre a corrente pulsada de alta voltagem (CPAV) citada em dois, estudos(7,14), destacam o efeito terapêutico positivo obtido comparado ao grupo controle, quando aplicadas sobre as feridas ou em bordas opostas, demonstrando melhora significativa. Esses resultados podem sugerir maior eficácia de um modo de corrente; no entanto, seria prematuro recomendar o uso de uma modalidade em detrimento da outra.
Embora os estudos relatem aumento nas atividades celulares, na perfusão tecidual periferida e o estimulo da angiogênese, que são fatores que promovem a cicatrização, destaca-se que a EE como terapia ainda encontra barreiras(18), atribuídas a falta de análise do custo – efetividade(19) e aos inúmeros dispositivos de eletroestimulação disponíveis no mercado, uma vez que apresentam diversas configurações no tipo de corrente, na duração e no tempo de aplicação(20).
Apesar da reconhecida ação da EE na redução do tamanho das úlceras e no estimulo da cicatrização, diante da variedade e dos modos de aplicação de correntes, não existe consenso sobre os efeitos e os melhores parâmetros a serem usados na EE.(21,22)., fato reforçado na heterogeneidade dos desenhos dos estudos e no tamanho da amostra, quando dificulta a comparação dos resultados(4,14).Com efeito, os artigos diferem em desenho, características da intervenção, modalidade de EE, tamanho e gravidade das feridas(3,4,5,7,14,). Essas diferenças podem comprometer a generalização dos resultados. Logo, parâmetros variados encontrados no estímulo de diversas feridas resultam em distintas respostas de cicatrização.
Na literatura a EE é apontada como terapia adjuvante no tratamento de feridas.(8,10,12,15,17,18) e os estudos que emergiram desta pesquisa, trazem em comum, resultados que convergem com a literatura. No geral, os estudos mostraram que a EE tem o potencial para promover a cicatrização e posteriormente se estabelecer como um componente essencial no arsenal de terapias utilizadas.
O uso da EE em feridas de causas metabólicas, como úlceras diabéticas, úlceras vasculares, feridas crônicas no pé diabético e úlceras no pé diabético, foi mencionado em quatro estudos(3,4,5,14), fato que demonstra uma convergência com a literatura, quando referem que as úlceras diabéticas(12,13,22,27) e as feridas crônicas(10,19,21) são resistentes aos tratamentos convencionais.
Uma revisão sistemática e metanálise evidenciou que a eletroestimulação tem um benefício significativo quando comparada ao placebo ou ao tratamento padrão de pacientes com úlceras relacionadas ao diabetes. Neste estudo, o desvio médio padrão (DMP) de 2,79, IC 95%: 1,58–4,01) e a cicatrização foi de 0,72, IC 95%: (0,54–0,96) fazendo referência à porcentagem da úlcera e à taxa de cicatrização(3). Em contrapartida, uma revisão sistemática que envolveu estudos primários quantitativos, como ensaios clínicos randomizados (ECR) e estudos observacionais (tanto estudos de coorte prospectivos quanto estudos retrospectivos), revelou resultados inconclusivos do uso da estimulação elétrica no tratamento de úlceras no pé diabético, onde se relacionaram aos diferentes esquemas terapêuticos encontrados entre os estudos (4).
Neste contexto, os artigos da literatura, revelam nos resultados que a estimulação elétrica em várias modalidades de tratamento alcança percentuais de redução nas áreas de feridas agudas, crônicas e nas úlceras no pé diabético, vinculadas ao aumento nas taxas de cicatrização(3,10,11,12,14,27), contrariando o estudo exposto como inconclusivo.
Em dois estudos(5,7), a EE foi aplicada na úlcera por pressão, onde a cicatrização geralmente é um processo longo e requer diversos métodos de tratamento, muitas vezes dispendiosos.(18)
Nos estudos, a corrente pulsada de alta voltagem, mostrou resultados positivos em relação às áreas das feridas e ao processo de cicatrização. No primeiro estudo(7), as úlceras por pressão (UP) com tamanho inicial variando de 1,01 cm² a 59,57 cm², localizadas com maior frequência na região sacral (73,77%) e classificadas como Estágio 3 (62,29%), evidenciou redução na área da superfície da ferida, estatisticamente significativa (P < 0,05).= 0,049).
O segundo estudo(5) que avaliou os efeitos da EE em diferentes tipos de feridas crônicas, dentre elas a úlceras por pressão, cujo o resultado indicam como a estimulação elétrica (EE), principalmente a corrente pulsada de alta voltagem (CPAV), pode melhorar a cicatrização de feridas crônicas com a administração regular. Desfechos secundários, como perfusão da ferida e cicatrização completa, também foram positivos. Além disso, a corrente pulsada reduz significativamente o tamanho de feridas crônicas quando comparada a grupos controle sem EE.
Já em outro estudo, curiosamente, uma metanálise conduzida por Arora et. (2020) envolvendo 20 ECR, mostrou achados semelhantes. Embora os autores tenham classificado evidências como 'moderadas' (seguindo a escala GRADE - Grading of Recommendations Assessment, Development and Evaluation), em uma amostra de 561 participantes (613 úlceras), a estimulação elétrica (EE) garantiu uma taxa de redução semanal (TRS) mais alta (+4,59%) em comparação com a EE simulada (p < 0,0001).
Achados semelhantes, foram identificados em um estudo(18) que explorou a produção bibliográfica acerca da estimulação elétrica no tratamento da lesão por pressão de grau II a IV. Dos resultados relevantes, destacou-se que a EE de alta voltagem no período de 3 a 12 semanas alcançou uma redução de 64% a 100% das referidas úlceras, além de recomendar o uso desta terapia.
Sobre isso, esta recomendação corrobora com as orientações clínicas publicadas em 2019 e 2020 por especialistas(23,24) ao confirmarem que esta terapia estimula os processos de proliferação e maturação da lesão por pressão. Além disso, cita a corrente pulsada de alta voltagem como o tipo de corrente mais indicado para o tratamento, o que converge da encontrada no presente estudo(5,7), onde foi demonstrado que as lesões de categoria II a IV tiveram suas áreas reduzidas após o uso da referida corrente.
A tomada de decisão dos profissionais da área da saúde é complexa quando falamos de tratamento de feridas de difícil cicatrização e que não respondem aos curativos convencionais. Isso reforça a necessidade de explorar a estimulação elétrica como complemento ao tratamento atual de feridas. Um problema comum, porém complicado, é que, na maioria das vezes, a escolha do tratamento não é consensual, exige abordagens multidisciplinares. Os dilemas prendem-se sobretudo aos tratamentos longos e árduos, razão pela qual a busca por novos métodos que possam melhorar a cicatrização de feridas sem causar danos ao tecido, seja contínua.
Nesta pesquisa os estudos demonstram que a EE aplicada em feridas agudas ou crônicas tem o potencial de estimular a cicatrização, melhorando a perfusão ao redor da ferida e a redução no tamanho da mesma. Neste contexto, a literatura aponta a possibilidade de usar a EE como terapia física adjuvante(6,8,11,15,16,20). No entanto, esta revisão não permitiu concluir qual a EE mais eficaz devido à variação de correntes e parâmetros utilizados.
O presente estudo apresenta limitações e os resultados podem ser afetados pelo pequeno tamanho das amostras e pela heterogeneidade dos desenhos de estudo. Outra limitação é que a variedade nos protocolos de tratamento dificulta a determinação de um parâmetro ideal para um determinado tipo de ferida. Essas limitações precisam ser abordadas em estudos futuros, caso a EE se torne um tratamento amplamente conhecido.
CONCLUSÃO
A estimulação elétrica (EE) para o tratamento de feridas ainda não é amplamente praticada, embora seus benefícios potenciais venham sendo comprovados. Além disso, notadamente, vem se destacando no contexto do tratamento de feridas. Nesta pesquisa, modalidades de EE emergiram como opções de tratamento ao estimular os processos de cicatrização em pacientes com vários tipos de feridas.
A EE neste estudo se apresentou categorizada em três tipos: corrente continua, corrente pulsada e alternada de alta voltagem. A modalidade de corrente pulsada e alternada na forma isolada apresenta o potencial benefício de acelerar a cicatrização, mostrando melhores resultados quando comparada com a corrente contínua. O efeito diferenciado de cada modalidade de corrente ainda não está claro. São necessários mais estudos, nos quais as evidências científicas possam definir os fatores que potencializam a eficácia da EE.
Essencialmente, o fechamento bem-sucedido em um curto período de tempo e por meio de um procedimento indolor é o princípio fundamental no tratamento de feridas. Com a compreensão da ação e dos parâmetros definidos da estimulação elétrica e de seus benefícios, acredita-se que esta modalidade terapêutica possa acelerar a cicatrização de feridas e substituir curativos convencionais no futuro, seja por meio de dispositivos elétricos ou curativos inteligentes.
Por fim, o estudo destacou o uso da estimulação elétrica no tratamento de feridas, especialmente as que acometem os membros inferiores e a lesão por pressão, ao mesmo tempo evidenciou um potencial terapêutico nesta modalidade, mas que tem como fragilidade a ausência de padronização nos parâmetros. Além disso, revelou a escassez de estudos primários sobre os efeitos da eletroestimulação nesse contexto, apontando lacunas na produção cientifica.
REFERÊNCIAS
AGRADECIMENTOS
Ao Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual da Universidade Federal de São Paulo.
FINANCIAMENTO
Não aplicável.
DECLARAÇÃO DE CONFLITO DE INTERESSE
Os autores declaram não haver conflito de interesse.
Francisco de Assis Nascimento de Lima. Enfermeiro. Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicada à Regeneração Tecidual da UNIFESP. São Paulo. Brasil. E-mail: franlima3415@gmail.com. orcid.org/0009-0001-2169-2689. Telefone (63) 981538856.http://lattes.cnpq.br/0767955473256974.
Endereço: Rua C2, Quadra 8 Lote 2.Setor: Costa Esmeralda Norte
CEP:77829-016 Araguaína-TO.
Heitor Francisco de Carvalho Gomes. Médico, doutorado em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo. Professor Adjunto da Disciplina de Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo, Professor Orientador do Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual da UNIFESP. São Paulo. Brasil. E-mail: heitor.gomes@unifesp.br. orcid.org/0000-0002-1464-673X.Telefone:(11) 3385-4343 (ramais VoIP: 3053, 3052 ou 3054) http://lattes.cnpq.br/2266460253828291
Endereço: Escola Paulista de Medicina Programa de Pós-Graduação: Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual. Rua Botucatu, 740 – 2º andar - Vila Clementino - São Paulo-SP - CEP: 04023-62
Leila blanes. Enfermeira. Doutorado em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo. Docente permanente do Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Gestão aplicadas à Regeneração Tecidual da UNIFESP. São Paulo. Brasil. E-mail leilablanes@gmail.co orcid.org/0000-0002-692277Telefone: (11) 3385-4343 (ramais VoIP: 3053, 3052 ou 3054). http://lattes.cnpq.br/1898450330418640
Endereço: Escola Paulista de Medicina. Programa de Pós-Graduação: Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual. Rua Botucatu, 740 – 2º andar - Vila Clementino - São Paulo - SP - CEP: 04023-62.
Lydia Masako Ferreira. Medica. Doutorado em Cirurgia Plástica Reparadora - UNIFESP, Pós Doc University of California, San Francisco. Livre Docência UNIFESP, Profª. Titular Disciplina Cirurgia Plástica UNIFESP. Coordenadora Programa Pós Graduação Cirurgia Plástica UNIFESP (2018-2021). São Paulo. Brasil. E-mail: lydiamferreira@gmail.com.orcid.org/0000-0003-4587-509X.Telefone: (11) 3385-4343 (ramais VoIP: 3053, 3052 ou 3054) http://lattes.cnpq.br/1619822351741819
Endereço: Escola Paulista de Medicina. Programa de Pós-Graduação: Cirurgia Translacional. Programa de Pós-Graduação: Ciência, Tecnologia e Gestão Aplicadas à Regeneração Tecidual. Rua Botucatu, 740 – 2º andar - Vila Clementino - São Paulo - SP - CEP: 04023-062
Autor responsável para Correspondência
Francisco de Assis Nascimento de Lima.
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